A falta de representatividade fragmentou meu lugar comum

por Giulia Ebohon

A falta de representatividade de homens e mulheres negras em diversos âmbitos sociais vem sendo tema de manchetes e ganhando pequenos espaços temporários na cota de assuntos relevantes dos grandes veículos de comunicação. A ausência de atores e atrizes negras entre os premiados no Oscar esquentou ainda mais a discussão.

Embora esteja no auge de sua visibilidade, há muito tempo pessoas que lutam contra o racismo apontam como a falta de representatividade é um instrumento de coerção da cultura e identidade negra.

Há muito tempo homens e mulheres negras engajados ou não no combate à discriminação racial sentem as consequências desse vazio de referências.

Eu sinto.

Me peguei pensando nos impactos dessa constante ausência no decorrer da minha vida, nas decisões que tomo e no modo como leio minha relação com o mundo.

De que maneira a falta de jornalistas negras, atrizes negras, princesas negras, bonecas negras influenciou na construção da minha identidade? Por que é tão importante se ver na capa de uma revista, na televisão, nas propagandas? Por que é tão importante se ver no outro?

Cheguei à reflexão de que a representatividade cria um lugar comum, onde há possibilidades plurais de escolhas. A representatividade me mostra que eu posso ser bem-sucedida fazendo o que eu gosto. A representatividade me diz que não preciso mudar meu cabelo ou ter outra cor de pele diferente para ser uma princesa ou estampar a capa de uma revista.

A não representação de mulheres negras fragmenta nosso lugar comum.

Viola Davis
Na série “How To Get Away With Murder”, Viola Davis interpreta a professora de Direito Penal Annalise Keating: a representatividade mostra onde podemos chegar e quem podemos ser. (créditos: divulgação)

Em outra perspectiva, não me enxergar no outro me faz questionar se posso ser como o outro. A ausência de modelos negras em um desfile me faz questionar se eu posso ser modelo. A falta de médicas negras me faz crer que não posso ser médica ou que, ao menos, deve ser bem difícil. A falta de protagonistas negras em papéis não subalternos me faz pensar que talvez eu não seja boa o suficiente para ocupar um espaço de destaque.

A falta de reflexos nos revelam barreiras e não horizontes.

Alguns podem dizer que é exagero, que nos tempos atuais homens e mulheres negras aparecem mais do que antigamente. Ainda é pouco, responderia ríspida.
Mas essa afirmação levanta outra questão. Onde estamos sendo representadas, e como? No carnaval, como globeleza? Nas revistas, como beleza exótica? Nos cinemas, como escravas? Nas novelas, como viciadas em sexo?

A maneira como representam a mulher negra hoje é restrita, ao invés de plural. Conta-me uma narrativa, ao invés de várias. É recheada de racismo e estereótipos. Me oferece condições ao invés de possibilidades.

Há tantas coisas dizendo às mulheres que elas não devem ser como são. Há tantos elementos que nos fazem olhar no espelho e não gostar do que vemos. É tão relativamente fácil para uma mulher não se gostar integralmente.

Nesse sentido, a representatividade pode ser empoderadora e acolhedora. Ela te permite dizer “nossa meu cabelo é parecido com o dessa mulher, vou usá-lo assim”, ao olhar em uma revista; ou ter certeza de que cedo ou tarde você entrará em um relacionamento, assim como a menina indecisa da novela, que se parece com você.

Ela sugere: “olha como essa advogada é confiante, você poderia ir por esse caminho, sua personalidade é parecida com a dela” ou ” essa mulher do filme é maravilhosa, e tem uma linda família, veja como se parece com você”.

Não ter referências, ou ter poucas delas, restringe a projeção que podemos fazer de nós mesmos.

Pode ser fantasioso, idealista, mas é essencial ter a possibilidade de imaginar o universo de coisas que podemos ser. Sem isso, cultivamos inseguranças, dúvidas e uma autoestima frágil, que precisa sistematicamente ser reconstruída.

É triste presenciar a contribuição dos meios de comunicação, das artes, das instituições e de todas as esferas sociais, para uma sociedade ainda mais racista. Celebro fervorosamente homens e mulheres negras que vêm conquistando espaços que nos são continuamente negados. É mais um reflexo que podemos acrescentar no nosso espelho.

É mais uma possibilidade que se abre para sermos o que quisermos ser.

Giulia Ebohon tem 23 anos, é jornalista e várias outras coisas que vem descobrindo com o tempo.
Giulia Ebohon tem 23 anos, é jornalista e várias outras coisas que vem descobrindo com o tempo.
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