Entre agogôs e guitarras: a música como ferramenta para alcançar o empoderamento feminino

por Nathalia Parra e Claudia Ratti

Domingo à tarde, a Praça do Patriarca, centro de São Paulo, é ironicamente ocupada por centenas mulheres empoderadas. O agudo do agogô se sobressai no ambiente até o momento em que nove vozes femininas ecoam pelo local. Dançando, mulheres em círculo ocupam a praça e se deixam levar pelo o que parece ser um lento ritmo de ondas. Então, um som que mescla maracatu, jongo e outras manifestações da cultura afro-brasileira dá voz à classe mais marginalizada da nossa sociedade: mulheres negras.

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Foto: Nathalia Parra

Essas mulheres fazem parte do bloco Ilú Obá de Min, dirigido por Beth Beli, que surgiu em 2004. Os cantos, os tambores e as danças do grupo fazem reverência aos ancestrais africanos. Além das cantoras, o Ilú é constituído por seis naipes: alfaias, agogô, xequerê, djembe, dança e perna de pau.

O nome forte e sonoro significa “As mãos femininas que tocam tambor para o rei Xangô”. São as mãos das mais de 200 mulheres do grupo que propõe uma subversão à tradição ao tocarem seus bombos, instrumento no qual os homens sempre foram responsáveis. “Os homens insistem em dizer que nós, mulheres, não podemos tocar tambor. O Ilú mostra o contrário: podemos sim”, comenta Beli.

Os homens insistem em dizer que nós, mulheres, não podemos tocar tambor. O Ilú mostra o contrário: podemos sim”

A subversão de papéis também é realizada pela banda de punk feminista Ratas Rabiosas, ao conquistarem um lugar originalmente ocupado por homens. “Toda manifestação artística, musical, cultural, e social onde as protagonistas são mulheres contribui para o empoderamento feminino”, afirmam as integrantes. Formada apenas por mulheres, a banda existe desde 2013 e utiliza o punk como ferramenta de expressão da mulher periférica.

Segundo Ratas Rabiosas, a música tem o poder de potencializar o discurso. Dessa forma, o empoderamento acontece quando se espalha uma mensagem e as ouvintes, além de compreender, identificam-se com aquilo falado. Os principais temas das músicas são realidades sociais como a violência doméstica, o abuso de poder e o descaso do governo.

Tanto o bloco afro quanto a banda de punk falam sobre empoderamento feminino, mas o que significa, de fato, essa palavra?

O termo carrega vários significados e pode ser empregado em diferentes áreas. No feminismo, Cecília Sardenberg, autora do artigo Conceituando “Empoderamento” na Perspectiva Feminista, publicado em 2012, diz que empoderamento é o processo em que a mulher conquista sua autonomia e autoconfiança, questionando a ordem patriarcal da sociedade. Esse processo pode acontecer de duas formas: individual ou coletiva. É importante ressaltar que o empoderamento individual está vinculado à cooperação e à comunidade, já que a libertação das mulheres e a transformação da estrutura vigente só serão possíveis se houver união.

Toda manifestação artística, musical, cultural, e social onde as protagonistas são mulheres contribui para o empoderamento feminino”

A forma como o punk investe no empoderamento feminino tem algumas semelhanças com a estratégia utilizada pelas mulheres que participam do rap. Além dos dois serem estilos musicais, eles também fazem parte de manifestações artísticas da periferia e são membros da cultura marginal. É possível, então, fazer um paralelo entre a linguagem utilizada nas músicas e nos temas retratados.

Assim como as Ratas Rabiosas, Pâmela Costa, conhecida também como Pame’lloza, questiona os padrões sociais em suas músicas que mistura rap e mpb. “A partir do momento em que eu coloco a minha cara para cantar já estou questionando”, declara. Se envolver com música fez com que Pâmela conhecesse novos horizontes e percebesse novas formas de ver o mundo. Segundo a cantora, o hip hop foi fundamental para seu processo de empoderamento.

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Pame’lloza na comemoração ao dia do trabalhadores e trabalhadoras. (Foto: Gladston Noronha/ divulgação Facebook)

A música também foi essencial para o fortalecimento da socióloga Flávia Biggs, ex-integrante da banda Dominatrix e professora de guitarra para garotas. Em sua infância, tocar um instrumento a fazia se sentir mais forte. “Eu me sentia especial e era protagonista da minha própria história”, conta.

