Quem tem medo de vagina?

“Não gosto de fazer sexo oral porque a vagina é fedida/ molhada/ tem gosto ruim”

“Menina! Tira a mão da ppk!”

“Menina não se masturba”

“A vagina é mais frágil que o pênis”

“Fecha as pernas”

“Mulher não faz xixi na rua”

Desde pequenas, somos bombardeadas com esse tipo de frase sobre as nossas vaginas: uma mistura de nojo, mentiras e repressão. Somos incentivadas a dar apelidos fofinhos e “educados” para a vagina – perereca, pombinha, florzinha etc. Somos proibidas de explorar nossas vaginas, de falar sobre elas, de olhá-las no espelho.

Eu, até hoje, tenho amigas que nunca se masturbaram na vida. Amigas que nunca tiveram um orgasmo; mulheres de 22 anos que nem imaginam como é gozar. Tenho amigas que, aos 18 anos, não sabiam qual era o “buraco que o pinto entra”. Amigas que tiveram infecção urinária aos 19 anos porque se limpavam errado ao fazer cocô. Amigas que desenvolveram candidíase porque usavam sabonetes íntimos destinados à eliminação do “mau cheiro” da vagina. Amigas que precisaram cauterizar feridas no canal vaginal porque não estavam lubrificadas o suficiente durante a penetração.

E é claro: sempre encaramos essas mulheres como ignorantes que não sabem se cuidar. Tiramos sarro delas. Temos até pena delas. Mas como é que elas iam saber, se não se pode falar “vagina” sem que alguém dê um risinho? Como elas podiam adivinhar, se todo filme pornô mostra uma mulher completamente depilada sendo praticamente esfolada por dentro?

Ora, não conversamos com as nossas mães, com as amigas ou com as primas sobre a vagina. Porque é feio. Nas aulas de educação sexual na escola, nos sentimos inibidas demais para tirar dúvidas, mesmo que seja uma aula entre meninas. Porque é feio, porque não é coisa de menina bem educada. Quando menstruamos pela primeira vez, entramos em pânico e nossa tarefa número 1 passa a ser esconder  qualquer resquício de sangue que possa aparecer.

O próprio termo “vagina” é muito feio. Eu mesma, escrevendo esse texto, tenho a sensação de estar falando um palavrão, porque “vagina” é uma palavra carregada de negatividade; uma palavra que quase cuspimos quando vamos falar. Aliás, não é por acaso que o termo “buceta” seja um dos palavrões mais imundos que a gente possa proferir.

Falar das nossas vaginas é tão estranho que até quando vamos ao ginecologista passamos aperto. Porque não conseguimos nem falar “vagina” sem corar – usamos várias estratégias para não nomear a dita cuja. Dizemos “estou com uma coceira “, “ela está dolorida”. É bizarro.

Assim, acabamos, aos poucos, ficando com vergonha da vagina. E vergonha leva à ignorância, porque acabamos não questionando, não observando, não tocando. A partir do pudor, acabamos alimentando um sistema burro e cruel que nos aprisiona, porque nos proíbe de entender nosso ciclo menstrual, de conhecer nosso prazer, de diferenciar cada sensação, de perceber o que nos faz mal.

A vergonha e o nojo barram aquele papo importante entre mulheres, no qual se troca conhecimentos sobre sexo, sobre saúde, sobre contracepção e sobre bem estar. Então, chega disso: se você nunca olhou sua vagina, pegue um espelho hoje mesmo e observe cada detalhe dela. Se você não sabe como funciona o ciclo menstrual, vá atrás de entender isso agora mesmo. Se você nunca tocou, sinta as texturas. Se você nunca falou com ninguém sobre isso, fale com uma amiga. Só assim, na prática, é que vamos desmistificar a vagina.

Imagem de capa: Red Poppy, de Georgia O’Keeffe

* A autora pediu anonimato.

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2 comentários

  1. Dura realidade mas infelizmente ainda acontece isso, mulheres que se mastubam só que morrem de vergonha de comentar, quando surge o assunto. Não tem nada de nojento, se descobrir é muito bom e exigir sexo oral do parceiro faz parte.

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  2. Dura realidade mas infelizmente ainda acontece isso, mulheres que se mastubam só que morrem de vergonha de comentar, quando surge o assunto. Não tem nada de nojento, se descobrir é muito bom e exigir sexo oral do parceiro, faz parte.

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