Carta para as mulheres antifeministas

Querida antifeminista,

eu entendo que você odeie as feministas. Entendo de verdade. Porque nós, feministas, realmente somos chatas. Nós dizemos coisas que você não quer ouvir. Nós somos desagradáveis e enchemos o saco.

Mas eu queria pedir que, só uma vez, você nos ouvisse até o fim. Prometo que não vai demorar – e o máximo que vai acontecer é você achar meu texto ridículo.

A primeira coisa que eu queria te dizer é: você realmente acha que, sem o feminismo, você poderia estar aí, do seu computador, dizendo o quanto você odeia feministas?

Não, não poderia. Porque foi só a partir do nascimento do feminismo, lá no final do século XIX, junto com o movimento pelo voto feminino (sufragismo) que as mulheres puderam começar a sair da cozinha. E não é exagero, não!

Até 1962, uma mulher brasileira precisava de autorização do pai ou do marido para fazer praticamente qualquer coisa – trabalhar, estudar, comprar uma casa, abrir uma empresa, viajar, escrever em jornais, publicar qualquer coisa e até para ver os filhos – mesmo que já fosse maior de idade, porque a éramos consideradas “civilmente incapazes” (que é o termo hoje aplicado a crianças e idosos em idade muito avançada, por exemplo).

Até 1934, a mulher e os filhos eram legalmente propriedades do marido, e uma mãe não tinha direito nem de visitar os filhos caso o pai não deixasse, por qualquer que fosse o motivo. Aliás, foi só em 1990 (!) que a igualdade de direitos e deveres entre a mãe e o pai em relação aos filhos foi realmente estabelecida, com o surgimento do Estatuto da Criança e do Adolescente. Mas, até hoje, o que se vê é uma enorme maioria de mães abandonadas pelos maridos tendo que arcar com todos os custos dos filhos.

Falando em direitos, até o Código Penal de 1940, um marido assassinar a própria esposa em caso de traição era constitucionalmente entendido como “defesa da honra”. Não que eu defenda essa lei absurda, mas preciso acrescentar que à mulher não era garantida essa tal “defesa da honra”, e muitas acabavam contraindo doenças sexualmente transmissíveis de seus próprios maridos infiéis (o que, na verdade, acontece até hoje).

Só em 1977 a mulher adquiriu algum direito sobre o patrimônio comum do casal em caso de divórcio – antes disso, todos os bens iam diretamente para o marido, em caso de separação, porque ele era legalmente considerado o “chefe da família”. No Brasil, as mulheres só começaram a votar em 1932 – e, na Arábia Saudita, só ano ano passado é que o voto feminino foi posto em prática pela primeira vez.

Todas essas conquistas só foram possíveis graças (surpresa!) ao feminismo. Sem ele, você nem poderia ler esse texto sem a permissão do seu marido ou do seu pai. Sem o feminismo, você poderia ser morta simplesmente por querer se separar do seu marido. Aliás, sem o feminismo, a lei defenderia o seu marido caso ele te batesse. Isso até 2006, quando entrou em vigor a lei Maria da Penha.

Por falar em lei Maria da Penha, eu queria entender como você pode achar que o feminismo é desnecessário em um país no qual acontecem 5 espancamentos de mulheres a cada 2 minutos, 1 estupro a cada 11 minutos, 1 feminicídio a cada 90 minutos, 179 relatos de agressão por dia e um total de 43 mil mulheres assassinadas por ano*.

Entre 2001 e 2011, estima-se que tenham ocorrido mais de 50 mil homicídios de mulheres motivados por misoginia (ou seja, o ódio contra mulheres), o que torna o Brasil o sétimo país que mais mata mulheres no mundo. Esses números não são um exagero: eles são a realidade. E você pode saber mais sobre a violência contra a mulher nesta reportagem que demorou um ano inteiro para ser apurada.

Tudo isso sem falar nas violências, nas desigualdade e nos abusos sofridos no ambiente de trabalho. Claro que você sabe que, segundo o IBGE, as mulheres, mesmo compondo mais da metade (53,3%) da População Economicamente Ativa do país, ganham cerca de 30% a menos do que os homens (sendo que trabalham em dobro, cuidando da casa e dos filhos, porque isso ainda hoje é visto como uma tarefa feminina). Quando a gente compara o salário das mulheres negras em relação ao dos homens brancos, a diferença aumenta para 79% (dados do Censo 2010). Nesta reportagem, você pode ver mais dados sobre o mercado de trabalho e se espantar com a desigualdade.

Isso quer dizer que você, mulher, trabalha mais e ganha muito, muito menos. E ainda tem que aguentar piadas machistas sobre a sua capacidade intelectual, ataques à sua autoestima, abuso sexual e, claro, o risco de não ser contratada só por ser mulher (também conhecida como “grávida em potencial”).

Isso não tem nada a ver com você, individualmente, ser “forte”, “independente” e “não precisar de feminismo”. Aposto que você é, sim, muito forte e independente. Mas a o problema é você ser mulher e, portanto, estar sujeita a tudo o que eu citei. Se você, como indivíduo, nunca sofreu com isso, ótimo! Eu realmente fico muito feliz. Mas é muito egocentrismo achar que o mundo inteiro se resume a você e às suas experiências, não acha?

