Guia honesto da primeira vez

Deixa eu adivinhar: quase todas as suas amigas já transaram e você não. Você está insegura, achando que tem algo errado com você, porque você não sente vontade de transar ainda. Quando surgem papos sobre sexo, você fica super mal, pensando que está ficando para trás. Você não se sente pronta, mas acha que deveria estar. Acertei?

Amiga, deixa eu te contar: não existe essa história de ‘deveria’, nem essa coisa de ‘estar pronta’.

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Ilustra: Helô D’Angelo

“Perder a virgindade” é um tabu enorme na nossa sociedade, e apesar de parecer ser fácil para todo mundo, ninguém fala o quanto é assustador fazer sexo pela primeira vez. E ninguém conversa sobre as inseguranças, as dificuldades, os medos, as vergonhas. Então, vamos falar exatamente sobre isso.

“Perder a virgindade”: uma frase que dá medo
Para mim, a expressão “perder a virgindade” sempre soou como uma coisa medieval, como se eu tivesse que casar com o primeiro cara que me comeu porque ele valentemente ~tirou minha virgindade~. Como se a “virgindade” fosse uma coisa que alguém pudesse tirar de você e que, sem ela, você se transformasse automaticamente em impura.

Meninas, por favor, vamos parar de romantizar a virgindade! Você não vai perder nada além do medo e da vergonha depois de transar pela primeira vez, se for uma relação respeitosa. E vamos lembrar também que a “primeira vez” nem sempre envolve penetração. Você pode transar com uma mulher, por exemplo, ou simplesmente preferir não ser penetrada. E tudo bem, não é um “sexo menor” por causa disso.

Conheça seu corpo
Perguntas indiscretas: você já se masturbou? Já olhou sua ppk no espelho? Já se tocou, sabe o que te excita e o que não te excita? Sabe um pouco de anatomia, entende seu ciclo menstrual?

Geralmente, a gente fica achando que é só “perder a virgindade” que tudo vai ficar bem na nossa vida sexual, mas não é bem assim. Sexo pode ser muito chato e até doloroso se você não conhecer seu corpo, seus prazeres e seus limites.

Uma amiga minha costuma dizer que, se você não sabe o que você gosta, como espera que seu parceiro ou sua parceira saiba?

Não é normal não gozar, por exemplo, e nem sentir muita dor. Se você estiver transando com penetração, sua vagina deve estar lubrificada, senão você vai se machucar. Algumas posições podem ser mais gostosas para você, outras, menos. Essas são pequenas coisas que você aprende mesmo antes de transar, só se tocando e se olhando no espelho, ou lendo sobre o corpo feminino. Não tenha medo nem vergonha: você pode fazer isso antes de dormir, depois do banho ou quando estiver sozinha em casa. Coragem!

Seu tesão manda
Sabe aquela sensação de que você está ficando para trás? Poisé, você não está. Isso não existe. A pior coisa do mundo é você transar pela primeira vez sem o menor tesão só porque você se sente obrigada.

Meu primeiro namorado, por exemplo, fez aquele jogo do “mas nós já estamos juntos há seis meses e é isso que casais normais fazem” e eu acabei cedendo. Sem estar excitada, acabei me machucando feio na vagina – cheguei a ter que cauterizar o ferimento. Depois disso, continuei trepando sem vontade e me machucando cada vez mais, só porque ninguém me disse o que eu estou dizendo agora:

A única coisa que importa na sua “primeira vez” e em todas as outras vezes é você estar com tesão e à vontade.

Você não é obrigada a transar com ninguém, mesmo que seja seu namorado ou sua namorada. Você não deve nada a ninguém, nem às suas amigas, nem à galera do bar. Você não está “atrasada”, simplesmente porque isso não existe. Você não é anormal ou estranha. E, por favor, você não precisa transar com ninguém para ser amada ou desejada.

Fale (honestamente) com suas amigas
Quando a gente começa a nossa vida sexual, é comum que os papos sobre sexo comecem. E é comum que a gente queira sempre ser a melhor, a mais experiente, a mais cheia de tesão, a ~diferentona~ do sexo.

