Você pode ser mais que Penny Lane

por Letícia Souto

Da primeira vez que assisti Quase Famosos eu tinha uns 12 anos. Estava começando a me descobrir e descobrir o mundo, e por me identificar tanto com a paixão pela música esse filme acabou vindo à tona. De fato acabou se tornando um dos meus filmes preferidos e me influenciando demais em todos os âmbitos da minha doce vida de pré-adolescente.
E isso afetou várias das minhas escolhas.

O filme é maravilhoso e isso é inegável pra mim. Mostrar a música como modo de vida do qual seus adeptos são devotos me fez querer estar ali, acompanhando e documentando o dia-a-dia de alguém que vive, respira e se alimenta disso. Mas, preste atenção, usei justamente as palavras “acompanhar” e “documentar” ao invés de “viver”. Eu poderia muito bem querer viver de música, vivenciar tudo aquilo, pois já naquela época sentia que isso seria uma vontade pertinente, quase crônica em mim.

O problema é que todos os personagens eram homens. Todas as figuras que eu sonhava em ser e faziam parte da banda eram homens. Havia mulheres? Sim, claro. Em histórias de Rock N’ Roll sempre há mulheres. E esse é o problema maior ainda: a personagem principal do filme era mulher. Só que ela não estava na banda. Penny Lane, a mocinha fofa de cachos loiros, era groupie (ou, como ela mesmo disse, uma “band aid”). Ela é a mina que se arrasta pelo guitarrista gato, que pega as cervejas pra ele, que fica na primeira fila dos shows de olho nas outras garotas pra quem ele olha. Mas ele não liga pra ela, muito pelo contrário. Ele é um rockstar e ela é só mais uma.

Almost_Famous
Olha elaaa

Imagina o quanto isso pode ter afetado minha semidesenvolvida massa encefálica juvenil.
Por um bom tempo isso ficou na minha cabeça. Poxa, a Penny Lane é tão maravilhosa, tem um sentimento enorme pela música, é a personificação de uma baladinha acústica de amor mas… Ela só está ali porque acha que precisa ser amada para que toda essa sua energia valha a pena. Porém ela não é amada, não é respeitada e nem valorizada pelo cara por quem ela é perdidamente apaixonada. Ele é um belo de um cuzão que não tem o mínimo de empatia para valorizar o sentimento alheio. Parece bem real, não?

E, pois bem, é real. A personagem de Kate Hudson foi inspirada numa groupie dos anos 70, que como disse antes, acompanhou e documentou toda a vida na década explosiva e enérgica do Rock. E é só isso o que sabemos sobre ela: que é uma moça sonhadora, apaixonada e cativante, mas no fundo se sente do tamanho de um grão de areia por estar sempre nos bastidores da vida do guitarrista que está sempre nos palcos.

O que eu quero dizer com tudo isso? Que demorei muito tempo para perceber que não preciso ser a Penny Lane, que não preciso me arrastar por ninguém pra conseguir um espacinho dentro desse mundo maravilhoso que é o da música. Eu quero dizer que mulher nenhuma nasceu pra ficar nos bastidores abrindo cerveja pros caras. A gente nasceu para os holofotes e para os aplausos. O mundo é nosso e o palco também.

leticia
Letícia Souto tem 19 anos de ócio criativo. Graduada em preguiça e pós-graduada em procrastinação pela Universidade da Vida. Gata em um mundo cão
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