O Mito da Histérica e a Presidenta do Brasil

por Alissa Mnrt

Em (ironicamente) 1° de Abril, o site da IstoÉ revelou a capa da nova edição com uma Dilma Rousseff de boca aberta  —  aparentemente gritando  —  e a seguinte manchete: “As Explosões Nervosas da Presidente”. O artigo segue a descrever as supostas ações emotivas que indicam uma presidenta ‘fora de si’ e deixa claro que, já não bastasse a crise política em que estamos, agora teremos de lidar com uma mulher maluca que coordena o nosso executivo.

Essa é a capa:

istoemachismo
Äs explosões nervosas da presidente”. Sério, IstoÉ?

Custei a acreditar que chegamos a este ponto no jornalismo brasileiro. Saí do transe e do estupor que me foram causados pelos autores da matéria apenas após observar que eu não era a única indignada com a situação. Inúmeras mulheres incansavelmente bradaram o machismo e a psicofobia destes colunistas. Psicofobia, sim: como se já não fosse o suficiente, fizeram questão de brincar com nomes de remédios e a esquizofrenia para justificar os supostos surtos de Dilma e utilizaram jargões de baixíssimo nível para ironizar calmantes e anti-psicóticos.

Os colunistas seguem, então, com opiniões importadas de especialistas em psiquiatria e tratam logo de realizar o diagnóstico. Conseguem indicar até, veja só, o próprio estágio da doença de Dilma! Imaginem o quanto de sofrimento eles conseguiriam evitar caso virassem psiquiatras de verdade: pacientes com anos e anos de provação finalmente seriam diagnosticados com certeza e passariam a usufruir do tratamento apropriado para cada estágio de suas doenças. A nova era da clínica chegou! Foucault treme e chora no caixão.

Só para comparação: vocês viram quando o Jornal Nacional falou dos palavrões de Lula? Foi assim: 

Vocês perceberam que os governantes podem falar qualquer tipo de palavrão sem ter sua sanidade mental questionada?  Pois notem que não estamos tão longe daquele ditado que todas as mulheres ouvimos na infância: “comporte-se como uma mocinha”. Mulher que fala palavrão é feio. É feio e ninguém gosta, principalmente a oposição política quando você vira presidenta do Brasil. A situação poderia ser pior para o lado de Dilma: ela podia ter acordado e  não ter penteado o cabelo. Imaginem se ela não passasse maquiagem, então.

É claro que a presidenta está nervosa. Se um bando de babuínos ficasse gravando todo meu “mau comportamento” com o objetivo de acabar com a minha credibilidade intelectual e profissional, eu também mandaria todo mundo à m*. O que foi considerada má educação da parte do presidente Lula pelo Jornal Nacional se transformou em loucura e incapacidade para a presidenta Dilma.

Não vou entrar em méritos de que não tem uma pessoa sequer nessa m* de país que nunca tenha falado um palavrão em conversas privadas e que isso nem possa ser considerado como falta de educação de acordo com os padrões da nossa língua portuguesa (talvez possa de acordo com a etiqueta do século XIX). O meu ponto é que mulher não pode falar palavrão. Não pode mostrar o dedo do meio, não pode estar de mal com a vida, não pode ser presidenta: seu lugar, minha querida, é como primeira dama, sorrir e acenar para as câmeras enquanto inaugura um projeto seu com o nome do seu marido. E mesmo assim, se você soltar um p*rra fora de hora, estará sujeita a manchetes dignas de pena, com gente te diagnosticando e te enviando para o sanatório mais próximo.

A Dilma não é e nunca foi uma mosca-morta. Lutou contra a ditadura, suportou anos de tortura: socos na boca, doenças, sujeira e celas de presídio. Há gente que a acuse de crimes inimagináveis. Aí ela vai lá, solta uns palavrões pra todo mundo ouvir, e de repente é louca? Sejam mais coerentes.

A loucura é vista como a forma mais baixa de um ser humano. Não é digna de repreensão explícita, dá dó mas também deixa impaciente. Causa desimportância, reduz o humano ao animal selvagem que biólogos deterministas clamam que somos. Qualquer aspecto de cultura e requinte psicológico lhe é roubado. Perde-se a autonomia e os direitos. Você não é um criminoso, mas vai para a prisão como se fosse. Delegacia, manicômios e sanatórios. Qual a diferença?

Quando uma pessoa é taxada de louca não existe mais a perspectiva de defesa própria. A estratégia de denominar um presidente como louco é dificilmente alcançada. Poucos regentes receberam tal título ao longo da história. É muito mais fácil fazê-lo quando quem governa é uma mulher, pois esta está suscetível à histeria por conta de sua dócil natureza de mãe, cuidadora frágil.

A revista ainda nos faz o favor de citar Maria, a Louca, cujo reinado é lembrado apenas pelo seu transtorno mental e faz-se esquecer os avanços científicos e culturais promovidos pela rainha. O próprio título de Maria, a Piedosa, é substituído por ter menos importância histórica.Sua suposta doença, seja ela comprovada ou não, a destituiu após poucos anos de governo para dar lugar ao príncipe-herdeiro assim que possível.

É vantajoso para a oposição que Dilma seja louca, pois assim seria desmoralizada e incapacitada. Nada mais que uma criança de seis anos recém-alfabetizada que assina documentos do executivo. É interessante tornar a permanência da presidenta como apocalíptica: o que será que ela vai fazer da próxima vez? Vai surtar e acabar com o país de vez. Tirem-na de lá! Não é capaz. Ponham-na em uma ambulância e lembraremos deste momento como O Dia em que Salvamos o Brasil da Doida.

Termino com uma porrada de palavrões proferidos na minha imaginação. Porque as mulheres não são obrigadas a aguentar merda. Querem rebater Dilma? Façam-no apelando para medidas e argumentos políticos válidos. Parem de ferrar a vida de milhões mundo afora.

E vão se f*der.

Texto originalmente publicado aqui.

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Alissa Mnrt: dedicada à revolução ciborgue e ginoide, filosófica e tecnológica.
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