Eu, tu, elas entrevistam: MC Carol

por Helô D’Angelo | fotos: Raquel Abe

“Meu nome é Carolina de Oliveira Lourenço”, diz ela, com sua voz grave. Silenciosa e atenta, Carolina, 22, contrasta com sua personagem de palco, a desbocada MC Carol – ou Carol Bandida, como ela se autodenomina. Mulher, negra, forte, gorda, nascida na periferia e com uma vontade de aprender sempre mais, ela não se encaixa em quase nenhum dos padrões da “mulher funkeira” impostos pela sociedade. E não pretende se encaixar tão cedo.

Ao não se curvar aos estereótipos e às expectativas, Carol ficou famosa. Desde o início da carreira, canta sobre acontecimentos cotidianos engraçados, fala tudo o que quer nos shows e não cria letras escrachadas sobre sexo – ou, se cria, fala sempre sobre o próprio prazer, e não sobre como agradar o homem. Por vezes na vida, foi taxada de louca, de rebelde. Mas, aos poucos, foi conquistando o público com seu humor e com sua característica mais marcante: a autoestima blindada.

Hoje, suas músicas continuam tendo uma pegada pouco comercial, mas as letras tocam em assuntos importantes. Em “Não Foi Cabral”, por exemplo, Carol questiona a noção de ‘descobrimento do Brasil’ (“Pedro Álvares Cabral/ Chegou 22 de abril/ Depois colonizou/ Chamando de Pau-Brasil/ Ninguém trouxe família/ Muito menos filho/ Porque já sabia/ Que ia matar vários índios”) e foi inclusive convidada para cantar na FGV do Rio de Janeiro, em cursinhos e em escolas. “Bateu uma Onda Forte”, outro funk famoso da cantora, está sendo usado como base para gritos nos atos do Movimento Passe Livre. Um deles: “Bateu uma onda forte, vencemos nas escolas, vamos vencer no transporte”.

Surpresa com o próprio sucesso, mas feliz por estar alcançando um público cada vez maior, Carol fala sobre feminismo, sobre os “bailes de favela” organizados pela classe alta em São Paulo, sobre a voz do negro na história do Brasil e sobre igualdade.

Eu, tu, elas: Você começou cantando nos bailes de favela, em Niterói. Quais as maiores diferenças entre esses bailes e as casas de show nas quais você canta hoje?

MC Carol: Sou da favela, então só cantava para a favela. Mas as UPPs [Unidades de Polícia Pacificadora] proibiram os bailes de favela, e tive que encontrar outras formas de cantar e de ganhar a vida com isso. A comunidade me fez MC Carol Bandida, mas as boates são muito mais organizadas, mais seguras. Às vezes, você está no baile, cantando numa boa, e alguém fala que a favela “lombrou” [ou seja, que a polícia entrou no baile]. A gente só está cantando, se divertindo, dançando, mas corre o risco de tomar um tiro. Hoje eu me sinto segura no palco. Posso cantar, posso falar o que quiser e é só por isso que me sinto mais feliz. Mas queria muito que o baile de favela fosse legalizado e que a gente pudesse cantar e dançar na comunidade sabendo que não tem chances de levar um tiro.

Nas noites de São Paulo, existem festas chamadas “bailes de favela”, que custam entre R$ 30 e R$ 70 e que acontecem em áreas nobres da cidade. O que você acha disso?

Sério? Existe esse tipo de festa? Bom, a visão sobre o funk mudou muito. O MC e o DJ, antigamente, eram vistos como bandidos. Se fossem pegos numa blitz, eles levavam tapa na cara. O funk era visto como o lazer dos bandidos, como algo errado, feio. Mas o que muita gente não via e ainda não vê é que o funk é música, é cultura, e emprega muita gente na favela. O baile é só diversão, e pode ser feito na quadra que toda comunidade tem, pode ser legalizado, pode ser organizado. Mas o governo, e também quem é de fora da favela, olha o favelado sempre como bandido. Se você mora na favela, você é bandido.

O policial que sobe o morro não te dá bom dia, não pede seu documento de um jeito educado: ele trata a gente como animal, esculacha, oprime. Faz pergunta em cima de pergunta, não te dá espaço para responder e, se você gagueja, já vai te dando tapa na cara. E aí as pessoas da classe alta fazem uma festa chamada “baile de favela”, com os mesmos tipos de música, mas não são discriminadas, não é proibido, é tudo ok. É por causa do dinheiro, claro, não tem outra resposta. Isso é louco, não sei nem o que dizer.

Apesar dessas festas serem bastante populares, ainda tem muita gente que diz que funk não é música de verdade. O que você tem a dizer para essas pessoas?

