Pare de romantizar a maternidade: mães são pessoas

Por Michelle Ferreira

Em solidariedade a todas as mães que têm coragem o suficiente para serem honestas consigo mesmas, eu queria contar um pouquinho do que foi o meu puerperio [período que vai desde o parto até o corpo da mulher voltar ao normal].

Todos que me conhecem sabem o quanto eu sou babona, dedicada, amorosa e preocupada com a minha filha. Mas aqueles que me conhecem bem o suficiente sabem o quanto eu surto, o quanto é foda, o quanto eu me sinto, muitas vezes, sobrecarregada. Eu fico de saco cheio, eu fico sem paciência.

Desculpa se te ensinaram que o mundo é cor de rosa, e que mãe é um ser sobre humano, mas o fato é que maternidade é uma coisa absurdamente exaustiva.

Como mesmo meus amigos mais próximos talvez não saibam muito como foi tudo isso, deixa eu contar uma coisinha pra vocês: eu ODIEI a experiência da minha gravidez. Odiei todos os dias, com todas as forças.

Para começar, eu vomitei durante os 9 meses de gestação. Apesar de a grande maioria das mulheres parar de ter enjoos a partir do quarto mês, eu, com 34 semanas, ainda acordava ao menos seis vezes por noite pra vomitar suco biliar. Eu tinha dores horríveis porque o bebê se mexia demais. E eu fiz uma cesárea porque não aguentava mais ficar grávida.

Porque eu sou um ser humano e não estava mais suportando aquilo.

Amamentar foi a coisa mais bizarra e menos intuitiva que aconteceu comigo em toda a minha vida. O meu peito sangrava de feridas, a língua do bebê, que é ácida (e não molinha e delicada, como vocês devem pensar) corroía até a minha alma, e eu literalmente tremia e chorava por uma hora com a minha filha no colo mamando, todos os dias, cerca de 10 vezes ao dia. Porque eu sou um ser humano, e a minha pele é real. Minha pele se fere.

Eu me sentia burra e desinteressante porque não conseguia ler uma página sequer de nada, porque tinha um bebê com cólica, com fome, com frio, absolutamente dependente de mim, e de quem precisava cuidar. Eu me sentia feia, pálida, e tinha dias que não dava tempo de tomar banho ou até de fazer xixi, mas mesmo assim eu me obrigava a tomar 3 litros de água por dia para produzir leite.

O puerperio parecia que nunca ia acabar. E aí, você questiona como as pessoas sobrevivem a isso. Você se condena e se sente horrível por não entender a tal da “arte de ser mãe”. Por não adivinhar o motivo do choro da criança, quando você sempre ouviu que “mãe é um ser paranormal que sempre sabe“.

Você se culpa pela amamentação não ser aquela conexão incrível entre você e o bebê, aquele amor de momento que você achou que seria, porque o mundo te mostrou, te prometeu, te ensinou que a natureza era perfeita e que isso seria a coisa mais fácil de todas, afinal, você é uma mulher, você nasceu para isso.

Para a sociedade, como você é uma mulher, você é uma mãe. Isso já nasceu em você. Como você pode reclamar? É uma dádiva, um privilégio, fica calma! Não pode ser tão difícil assim… Engole esse choro, não pode ficar triste aqui, vai passar isso para o bebê…

Somos seres humanos. Nos ferimos, sentimos, choramos, perdemos a paciência, temos problemas de saúde, autoestima, medo, culpa. Parem de tratar as mães como seres perfeitos!

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Michelle Ferreira cursa Audio Visual no Senac, tem 22 anos e vive em Sao Paulo, mas tem o coração no Rio de Janeiro.
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2 comentários

  1. Eu AMEI e esse texto, e acredito que a famosa “depressão pós parto” se deve ao fato da mãe se sentir problemática quando esse início da maternidade não a deixa tão feliz como ela sempre ouviu que seria!

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  2. Eu AMEI e esse texto, e acredito que a famosa “depressão pós parto” se deve ao fato da mãe se sentir problemática quando esse início da maternidade não a deixa tão feliz como ela sempre ouviu dizer que seria, e ela acaba acreditando que tem algo de errado com ela por não sentir o que parece que todas as outras mães sentem.

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