Só que, na verdade, todo mundo exagera. Lembro de uma vez que eu transei na praia com um namorado e que, depois, comecei a usar isso como uma história para me vangloriar – mas o que eu não contava era que, depois disso, peguei uma infecção urinária feia que durou meses, e que culminou em uma candidíase crônica horrível. Mas tudo bem, né? Afinal, eu era super ~transarina~.

Fico pensando em quantos perrengues eu teria evitado se, em vez de competir com as minhas amigas para ver quem era a mais “transante”, eu tivesse sido franca e dito que, às vezes, eu sentia muita dor no sexo. Tenho certeza que elas iriam me ajudar, me dar dicas, me indicar médicas bacanas.

Ao mesmo tempo, eu poderia ter ajudado essas amigas – pessoas que eu descobri, anos depois, que nunca tiveram um orgasmo na vida, mas que contavam verdadeiras proezas na época em que estávamos “perdendo a virgindade”. Então, converse com as suas amigas e seja honesta: diga o que te incomoda, pergunte se elas sentem a mesma coisa, compare sensações. Isso é um exemplo de sororidade e a mídia não vai fazer isso!

Revistas mentem. Filmes pornô também.
Por falar em mídia, esqueça tudo o que você leu nas revistas femininas. Sabe aquelas coisas do tipo “como enlouquecer seu homem em 10 passos”? Amiga, geralmente, só tem bobagens ali; coisas que te fazem sentir ainda mais insegura e com medo. Além disso, raramente as revistas falam do seu prazer ou da sua anatomia (ou de sexo lésbico).

Falando em anatomia e prazer, saiba de uma coisa: pornografia é uma mentira imensa. Não, nenhuma mulher aguenta uma hora inteira de meteção frenética e forte. Não, ninguém consegue fazer sexo anal tão rápido. Não, nenhuma mulher é totalmente sem pelos e consegue ficar saudável assim. Gente, filme pornô é isso mesmo: um filme. É editado, retocado, tem maquiagem, trilha sonora, direção, direção de arte, iluminação, um elenco experiente – que faz pausas entre cada cena. Não fique com pornô na cabeça na hora de transar pela primeira vez; isso só vai te fazer sentir mais insegura.

Não deixe o ginecologista pra depois
Quer transar? Procure um gineco em quem você confie e que possa tirar suas dúvidas de uma forma bacana. Converse com ele ou ela sobre métodos anticoncepcionais, sobre inseguranças, sobre os seus medos, sobre suas expectativas. Peça indicações para as suas amigas, e lembre que, se você não se sentir confortável com um médico, trocar não é um problema. Não tenha medo nem vergonha: o médico está ali para te orientar, sem julgamentos nem piadinhas de mau gosto.

[Você pode encontrar ginecologistas feministas incríveis neste link]

Pequeno guia da primeira vez
Aqui vão algumas pequenas coisas para lembrar na sua primeira vez:

  • Estar à vontade e com tesão
    Se você está nervosa, não consegue ficar com tesão; sem tesão, você não fica lubrificada; sem lubrificação, você se machuca. Meu conselho é: não transe por pressão, transe por tesão. Relaxe, aproveite, é para ser gostoso!
  • Procurar alguém que te respeita
    Escolha alguém que te respeite para ter a sua primeira relação – não precisa ser um(a) namorado(a), mas é bom ser alguém em quem você confia pelo menos para ter cuidado com você. É lógico, o corpo é seu e você pode dar para quem você quiser, mas é bom saber que, no mínimo, o cara vai parar se você pedir.
  • Sem camisinha não tem festinha
    Parece bobo e careta, mas use camisinha sempre. DSTs e gravidez podem acontecer com qualquer menina, então previna-se. É legal você saber colocar, então, compre algumas camisinhas e pratique em casa com uma banana ou um pepino. Isso ajuda muito a diminuir o nervosismo na hora H. Procure saber mais sobre camisinhas femininas, também.
  • Vá com calma
    Repetindo: não faça nada que não te deixe à vontade ou que você não queira. Vá aos poucos, devagar, ouça seu corpo. Você pode parar a hora que quiser, não precisa sentir culpa – por isso, é importante escolher alguém que respeite seus limites para essa primeira transa.


* A autora pediu anonimato e é lógico que a gente deu

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