Por que o funk não é música? É por causa do conteúdo? É porque fala sobre drogas, sobre sexo, sobre violência? Acho que não, porque tudo o que o funk fala também é falado em outros tipos de música. Raggae fala de droga, hip hop fala de sexo, rap fala de violência. Por que só o funk é discriminado? As pessoas falam que o funk não é música por causa das letras, que realmente são mais abertas que o resto dos tipos de música, mas o funk nasceu na favela, e até hoje é uma voz da favela. Por isso choca. Antigamente, as pessoas que moravam na favela, e que sofriam violência policial, faziam rap. Mas aí o rap começou a sair da favela. E o funk começou, como uma coisa só nossa. O “Rap das armas” é um rap com batida de funk que marca bem essa virada. Só que, aí, o funk passa a ser classificado como “funk proibidão”. Porque a favela não pode falar. É feio, não pode. Por que o hip hop pesado dos Estados Unidos, que fala das mesma coisas, não é “hip hop proibidão”?

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“Eu falo mesmo, falo o que eu quiser, porque a Carol Bandida é assim” (foto: Raquel Abe)

Você é uma MC que não se curva aos estereótipos da “funkeira”: você canta o que quer, veste o que quer, tem a aparência que quer. Como lidar com esses padrões e o que você acha deles?

Existe o estereótipo do funkeiro e o da funkeira. O homem é sempre o foda, o rico; as mulheres são sempre as gostosonas que cantam sobre sexo, mas sempre falando para o homem. Eu canto para mim, e quem me ouvir, ótimo. Quem gostar, melhor ainda. Não vou negar que aparecer em grandes emissoras de TV me ajudaria muito, mas não quero perder a liberdade de dizer o que eu penso, do jeito que eu quiser.

Não quero ter que mudar a minha música, mudar quem eu sou, para me adequar em algum padrão e aumentar o meu sucesso.

Tenho plena noção que eu vou morrer pobre, de que eu não vou conseguir comprar uma lancha, uma mansão, uma Land Rover. Se eu, a Carol Bandida, entrar nesses padrões, cantar canções de amor ou esses funks sobre sexo para homem, ficar de biquíni no palco, aí sim meu cachê vai aumentar. Mas não quero isso. Amo o que faço do jeito que eu faço. Até porque é tudo uma grande mentira. É como aqueles MCs que não têm nada, que moram no morro, mas cantam que têm o carro do ano, o jatinho. Aquela não é a realidade do cara, e é ridículo ele cantar isso, porque também não é a realidade de quem escuta o cara. E não sou assim.

Muitas mulheres, principalmente no ambiente virtual, se inspiram em você, na sua força de resistir aos padrões e na sua autoestima. Você se considera feminista? Como é sua relação com o movimento?

Uma vez, uma menina postou no meu Facebook dizendo: “Carol, espero que a sua fase feminista nunca acabe”. Na hora, fiquei maluca.

Nunca tinha pensado naquilo, mas refleti e respondi que eu nasci feminista. “Feminista” é um rótulo que eu só conheci no ano passado, mas sempre tive na cabeça que deveria existir igualdade entre todas as pessoas. Sempre lutei por isso, desde pequena. É como uma armadura, uma proteção, a única forma que eu encontrei de eu conseguir respeito, me colocando como igual aos homens. Eu sempre tive muita autoridade lá no morro. Levava porrada na rua, mas também batia.

Hoje, ainda não sei totalmente o que é ser feminista, mas estou desvendando, de pouquinho em pouquinho. Depois de ler bastante e de conversar muito, sei que o vulgo feminista é a mulher que luta pelos seus direitos. E aí pensei: sempre fui essa mulher. Quando a menina postou aquilo, respondi: “Fase não: uma vida inteira”. Na minha próxima música, “100% feminista”, vou falar bastante sobre isso.

Versões das suas músicas estão sendo cantadas nas manifestações contra o aumento das passagens do transporte público aqui em São Paulo. Uma delas é assim: “Bateu uma onda forte, vencemos nas escolas, vamos vencer no transporte”. O que você acha disso?

É mesmo? Nossa… Isso é muito legal. Não acredito! Bom, eu concordo com isso. Com essa passeata não pacifista. Na escola, eu era uma espécie de líder dos alunos, uma porta-voz. Quando algum aluno tinha problemas com a diretora, eu é que ia conversar e negociar. Eu dizia na cara da diretora que ela estava errada, batia de frente. Quando não tinha acordo, coisas ruins aconteciam. Eu era uma terrorista (risos). Explodia umas coisas, pichava uma coisas. Isso tinha que acontecer, senão não dava para chamar atenção. E voltando às manifestações, isso tem que acontecer. Como o povo chama atenção dos governantes? fazendo bagunça mesmo. Fico feliz que minha música está lá.

