Eu, Tu, Elas entrevistam: Aninha Costa, da Gibiteria

por Helô D’Angelo

A Gibiteria é uma das lojas de quadrinhos mais legais de São Paulo. Ela fica na praça Benedito Calixto (o que por si só já é muito amor), e reúne HQs mainstream e alternativas. Mas o que torna a Gibiteria ainda mais incrível é que um dos seus fundadores é uma menina, a Aninha Costa. Além de manjar muito (mas muito mesmo) de quadrinhos nacionais e internacionais, ela tem uma enorme preocupação em abrir espaço para as minas quadrinistas e para as leitoras, sempre lutando contra  machismo no meio.

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A Anninha que decorou o interior da Gibiteria. É demais!

O Eu, tu, elas bateu um papo com ela sobre o sexismo do mundo nerd e sobre as novas minas das agaquês que estão dominando o mercado e fazendo coias muito boas por aí.

Eu, tu, elas: O mundo dos quadrinhos é bastante machista, ainda hoje. Ajudou a criar a Gibiteria, uma das lojas de quadrinhos mais famosas e legais de São Paulo. Como foi lidar com essa questão? Você já chegou a sofrer preconceito por ser mina?

Aninha Costa: Nós tentamos fazer da Gibiteria um espaço seguro para as mulheres. Uma das ideias desde o começo da loja era que ela não fosse tão masculina, porque lojas de quadrinhos, em geral, têm problemas para acolher mulheres. É um clube do Bolinha, quase sempre. Mas tanto o nosso acervo quanto o espaço e o nosso atendimento são bacanas para mulheres.

Eu já sofri bastante preconceito. Tem muito homem que não quer ser atendido por mim, ou que não acredita no que eu falo, que fica me testando, me perguntando todo o tipo de coisa sobre conhecimentos geais do mundo nerd.

Tem homens que entram na loja e pedem ajuda para outro cliente e não para mim, porque acham que o cara que está na loja é o vendedor, e não a menina. 

Então, acontece, tem uns caras que ficam constrangidos de ter que conversar com uma menina num espaço que eles achavam que seria mais seguro para eles. Mas tentamos receber todo mundo de um jeito bacana.

“Infelizmente, há poucas mulheres na história dos quadrinhos. É uma realidade”. Esta foi a explicação de Franck Bondoux, diretor do Festival de Angoulême Internacional de Quadrinhos, para a ausência de mulheres na lista dos 30 indicados ao prêmio deste ano. Qual é a sua opinião sobre esse assunto? Se pudesse responder a Bondoux, o que diria?

Angoulême fez um papelão de não selecionar mulheres para a lista. E isso é um problema histórico que se repete com a mulher nos quadrinhos. Nós somos sistematicamente apagadas da história dos quadrinhos. Há muitas mulheres importantes na história das HQs, mas ninguém lembra que elas tenham existido. Elas podem ser redescobertas depois, mas nunca serão tão valorizadas quanto elas merecem, ou quanto homens.

Isso acaba influenciando na quantidade de mulheres que se envolvem com os quadrinhos. Então, sim, comparativamente, existem menos mulheres do que homens trabalhando no grande mercado de quadrinhos. Mas isso é uma tendência que está mudando.

Mas não importa. Se você tem, digamos, 30% de mulheres no mercado, você não pode ter 0% de indicadas ao prêmio. Existem mulheres e existem  mulheres boas. Por que elas nunca são reconhecidas? É um problema do sistema que desvaloriza o trabalho delas.

Se eu pudesse responder a ao Bondoux… Não seria fácil responder educadamente (risos), mas eu responderia que representatividade importa. E pediria um pouco de consideração pelos outros. E pelas outras.

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Aninha em seu ambiente de trabalho: ela já foi testada várias vezes por clientes homens

No ano passado, o prêmio HQMix fez uma propaganda machista, convidando o público a “bombar” o corpo seminu de uma modelo. Lembro que você fez um comentário sobre isso se posicionando contra. Você poderia comentar essa questão?

Curiosamente, o HQMix tem a mesma postura de Angoulême. É triste, é antiquado, mas eu tenho esperança que nesse ano, eles façam algo a respeito. O que aconteceu em 2015 foi horrível. Além de ter muito poucas mulheres indicadas para o prêmio, aquela piada foi nojenta.

