Carta para uma caloura

por Helô D’Angelo

Querida caloura,

eu sei como é. Depois de um tempão de estudos e privações e de várias provas destruidoras, você finalmente consegue entrar na faculdade. Oba! É hora de comemorar. Então, você pensa: “Ei, é uma vida nova. Eu posso ser o que quiser”!

E você decide ser legal.

Feliz, você começa indo ao trote. É tradicional, sempre existiu e parece divertido, mas você não faz ideia do que te espera. Você pode não gostar de beber, mas decide tomar toda a Jurupinga que te enfiam goela abaixo. Porque você quer ser legal. Os veteranos, mesmo vendo que você está bêbada, passam a mão em você. Se aproveitam. Cortam a sua roupa, te pedem para você rebolar no ‘pedágio’. Alguns te mandam chupar um pepino ou uma banana. Mas tudo bem. Você quer ser legal.

Você começa a frequentar as festas. Geralmente, as baladas universitárias são open bar, e a sobriedade não é uma opção. Mas tudo bem, porque você quer ser legal. Então, você bebe. Passa mal. Continua bebendo. Você talvez nunca tenha feito isso. De novo, os veteranos vêm passar a mão. Um deles até tenta te beijar à força – ou pior. Mas tudo bem, porque você quer ser legal.

Não, amiga caloura. Não está tudo bem.

Amiga bixete, antes de começar a faculdade, aqui vai um conselho de alguém que já esteve no seu lugar: essa história de ‘ser legal’ não existe. O que existe é você ir além dos seus limites e não se respeitar para agradar pessoas que, na verdade, não dão a mínima para você. 

 

Então, vamos lá. Quando entrar na faculdade, procure as minas. Encontre a Frente Feminista e fique amiga de meninas com quem você se sinta bem. Converse com as minas veteranas, ouça os conselhos delas. É sempre bom estar em bando em um ambiente tão machista quanto a universidade – e, além disso, você pode fazer amigas para a vida toda. Aos poucos, você vai percebendo o quanto estar entre minas pode te fortalecer enquanto universitária e enquanto mulher. Não subestime isso e não subestime o feminismo dentro da universidade.

Desconfie dos veteranos. “Veteranismo” é a sensação de que os veteranos, por serem mais velhos e mais experientes, precisam ser agradados e conquistados a todo custo. É como se eles fossem prêmios valiosos; como se você só tivesse valor se um deles te curtisse. Já no segundo ano, você começa a perceber que isso é a maior besteira do mundo; uma idealização sem tamanho.

Na entrada da faculdade, porém, é normal que você se sinta atraída por veteranos – e que eles pareçam incríveis e perfeitos. Cuidado com isso, amiga bixete: muitos desses caras têm completa noção da posição privilegiada deles, e usam essa vantagem para conquistar as calouras e, muitas vezes, para abusar delas. É claro que não tem problema nenhum você se relacionar com veteranos, mas fique atenta e saiba respeitar o que você quer, e não o que eles querem.  

Os professores também podem ser um problema. Mesmo que pareçam estar acima da lei, eles são seres humanos que devem seguir regras e respeitar as pessoas. Então, se você se sentir desconfortável, abusada, ofendida ou desrespeitada por algum docente, denuncie para a coordenação ou para o órgão que trata da relação dos alunos com os professores. Não se cale, a culpa não é sua, você tem, sim, o poder para lidar com isso.

Em qualquer situação, vá com calma e se respeite: não beba além do que você quer, não transe com quem você não quiser, não vá a lugares onde você não se sinta à vontade. A festinha na casa daquele veterano que você acha gatinho pode ser legal, mas se você sente que só bêbada vai aproveitar, pode ser que a coisa não esteja exatamente bacana.

Não estou dizendo que você não deva aproveitar seus primeiros anos, as festas e o trote. Pelo contrário: esses rituais são importantes para a vida de qualquer universitário, e experimentar é essencial. Mas eu tenho certeza que muitas das violências que eu sofri no meu ano de bixete teriam sido evitadas se alguém só tivesse me olhado nos olhos no meu primeiro dia de faculdade e dito:

Você é legal exatamente como é. Não precisa fazer nada para ser aceita, amada ou desejada. Não precisa fazer nada que te faça sentir desconfortável, culpada ou com medo”.

E veja bem: não estou jogando a culpa em mim ou em você por qualquer tipo de violência. Qualquer abuso é culpa do abusador, sempre. E também não estou dizendo que se eu não tivesse ido em determinada festa, flertado com determinada pessoa ou bebido na casa de fulano, eu não teria sofrido abusos. Mas acredito que, sem o peso emocional e sem a pressão de ser legal, eu teria tido um pouco mais de coragem para dizer ‘não’ em casos nos quais ‘consenti’ por medo ou culpa ou em situações nas quais me calei e deixei rolar porque achava que era o ‘certo’.

Só quero te dizer, amiga caloura, que você já é incrível. E que, daqui pra frente, você só ficará cada vez mais incrível, agregando experiências, fazendo amizades duradouras, iniciando projetos e definindo o seu futuro. Você não precisa criar uma personagem para agradar homens abusadores. Só se ame.

Com amor,

uma quase formada.

Helô D'Angelo
Helô D’Angelo tem 21 anos na cara e nenhuma ideia do que quer fazer da vida quando terminar a faculdade de jornalismo.

 

 

 

 

 

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10 comentários

  1. Isso é puro feminismo excessivo.
    Está generalizando.
    Faço faculdade e NUNCA vi na minha instituição qualquer relato que ela acusa no texto.
    A pessoa não tende a ser inocente só porque entrou numa faculdade. Muito menos a entrar numa faculdade com a consciência de que “vai sofrer abuso”, seja ele físico ou verbal. A grande maioria sabe muito bem o que faz e o que quer.
    Ser legal é diferente de ser ignorante.

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      • Fui bem clara que na instituição que eu frequento NUNCA vi. E em nenhum momento disse que não tem abuso, só não gostei do fato da autora do texto ter generalizado e afirmei que “a grande maioria” sabe bem o que faz.
        Presta atenção primeiro antes de comentar, fica a dica aí 😉

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      • Fui bem clara que na instituição que eu frequento NUNCA vi. E em nenhum momento disse que não tem abuso, só não gostei do fato da autora do texto ter generalizado e afirmei que “a grande maioria” sabe bem o que faz.
        Presta atenção primeiro antes de comentar, fica a dica aí 😉

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      • Na faculdade que eu estudo já passei por quase tudo isso, felizmente não cheguei ao nível de ser estuprada. Gratidão escritora, esse texto será usado para alertar as novas ingressantes na nossa universidade ❤

        Curtido por 1 pessoa

  2. Isso é muito real! Diversas meninas acabam sendo abusadas pela sua ingenuidade dentro da faculdade, muitas vezes um simples aviso já serviria para esse quadro mudar. Buscamos demais agradar às pessoas, fingimos ser quem não somos pela integração e aceitação no meio, o que abre portas para pessoas mal intencionadas nas nossas vidas.

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  3. Agradeço as dicas, na faculdade consegui me preservar exatamente porque não agrado a nada nem a ninguém se não for do jeito que eu gosto. Legal é ser vc mesmo, e não há nada de interessante ter que agradar aos outros o tempo todo. Curtir essa fase foi maravilhoso, e os amigos que fiz estão ao meu lado até hoje.
    Juntos somos mais. Ótimo texto, esclarecedor e mostra que vc se importa com o outro, isso é ser legal.

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