Como ter um dia de mulher

por Helô D’Angelo

Acorde, espreguice o corpo e lembre que você está bem longe do padrão de beleza. Passe vários minutos escolhendo uma roupa que te deixe feminina sem ser delicada demais, forte sem ser masculina demais, bonita sem ser vulgar demais, na moda sem chamar atenção demais. Lembre que, se você não tiver se depilado, vai precisar cobrir o corpo, mesmo que esteja um inferno lá fora.

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Ilustra: Helô D’Angelo

Para ter um dia de mulher típico, decida colocar uma calça e uma camiseta comuns, e se engane achando que, assim, evita o assédio. Entupa a cara de maquiagem para esconder espinhas/ rugas/ olheiras/ manchas e comece a suar no minuto seguinte. Diga para si mesma que você não quer chamar atenção. Coloque até um casaquinho. Deixe de lado o batom, porque você sempre ouve dizer que batom é vulgar.

Saia de casa, dê bom dia para o porteiro e receba uma longa olhada nos peitos como resposta. Chegue ao portão do prédio, encontre seu vizinho mais velho e passe primeiro quando ele insistir – assim, ele pode dar uma bela olhada na sua bunda.

Está um baita calor, mas, lembre-se: você quer ter um dia de mulher. Então, resolva continuar com o casaquinho, porque você ainda tem a ilusão de que as roupas têm o poder de bloquear assédios. Ilusão, sim, porque assim que você passa no boteco da esquina (que está cheio de bêbados da noite anterior), mesmo com os olhos grudados no chão, já ouve logo:

– Ô, delícia, te chupava todinha.

Para ter um autêntico dia de mulher, você precisa não saber o que responder enquanto eles dão risada. E precisa sentir uma mistura horrível de medo, raiva e impotência que te empurre para a frente, para longe dos bêbados. Respire fundo. Diga para si mesma que eles estavam bêbados, não sabiam o que estavam fazendo.

Entre no metrô lotado, espremida entre homens. Sinta um deles se mexendo e perceba, tarde demais, que ele estava se esfregando em você. Ou então, sinta alguém apertando a sua bunda. Ou só te encarando sem parar. Ou apontando para você enquanto diz alguma coisa para um amigo que ri. Olhe para os lados, para cima, para os pés, não importa: você vai continuar sendo julgada. Afinal, este é um dia de mulher, e a mulher é você.

Por mais que você tente ser um corpo pequeno, discreto, vestido de cinza e jeans, você continua sendo mulher. Você pode até se revoltar, reclamar com alguém – um segurança do metrô, por exemplo. Mas ele só vai se limitar a olhar as suas roupas e encontrar alguma coisa que justifique o abuso. Ou então, vai pedir que você vá, junto com o agressor, fazer um B.O. na delegacia mais próxima, que fica no bairro vizinho, a uns 20 minutos de caminhada sob o sol já quente. Desista, esqueça.

Chegue no seu trabalho e, finalmente, sinta-se à vontade para tirar o casaquinho que já estava te matando de calor. Faça isso um pouco antes de entrar no seu local de trabalho para não chamar atenção. Entre e, surpresa: sinta olhares de todos os homens nos seus peitos.

No resto do expediente, engula piadas machistas, “brincadeiras” sexuais, perguntas íntimas demais, mãos nos seus ombros, abraços não requisitados, tiração de sarro. Vá almoçar e sinta dezena de olhares medindo o seu prato, esteja ele cheio ou vazio demais. Se você for um pouco mais amiga dos seus colegas de trabalho, pode até tentar desabafar sobre o idiota do metrô. Mas, no fim, você vai ouvir que homens não controlam seus instintos. Ou que essa sua camiseta é meio apertadinha mesmo. Ou que você devia ter feito B.O. Ou que você poderia estar no “vagão rosa”. Ou qualquer outra coisa, porque você é mulher e este é um dia de mulher.

Para ter um dia de mulher, lembre pelo menos cinco vezes que a sua menstruação está atrasada. Sinta que a culpa é sua e que você é uma irresponsável, mas lembre de não falar sobre isso com ninguém, porque a primeira pessoa a quem você confidenciar isso vai te dar uma lição de moral imensa. Só, sei lá, sofra em silêncio até a coisa descer.

Pode ser que você sinta uma dor horrível no ventre: isso é cólica. Você pode sentir dor de cabeça, dores musculares, dores nos seios, inchaço, uma tristeza imensa ou uma raiva incontrolável – mas tudo isso vai ser jogado contra você como um exagero ou coisa de mulherzinha. É a famosa TPM, muito provável em uma dia de mulher.

Por fim, comece a caminhada de volta para casa. Sinta, de repente, que você menstruou – mas não fique aliviada, porque ninguém pode saber que você menstrua! E você esqueceu seus absorventes em casa, então passe a volta inteira sentindo olhares na sua bunda (somados aos olhares habituais de quero sexo).

Para fechar o dia de mulher, decida ir a uma festa, à noite. Você se arruma, combina com os amigos e pega um táxi. Aí, lembre de todas as histórias sobre mulheres estupradas pelos taxistas. Perceba que você está sozinha em um carro com um estranho que não para de dizer que você é bonita. Você vai precisar sorrir, desconversar e até agradecer.

Chegue na festa e seja tocada. Muito, muito tocada. Por homens na pista de dança, por homens querendo chamar a sua atenção, por homens querendo flertar, por homens querendo entender por que diabos você não está interessada. Seja tocada em lugares que você não quer que toquem. Seja agarrada à força por algum maluco que diz que só vai te soltar se você justificar por que não quer ficar com ele. Tenha a bunda apertada de novo, igualzinho ao metrô – só que, agora, você vai estar bêbada, o que é uma justificativa muito mais fácil.

Veja suas amigas sendo agarradas também e respire fundo, achando que é normal. Fique cansada da festa e tenha vontade de ir embora, mas espere até o dia nascer, porque a lembrança do taxista tarado ainda vai estar clara na sua memória. Sempre te disseram que mulher não pode andar sozinha na rua de madrugada: acredite nisso e só espere tudo acabar.

Afinal, é só um dia de mulher.

Feliz Dia Internacional da Mulher.

Helô D'Angelo
Helô D’Angelo tem 21 anos na cara e nenhuma ideia do que quer fazer da vida quando terminar a faculdade de jornalismo.

 

 

 

 

 

 

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