A partir do momento em que eu coloco a minha cara para cantar já estou questionando”

Para a estudiosa Nelly Stromquist, a consciência da desigualdade é fundamental para que a mulher se empodere. Além disso, é necessário se organizar contra essa disparidade entre homens e mulheres, construir uma visão crítica da realidade, conquistar autoestima e, se possível, gerar renda independente. Nesse sentido, a música consegue contemplar as quatro etapas do processo proposto por Stromquist na medida em que estimula a criticidade, conscientizando mulheres e aumentando sua autoconfiança.

A teoria da acadêmica é colocada em prática no Girls Rock Camp, um acampamento de rock para meninas adolescentes que acontece em Sorocaba, interior de São Paulo. O projeto acontece no exterior desde 2001 e em 2013 veio para o Brasil com a ajuda de Flávia e outras mulheres. Durante o acampamento, as garotas aprendem a tocar um instrumento e a compor uma música, montam uma banda e fazem uma apresentação. “O objetivo central é o empoderamento e o protagonismo infantojuvenil feminino, e para atingir isso utilizamos ferramentas lúdicas como a música e arte”, explica a socióloga.

Para alcançar o ponto principal do acampamento são desenvolvidas atividades que estimulam a autoestima e a expressão corporal das meninas. Assim como propõe Cecília Sardenberg, as tarefas são realizadas em grupo, incentivando a coletividade e o empoderamento em grupo.

Assim, as garotas aprendem a respeitar umas às outras e passam a se enxergar não como rivais e sim como colaboradoras em potencial. Um dos pilares que move o projeto é o estímulo da sororidade entre as adolescentes.

Sororidade é a ideia de que mulheres não são inimigas e sim companheiras de luta que podem se apoiar e se ajudar. Para Flávia é essencial tentar quebrar com a noção de competição estimulada pela sociedade. “Tentamos promover a sororidade para que elas levem essa experiência para o futuro”, explica.

Tentamos promover a sororidade para que elas levem essa experiência para o futuro”

Esse tema também foi trabalhado pelo bloco Ilú Obá de Min com suas integrantes em uma de suas vivências. Valores como o cooperativismo e o comunitarismo foram valorizados da mesma forma, afinal a cultura negra não existe no âmbito individual, somente no coletivo. Para o bloco, assim como não se come feijoada sozinha, não se faz uma roda de samba sozinha.

Segundo Beli, é necessário ter cautela com o termo sororidade. O bloco Ilú Obá de Min tem como objetivo fortalecer o protagonismo das mulheres – principalmente das mulheres negras. “Não podemos esquecer da historia das mulheres negras e do povo negro que até hoje ainda não se reconhece como irmã e irmãos”, explica a diretora geral.

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A banda de punk feminista Ratas Rabiosas (Foto: divulgação/ Facebook)

O Ilú também coloca em prática a sororidade ao escolher uma homenageada por ano. Rainha Nzinga, Raquel Trindade e Leci Brandão foram algumas das mulheres negras exaltadas pelo bloco nesses 11 anos de existência. Em 2015, a escritora, compositora e ativista Carolina Maria de Jesus ganhou destaque no repertório do bloco. Beli afirma: “O Brasil fez questão de a esquecer por ser uma mulher negra e pobre, mas o Ilú não”.

A importância de se lembrar das outras mulheres é comentada também por Pâmela Costa. “As mulheres estão sempre preocupadas em chamar as meninas do hip hop”, relata sobre os eventos em que participa. Segundo ela, o número de mulheres na cena do rap aumentou muito nos últimos anos e isso só fortaleceu a relação de apoio entre elas. Para Pâmela é muito importante estabelecer uma integração harmônica entre as companheiras de música.

O Brasil fez questão de a esquecer por ser uma mulher negra e pobre, mas o Ilú não”

Personificando o termo sororidade, as mulheres que tocam na Praça do Patriarca ajudam umas às outras com seus instrumentos. No final do ensaio, elas caminham até que se forme um caracol, que abriga todos os tipos de mulheres: idosas, negras, crianças, gordas. Mulheres, que, a cada ensaio, se empoderam mais com o poder que o tambor dá a elas.

Rock, rap, punk, afro: independentemente do estilo, há um ponto que intersecciona a todas essas mulheres – a música como ferramenta de empoderamento, tornando-as mais fortes e cúmplices umas das outras.

Saiba mais sobre o Ilú Obá de Min:

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Nathalia Parra, 21 anos, vegetariana e sonha em construir uma comunicação feminista
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Claudia Ratti, 20 anos, feminista e acredita que pode mudar o mundo com o jornalismo
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