Perfil: MC Soffia

por  Helô D’Angelo

Com apenas 11 anos, MC Soffia rebate machismo e racismo com música e coloca em destaque a autoestima das crianças negras

“Menina pretinha/ Exótica não; é linda/ Você não é bonitinha/ Você é uma rainha”. Com estes versos, Soffia Gomes Rocha Gregório Corrêa, a MC Soffia, faz vibrar a plateia. Espevitada no palco, a menina de 11 anos exibia seu “cabelo black enorme e lindo”, como ela gosta de chamar, enquanto rimava e dançava na Choperia do Sesc Pompeia, na zona oeste de São Paulo. Os fios livres e crespos, enfeitados com um enorme laço colorido, refletiam nos olhos e nos penteados do público, composto em sua maioria por crianças negras e seus pais.

Acompanhada de quatro dançarinos – duas meninas e dois meninos –, Soffia pisou no palco e incorporou a energia e a confiança dos grandes nomes do rap brasileiro que já se apresentaram entre aquelas paredes: Rashid, Dexter, o grupo RZO, Edi Rock, Emicida, Criolo, Racionais MCs e muitos outros que fizeram história no ritmo e na rima.

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Foto: Marília Morais

“Claro que eu sei quem já cantou aqui”, diz ela, tímida, mas orgulhosa, antes do show. Quem a vê neste momento fica intrigado com a transformação: na concentração, a menina prefere ficar quieta, apenas na companhia dos seus amigos e da mãe, a produtora cultural Kamilah Pimentel, de 29 anos. A pequena MC e os companheiros começam um ensaio misturado com brincadeira, cantando os versos citados com um batuque improvisado, até que a tensão se esvaísse em forma de riso infantil.

“Agora você consegue ver que ela é só uma criança”, diz a mãe. É verdade: à medida que o volume da cantoria vai aumentando, Soffia vai deixando a barra da saia de Kamilah e começa a gargalhar de um jeito que só ela sabe fazer – fechando os olhos e balançando o corpo todo, num riso que vem de dentro do peito, de mostrar todos os dentes e fazer sorrir quem estiver por perto.

Filha e neta de negras militantes, Soffia traz nas origens a luta contra o racismo. A avó, Lucia Regina Gomes da Rocha, tem como ofício a confecção de bonecas com características negras. Batizada na militância de Lucia Makena (que significa “feliz”), ela passou para a filha a força para jamais abaixar a cabeça frente ao preconceito: “Desde pequena, minha mãe me incentivava a frequentar eventos do movimento negro”, conta a produtora cultural. Mais tarde, Kamilah trabalharia na Coordenadoria de Assuntos da População Negra (CONE) da prefeitura de São Paulo, e abriria cada vez mais os olhos para o racismo: “Às vezes, a gente sofre o racismo e nem percebe que é racismo na hora. Só percebe quando entra na militância”.

Soffia, a terceira geração dessas mulheres poderosas, já nasceu lutando. Enquanto estava em trabalho de parto, Kamilah lembra que uma outra grávida recebia toda a atenção dos médicos no hospital, enquanto ela ficava sozinha. A diferença? A cor da pele. “Muitas negras morrem nessa situação. Eu mesma podia ter morrido”, comenta.

Desde o seu nascimento, Soffia vem sendo fortalecida: as bonecas são todas negras; nas histórias para dormir, figuram as princesas e divindades africanas que exaltam a beleza dos cabelos crespos; os autores dos livros da menina também são preferivelmente negros. “É importante para a autoestima da criança que ela se veja representada” , coloca Kamilah. Para ela, a filha é um dos frutos de uma militância antiga: “Esse empoderamento que vemos hoje não é moda, é resultado de toda uma luta passada, e Soffia nasceu bem nessa época de colher frutos”.

Só depois de muitos ensinamentos sobre a cultura negra é que a pequena começou a frequentar o Projeto Âncora, sua escola. “Um dia, as meninas da escola disseram que eu sou negra porque caí num balde de tinta. Aí, fui contar para a minha mãe e dizer que eu queria ser branca. Ela quase caiu para trás”, conta a menina, rindo do seu jeito. E Kamilah completa: “Outra vez, disseram que ela era filha do Bob Marley. Eu adoro Bob Marley, então falei para ela pesquisar sobre ele, e ela entendeu que era um elogio, e não uma ofensa”.