Você já sofreu algum tipo de preconceito partindo dos fãs? Como enfrentou isso?

No mesmo dia que teve esse post do feminismo, um cara comentou dizendo para eu ir ler um livro, para parar de ser ignorante. Printei o comentário dele, postei na minha página e escrevi: “Em que país que tu vive? Não é o mesmo país que eu”. Ele ficou caladinho.

Tem gente que não tem noção das diferenças que existem aqui no Brasil, mas acho que encontrei uma maneira de falar sobre essas coisas para muita gente. Um jeito que as pessoas entendam.

Hoje, eu dou palestra até em faculdade. Eu fui na FGV do rio, tirei onda de professora (risos). Fui cantar “Não Foi Cabral” para os cursos de história e ciências sociais. Foi a primeira vez que eu entrei em uma faculdade! Tinha uma galera da minha idade lá indo me ouvir. Imagina? Eu, a Carol Bandida, a Carol de Niterói, tirando onda de professora.

“Não Foi Cabral” critica a história contada pelos brancos, e traz a visão dos negros e dos índios. Apesar ser uma letra sincera, como é o estilo da Carol Bandida, ela tem um conteúdo diferente dos seus outros funks. De onde veio a inspiração?

Larguei a escola com 17 anos, depois de passar por quatro escolas. Era estudar e passar fome ou trabalhar e conseguir viver, então trabalhei. E tive muito problema na escola, porque percebia que o professor não quer que você entenda, ele quer que você decore. Mas eu não era assim, eu perguntava, queria entender. Ia na lan house e pesquisava sobre historia, chegava na sala, debatia com o professor. Queria saber como a Princesa Isabel libertou os negros, quem foi Dandara, quem foi Zumbi. Mas aí, quando eu perguntava muito, me colocavam para fora da sala, me tratavam como louca. Me tiravam pontos por comportamento.

Um dia, a diretora me chamou para conversar e disse: “Carolina, ambas sabemos que aqui você manda mais do que eu. Carolina, usa a sua inteligência para o bem“. Eu nem sabia o que era ‘ambas’, depois que fui procurar, mas essa frase ficou comigo para sempre.

Aí, um dia, estava dando uma entrevista para um coletivo do Rio e as meninas, ouvindo essa história toda, me disseram que meu ponto de vista era super interessante, e que eu deveria escrever uma música sobre isso. Não acreditei, no começo. A minha vida inteira fui taxada de louca, de aluna rebelde. Minha avó, meu avô, meus professores, todo mundo me dizendo que eu era maluca. Anos depois, me falam que tem pessoas que concordam com isso. É o meu ponto de vista e ele vale também, ele tem importância, isso é muito doido.

E como foi o processo de criação da música?

Não sabia muito bem sobre o que falar. Então pesquisei, perguntei e aprendi ainda mais. Vi que a história do Brasil só fala de brancos, mas tem muitos negros importantes, e muitas negras. Quis falar sobre a Princesa Isabel também porque em Niterói, no pé do morro Preventório, de onde venho, tem a casa de bonecas da princesa. E a minha comunidade era um cemitério de negros. Tudo isso ficou na minha cabeça e acabei misturando tudo, e acabou virando um questionamento enorme.

Nada contra os professores, como falo na música, mas quem libertou os negros foram os próprios negros. Se os negros aceitassem viver como bichos, como eles viviam, levando chicotada, acorrentados, a gente ia ser escravo até hoje. Foi só porque a gente não se calou que tudo acabou. A princesa não lutou, ela só assinou um papel para ficar na frente de uma luta que já estava acontecendo há muito tempo e que ninguém queria ver. Eu questionava isso na sala de aula e era colocada para fora, mas hoje eu vou na faculdade e canto isso e todo mundo ouve.

Sendo tão diferente das suas musicas anteriores, o que “Não foi Cabral” faz você sentir?

Eu me emociono cantando. Tem uma parte da música que toda vez que eu canto me arrepio, a parte que falo de Zumbi dos Palmares. (Cantando) “Falando do sofrimento dos tupis e guaranis, lembrem do guerreiro quilombo zumbi”. Quase choro, toda vez. Mas eu não posso chorar… Sou a Carol Bandida (risos). Acho incrível que as pessoas compraram a Carol Bandida que fala de putaria e de coisas engraçadas, mas também estão comprando a Carol que questiona outras coisas.

(publicado originalmente na revista Fórum)

Helô D'Angelo
Helô D’Angelo tem 21 anos na cara e nenhuma ideia do que quer fazer da vida quando terminar a faculdade de jornalismo.
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