Quando saí da escuridão do machismo

Não vou dizer que foi algo facilmente digerido. Que foi como aprender qualquer matéria que, apesar da dificuldade, uma hora ou outra, eu entendia e seguia a vida. Foi dor. Foi frustração. Desespero. Próximo de um desânimo.

Quando saí da escuridão, me perguntei, francamente, quem, em sã consciência, gostaria de nascer mulher? Justo eu que sempre amei ser mulher. Sempre amei minha “feminilidade”. Sempre amei meu “poder” sobre os homens (???). Sempre amei nossa sensibilidade.

Juro que hoje, tudo isso soa muito ridículo e triste pra mim. Me fez perceber que sempre amei a construção feminina que impuseram em mim. Por ter nascido com uma vagina. Ops, perereca. Ou melhor, florzinha? Porque tem que cheirar a flores, não é mesmo?

Quanto tempo da minha vida passei achando que eu era sortuda por sentir que meus únicos assédios sofridos eram cantadas na rua e umas passadas de mão pelo corpo na balada (e achava pouco, sim, pois é). Eu estava cega. Eu vivia constantemente um machismo esmagador, mas eu achava que era NORMAL.

Até que entrei em contato com isso de forma mais profunda. Passei a lutar pelo direito das mulheres. Das outras mulheres. De todas elas. Menos pelos meus. Porque até então eu não tinha percebido as atrocidades que passei ao lado de “amigOs”. As vergonhas às quais me sujeitei para atrair atenção de macho.

O tempo que gastei me sentindo feia por causa de espinhas, manchas na pele e pelos. Achando que se os caras me vissem assim, que eles desistiriam de mim na mesma hora. Quanto tempo gastei achando que eu tinha que ir arrumada e cheirosa para a escola. Quantas vezes me senti inferior às outras mulheres e senti inveja delas, raiva, ódio, ciúme, sendo que elas não passavam de meras vítimas como eu.

Mas então, eu consegui enxergar. E assim que realmente vi, brotou na cabeça um episódio de estupro que me passou batido por tanto tempo. Um episódio que para muitos é apenas mais um caso de “não devia ter saído só com homens”, “estava bebendo por quê?” e “ela bebe e fica soltinha, certeza que ela quer”.

Pois bem, basicamente fiquei estatelada no banco de trás do carro, sem, no mínimo, conseguir mexer os braços direito, enquanto um “amigo” ficante passava a mão em todo meu corpo. Me beijava freneticamente a boca. E eu, mole e estimulada mesmo contra minha vontade, dizia para o outro “amigo” motorista: Fala pra ele parar, não consigo me mexer.

É, minhas manas, perceber, mais de um ano depois, que passou por uma coisa dessas é assustador e chocante. E pensar que ainda pedi desculpa pelo comportamento da noite anterior aos “amigos”. Uma culpabilização infeliz, vergonhosa e desnecessária.

E é por essas e MUITAS outras histórias, minhas e de outras mulheres, que sou feminista.

Sou feminista porque muitos podem ditar quais são os meus deveres, porém feminismo é um dever de mim para comigo mesma e para com as outras, porque NÓS, MULHERES, ditamos as regras do feminismo.

Queríamos que ele existisse e fosse necessário? Não. Mas ele é real e ele precisa estar em todos os lugares. Dentro de casa, na rua, nos postes, nas casas de prostituição, nos presídios, nas baladas, nos hospitais, nos escritórios, nos necrotérios e cemitérios.

Feminismo é a luta que movimenta a superação de nossos monstros criados e estruturados. Feminismo é a luta que vai nos libertar de uma opressão de anos estabelecida.

* A autora pediu anonimato.

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