Depois destes episódios, Kamilah começou a levar a filha em cada vez mais eventos da militância negra. A paixão pela cultura e pela exaltação da beleza natural foi grande, como lembra Soffia: “Foi lá que eu tive contato com mulheres de cabelo black grandão e achei lindo”.

Eu cheguei a alisar meu cabelo, mas depois comecei a deixar ele crespo como o delas”. As madeixas da MC, cacheadas e bem naturais, também inspiram as meninas nas plateias dos shows: “Tem vezes que as meninas estão com o cabelo preso, apertadinho, e quando eu começo a cantar elas soltam tudo e deixam livre, é muito legal”, comenta, sorrindo. O contato da MC com a cultura negra fora de casa também sempre foi grande. Aos quatro anos, ela começou a fazer aulas de capoeira; depois, passou para o maracatu. O hip hop veio mais tarde, com as oficinas de break, grafite, DJ e MC no projeto O Futuro do Hip Hop. Foi aí, aos seis anos, que Soffia soltou a voz e começou a fazer rimas: “Ela queria cantar em todo evento que a gente ia”, lembra Kamilah.

As primeiras letras foram compostas com a ajuda da mãe e da avó; hoje, são de autoria da pequena MC, tendo como base as pesquisas que ela mesma faz na escola ou em casa, encorajada pela mãe. As canções falam da África, exaltam mulheres importantes na História, explicam que meninas e meninos podem muito bem brincar juntos. “Hoje eu estou maior e sei que a gente precisa se aceitar, aceitar nossa cor, nosso cabelo. Se o seu melhor amigo falar mal de você, ele não é seu amigo”, diz Soffia.

Mc Soffia - Foto_ Marília Morais (18)
Foto: Marília Morais

A rapper começou bem: depois de alguns eventos locais, ela se apresentou no Vale do Anhagabaú, no aniversário de São Paulo. “Tinha muita gente, mas eu me diverti muito, cantei direitinho”, lembra. Na época, ela tinha apenas sete anos. Mais tarde, cantou ao lado dos Racionais e de Flora Matos – todos carinhosamente classificados de “muito amigos” dela. Há algumas semanas, a rapper Karol Conka também entrou no time dos amigos da pequena: “Ela me deu esse conjunto que eu estou usando hoje”, diz Soffia, mostrando a camiseta e a calça novas. E completa: “Quero que ela cante comigo no meu próximo CD”.

Apesar do sucesso que alcançou, a menina sofreu para entrar no mundo do hip hop. Sendo uma forma de resistência da periferia, o meio é dominado por homens da produção à música em si. “A gente acaba dependendo dos homens para tudo: para fazer o beat, para gravar o CD, para mixar, para apresentar. Para as meninas, eles fazem de qualquer jeito ou não fazem”, conta Kamilah.

Ela lembra que, antes do sucesso da filha, um DJ chegou a pedir que a menina cantasse a música inteira no ouvido dele antes de apresentá-la: “Ele disse que ela só entraria no palco se ele gostasse do som, e já tinha um monte de manos cantando”. Soffia concorda: “No hip hop, as meninas são as que mais sofrem racismo. Às vezes, até meninos negros são racistas com as meninas”.

Na visão de Kamilah, o importante é nunca deixar de provocar o poder da filha: “Eu não paro de problematizar. A gente assiste televisão para refletir sobre as coisas que estão acontecendo. Ela consegue ver que houve uma chacina e dizer ‘estão matando os pretos’, ou então, se matam uma mulher, ela diz ‘o cara achou que era o dono dela’”.

As canções da MC falam da África e exaltam mulheres importantes na História
É assim que, cada vez mais em contato com o preconceito e os sofrimentos do mundo, a pequena vai se empoderando e transformando indignação em música.”Estou manifestando, estou influenciando outras meninas a deixarem pra lá o que os outros dizem”, diz Soffia. Depois de dar um último (e enorme) sorriso, ela acrescenta: “Espero que, quando eu for maior, todas as pessoas do Brasil tenham mais consciência do que acontece com os negros, e que todos saibam se aceitar. E para isso não tem idade”.

(publicado originalmente na revista Fórum)

Helô D'Angelo
Helô D’Angelo tem 21 anos na cara e nenhuma ideia do que quer fazer da vida quando terminar a faculdade de jornalismo.

 

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