A cultura do estupro e a ilusão do repúdio ao crime

por Júlia Provenzi

É possível que o estupro seja o crime mais repudiado do país, mas é, ao mesmo tempo, o menos denunciado. Segundo dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de 50 mil casos de abuso sexual são relatados todos os anos no país. No entanto, estima-se que esses números sejam correspondentes a 10% do total de casos ocorridos.

Porém, se o estupro é uma prática tão condenável na sociedade, por que há tantos casos subnotificados?

Porque é doloroso reviver essa experiência ao fazer um relato formal. Porque é vergonhoso ter sido uma vítima. Porque nem sempre o criminoso é preso. Porque ainda há quem diga que a culpa é da vítima. Além disso, há quem acredite que o estupro só é praticado por pessoas que sofrem de algum distúrbio mental em um beco escuro.

Há estudos que indicam que grande parte dos estupradores sofre, sim, de problemas mentais, como por exemplo o TPA (Transtorno de Personalidade Antissocial) – ou são psicopatas e só sentem prazer com o ato sexual forçado.

O problema é que o estuprador raramente é o doente mental. O estuprador pode, e frequentemente é um homem qualquer, “saudável”. Inclusive, de acordo com o IPEA, em 70% dos casos ele é um conhecido (pai, padrasto, namorado ou amigo). Isso porque não é estupro apenas quando uma menina no rio de Janeiro fica com a pelve ensanguentada decorrente de uma bexiga estourada após sofrer o abuso de 33 amigos seguidos.

O estupro acontece sempre que ocorre uma relação não consensual, ou mesmo quando a relação é consentida mas a mulher se sente humilhada ou constrangida. Se ela é inferiorizada pelo parceiro sem consentimento, se ela sentir que não foi respeitada, é estupro.

Psicologicamente, os efeitos de uma relação não consensual com o namorado ou com um desconhecido são muito semelhantes. Nos dois casos, é abuso. E ABUSO significa que esse homem foi além, cruzou a linha do respeitável, ignorou outro ser humano. Não interessa se ela usava uma roupa provocativa, não importa se ela bebeu demais, com quem ela anda, como ela se porta ou quem ela é. “Não” é “não”.

A culpa NUNCA é da vítima, a culpa é de quem viola os direitos dos outros.

Isso é a cultura do estupro. Defender que as mulheres se sujeitam ao estupro devido a roupa que usam é imoral, ilógico e desumano. A mulher que bebeu demais ou aceitou o copo de algum desconhecido e ficou inconsciente, a estudante que entrou no táxi, foi ameaçada e levada pra um lugar menos movimentado, a mulher assediada no metrô, a namorada ou esposa submissa, a menina que acordou nua, ensanguentada e rodeada por 33 homens, nenhuma delas é culpada por sofrer abuso.

Dizer que não existe cultura do estupro no país é o que contribui para a continuidade desse pensamento e, portanto, para a persistência dessa realidade.

 

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