Hoje, eu viro uma rosa

por Thaís Regina Santos

Seguinte: não me dá parabéns. Não manda flores. E tira o chocolate da cara das mina. Hoje eu não tenho nada para comemorar.

A pergunta é básica: pelo que você está nos parabenizando? O que é ser mulher? Somos mulheres após passarmos por um processo de socialização (que começa ainda antes de termos nascido) marcado por violência e silêncio. Hoje, qualquer felicitação me soa como ameaça, eu fui ensinada a ter medo. Parabéns por sobreviver aos nossos atentados de terrorismo psicológico e emocional! Parabéns por não se rebelar contra a dominação masculina, continue sempre assim. Boa garota! Feminista, você também ganha chocolate, mas para de mimimi, sua mal comida do caralho! Lésbica também merece flor (e um estupro corretivo).

Não existem lágrimas para chorar feminicídio. E não existe repressão que controle minha raiva pela perda de minhas irmãs.

Hoje é um dia de raiva. Hoje é um dia de introspecção: fico ensimesmada, afinal em mim tenho minhas irmãs. Respiro e deixo aflorar, contra a minha socialização feminina, minha raiva. Eu a conheço e finalmente a permito que me conheça. Ela desabrocha com perfume de revolta e espinhos por todos os lados. Hoje é um dia de amor meu para com outras mulheres – e o delas por mim. Hoje eu amo não só minha amiga, minha namorada e minha mãe. Hoje amo todas as mulheres. Não me contento com sororidade, não hoje. Hoje solidariedade entre mulheres, essa nossa empatia não me sustentam. Eu preciso de amor. Eu preciso amá-las.

Hoje é um grito de dor. E ao fundo eu escuto mulheres gritando enquanto são queimadas vivas nas fogueiras medievais, na resistência operária, nas salas de tortura de governos ditatoriais, no esquecimento histórico sistemático de nossa coragem, no feminicídio nosso de cada dia.

Hoje eu peço desculpas. Tornar-se mulher é um processo doloroso, quase uma fileira de montagem fordista de humilhações. E se tem um parafuso que eles apertam bem é a ideologia. Da lógica publicitária chega a ser óbvio: repita o nome de sua marca. E eles não só repetem, eles transpiram ódio às mulheres. E nós inalamos isso, querendo ou não. Eu peço desculpas hoje para todas as mulheres que agredi. Eu espero que vocês me desculpem, entendam e me acolham enquanto irmã.

Desejo que hoje todas as portas de casas de mulheres estejam abertas para outras mulheres. Que nós nos libertemos para chorar nosso luto e conhecer nossa raiva. Que hoje você não chame sua amiga de vaca, nem de brincadeira. Que você não silencie uma mulher na frente de um macho. Que nós sejamos como as rosas que recusamos hoje: simbólicas e íntimas para mulheres e espinhosas para homens, com perfume de revolução.

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Thaís Regina Santos, 19 anos, jornalista, atleta, estudante, feminista, negra, deusa, louca e feiticeira. Não sabe muito bem escolher qual desses nomes vem primeiro, o ascendente é em libra.
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