Agora, se você acha que feministas são “mal amadas”, pense de novo! Para começar, todo o nosso movimento se baseia no sentimento de irmandade entre mulheres, na criação e manutenção do amor próprio em cada mulher e na desconstrução de relacionamentos abusivos e violentos. Se isso é falta de amor, então eu não sei o que é amor. E me pergunto se você realmente sabe, já que tem tanto ódio de quem te quer bem.

Eu sei que é difícil aceitar que você pode amar mulheres. Sei que parece impossível entender que você não precisa invejar outras minas ou fazê-las invejar você. Sei que parece coisa de louco parar de tentar se encaixar em um padrão de beleza que te machuca e que te faz sentir feia e inferior, não importa que tipos de dieta você faça.

Sei que é difícil acreditar em uma realidade sem competição entre mulheres, sem abuso sexual, sem piadinhas machistas, sem homens estando sempre à frente, sem a sua aparência ser sempre mais valorizada que qualquer coisa que você faça. Mas tudo isso é possível se a gente se unir.

Nós, feministas, não queremos te destruir. Nós não queremos te irritar, te contradizer e nem te afastar dos homens. Pelo contrário: queremos te ajudar a, cada vez mais, poder comandar a sua própria vida com o mínimo de dor e sofrimento e com o máximo de poder e de independência.

Se você ainda tem dúvidas como “e o alistamento militar obrigatório?” ou “por que as mulheres se aposentam mais cedo que os homens?”, sugiro este texto aqui. E nós, do Eu, tu, elas, estamos sempre abertas para qualquer pergunta e para qualquer ajuda que possamos oferecer.

E fique bem ❤

Helô D'Angelo
Helô D’Angelo tem 21 anos na cara e também já pensou que feminismo era um enorme exagero.

* dados (em ordem): Fundação Perseu Abramo (2010), Anuário da Segurança Pública (2015), Ipea (2013) e Balanço do 180 (janeiro de 2015).

observação: esta é uma carta para as mulheres. Se você for homem e quiser criticar o movimento feminista, eu realmente não ligo. E, antes de falar, sugiro este textão aqui.

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9 comentários

  1. Eu realmente “não gostava” do feminismo. Não do movimento propriamente dito mas, das mulheres que me parecem fanáticas. Quero externar o meu agradecimento por esse belo texto. Vcs me esclareceram muito e sobre muitas coisas. Quero apenas deixar uma pegunta: pq algumas mulheres parecem tão fanáticas qdo falamos de feminismo?
    Grata pela atenção.
    Um abraço a todos!

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    • Oi, Carla, tudo bem?

      Que delícia ouvir isso. Ficamos muito felizes que você tenha gostado e que esse texto tenha te ajudado!

      Bom, respondendo à sua pergunta: a gente acredita que muitas feministas pareçam “fanáticas” simplesmente porque é muito estranho, na nossa sociedade, uma mulheres querer lutar pelos próprios direitos, e é mais estranho ainda uma mulher ser amiga de outras mulheres. Esse “fanatismo” aparece, principalmente, quando uma feminista discute com um homem, pode perceber: ele vai conduzindo a conversa de um jeito que, no fim, a mulher realmente parece maluca, ou parte de uma “seita”.

      O feminismo é difícil de engolir, porque ele não é para ser agradável; ele é uma luta. Mas, ao mesmo tempo, as feministas acabam apoiando tanto umas às outras, fazendo tantas amigas, ampliando tanto o amor entre mulheres que, de fora, isso parece fanatismo. Mas não é. É só muito esquisito que, em um mundo machista, as mulheres se queiram bem!

      Esperamos ter respondido suas dúvidas ❤

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  2. Acho que é uma doença psicológica causada por defeito de criação dos pais, cuidado exagerado em relação aos filhos , como também pode ser um problema congênito, ou seja; já nasce com o cérebro diferente ao de uma criança normal.

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  3. Queria saber por que as feministas fazem protestos sem blusa.

    Já é muito ruim ter homens expostos na rua, sem blusa, e já vi alguns protestos que as mulheres vão sem blusa.

    Achei o texto bem esclarecedor. Sou um exemplo de mulher que nunca sofreu tudo o que você descreveu. E inclusive as mulheres do meio em que vivo também não passam por isso, a minha chefe é mulher.

    Agradeço se puder esclarecer minha dúvida.

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    • Olá anônimo, primeiramente: não é porque você não vive que não existe. Mas disso você já sabe e reconhece (ainda bem!), então vamos à sua pergunta.
      “Por que feministas fazem protestos sem blusa?”. Em primeiro plano, gostaria de dizer que NÃO SÃO TODAS. Sua generalização torna essa pergunta pobre, entende? O que o feminismo prega é que as mulheres são livres. Então, te rebato com algumas perguntas: Por que feministas NÃO podem ir a um protesto sem blusa? Qual é o incômodo nisso? Homens podem sair sem blusa? Qual a diferença biológica entre um mamilo feminino e um mamilo masculino?
      Voltando à sua pergunta. Em segundo plano, acredito que seja uma forma de mostrar que podemos sim tudo que quiser. Eu, particularmente, nunca fui a um protesto sem blusa. Mas acredito que cada mulher deva ir como se sentir confortável. De burca, com ou sem sutiã, com ou sem blusa, o importante é participar e não silenciarmos umas às outras.

      Um abraço!

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  4. Você é uma máximo, disse tudo.
    Todos nós somos seres humanos, nossas diferenças são biológicas e não civis (direitos), estamos há séculos sendo reprimidas pela sociedade que de forma geral, dita nosso comportamento, já chega!

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