Foi uma piada, mas tem ficado cada vez mais difícil engolir esse tipo de coisa. Em 2015 o movimento feminista cresceu muito, e fazer uma piada desse tipo desconsidera que a mulher possa ser contemplada pelo prêmio tanto como autora quanto como público.

Não foi o melho momento do HQMix. Isso total desconsiderou o que [o movimento feminista] vinha fazendo e vinha falando. Foi muito ofensivo, muito chato e muito desagradável. Nós nos organizamos, autores, desenhistas, roteiristas, livreiros e leitores, homens e mulheres, e escrevemos uma carta de repúdio, que era aberta para qualquer um assinar.

Conseguimos muitas assinaturas nessa carta, que pedia a retratação do HQMix. As respostas vieram muito tarde e de forma pouco satisfatória, e em geral não ficamos felizes. Mas, como sabemos que existem pessoas dentro da organização que estão com a gente, e que não têm a mesma mentalidade desses que fizeram o anúncio, temos esperança.

Pelo que você observou no seu trabalho e nas suas leituras, quais as maiores dificuldades que as mulheres quadrinistas enfrentam hoje? Como incentivar a produção feminina?

As maiores dificuldades que as mulheres quadrinistas efrentam hoje, na minha opinião, são: essa questão do apagamento na história e essa coisa da relevância delas ser sempre colocada em segundo plano. Isso gera um desânimo.

Então, passa a a ser um pblema que se autoalimenta: a partir do momento que você não reconhece uma mulher, outra mulher que quer entrar no mercado pode se sentir desistimulada e desistir. Não são poucas as mulheres que desistem do mercado de quadrinhos.

Os critérios de avaliação aos quais as mulheres são submetidas quando fazem uma história em quadrinhos são diferentes daqueles aos que os homens são submetidos. Enquanto isso não for igualado, vai ser difícil para as mulheres se destacarem.

Mas o que a gente, enquanto público, pode fazer é comprar os quadrinhos dessas mulheres, ler, fazer críticas construtivas, apoiar essa produção e os financiamentos coletivos delas, oferecer espaços para que elas possam vender suas HQs, como fazemos na Gibiteria. É importante que haja espaço no comércio e na mídia para essas mulheres. Não adianta falar e não fazer. Esse preconceito precisa acabar.

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Anninha quebra o mito de que HQ é “coisa de menino”: além de novas autoras e de mais leitoras, a Marvel investe cada vez mais em personagens femininas, como a Hellcat (cuja equipe é inteira de mina!)

Há quem acredite, ainda hoje, que quadrinhos são “coisa de menino”. O que você diria para uma pessoa que pensa assim?

Essa é uma coisa que me enlouquece. As pessoas têm mesmo essa ideia. Eu gosto de falar para essas pessoas que, no mundo dos quadrinhos, existe tudo o que existe no mundo dos livros. Tem romance, aventura, ficção científica, drama, jornalismo, terror, humor, biografias. E as pessoas acham que quadrinhos são “coisa de menino” porque elas acham que quadrinho é super herói e essa é uma imagem errada, reducionista e limitada do que o mercado de quadrinho é.

Mas super heróis também não são coisa de menino! Isso é a mesma coisa que falar que livro de drama e de romance é coisa de menina. Cada um lê o que quiser, eu mesma gosto de livro de aventura, e meu personagem favorito é o Hellboy.

Hoje, o mercado de quadrinhos, principalemente nos EUA, está percebendo que as mulheres existem. Existem várias mulheres fazendo uma carreira legal nos quadrinhos, como desenhistas e roteiristas. E tem algumas mulheres trabalhando na Marvel e na DC, embora ainda seja uma porcentagem mínima em relação aos homens.

Muitas vezes, as mulheres são encarregatas dos quadrinhos que são voltados para o público feminino. O gibi da Hellcat, que é a Trish, aquela amiga da  Jessic Jones, tem uma equipe inteira feminina. Outros exemplos são o novo Thor, que agora é uma mulher, e a Miss Marvel, que é uma adolescente e muçulmana. Tem muitos quadrinhos independentes sendo lançados, quadrinhos que não subestimam a inteligência e o interesse das mulheres.

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A entrevistada: Aninha Costa é fundadora da Gibiteria, designer de mobiliário, desenhista industrial e incrivelmente foda.

 

Helô D'Angelo
A entrevistadora: Helô D’Angelo tem 21 anos na cara e nenhuma ideia do que quer fazer da vida quando terminar a faculdade de jornalismo.
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