Crônica: Não livre demais

por Karina Morais

Chovia muito na noite de sábado, mas isso não impediu que os jovens saíssem e lotassem os bares e restaurantes da região central de São Paulo. Cerveja e quitutes fritos estão em quase todas as mesas dos estabelecimentos da “Prainha”, esquina da Avenida Paulista com a Alameda Joaquim Eugênio.

Os garçons estão agitados, são requisitados a todo o momento por clientes sedentos por álcool. Os telões mesclavam entre o Brasileirão e o UFC. Para os que não se interessavam por nenhum dos dois esportes, restava debater sobre os principais acontecimentos no Brasil e no mundo, pautados, claro, pelo feed do Facebook e pela timeline do Twitter. A discussão política em uma das mesas já era redundante, sempre pendendo para o mesmo lado: ele, coxinha; ela, mortadela. A esquerda e a direita se digladiam segurando suas bíblias: a revista Veja pra eles, e a Carta Capital para aqueles.

O principal embate dele: ela tinha “um coração grande demais”, quase um “Robin Hood”. Quando as falas e a cerveja esgotaram-se, partiram para a lanchonete da frente: Hooters, caracterizado pelas garçonetes em shorts minúsculos e justos, completamente objetificadas; tanto que são frequentemente solicitadas para fotos com seus frequentadores, majoritariamente masculinos. A conversa dos dois não poderia ser outra: feminismo.

“Você está muito chata no Facebook, tomando partido demais nesse caso do estupro coletivo”, ele brandou. Para ele, tudo bem ela ser feminista, mas não feminista demais. Tudo bem postar notícias no Facebook, mas não análises de casos. Tudo bem ela falar sobre a cultura do estupro, mas não generalizar os homens. Tudo bem ela ser de esquerda, mas não esquerda demais. Tudo bem ela se indignar com um estupro coletivo de uma adolescente, mas não abraçar isso como sua causa.

Segundo o Ipea, 500 mil mulheres são estupradas anualmente no Brasil, mas, de acordo com os machistas de plantão que adoram dar pitaco no feminismo, isso não quer dizer que exista uma cultura do estupro – muito menos que nós, mulheres, devamos nos unir para fortalecermo-nos e diminuir esse número alarmante.

Mulher gosta mesmo é de fazer mimimi! Se estivessem em casa, lavando louça, isso jamais aconteceria. Pena que acontece – e como acontece! Mas também não vamos discutir sobre isso, certo? Afinal, textão no Facebook e manifestação na Avenida Paulista não vão mudar o fato de a mulher ter que se dar o respeito.

Segundo o Ipea, 500 mil mulheres são estupradas anualmente no Brasil, mas, de acordo com os machistas de plantão que adoram dar pitaco no feminismo, isso não quer dizer que exista uma cultura do estupro

A conversa continuou acalorada, ela estava abismada com as palavras que saíam do homem que amava. Ele pediu, mais de uma vez, que ela parasse de postar coisas daquele tipo, pois “não sabia que tipo de homem estava entre seus amigos virtuais e o que eles seriam capazes de fazer caso se incomodassem com essas publicações mais ativistas”.

ambém pediu para ela não pensar tanto nos outros e tentar arrumar a própria vida – que já estava bagunçada demais para ela arrumar ainda mais problema pensando nos direitos dos pobres. Pergunte a qualquer dos homens que babavam pela bunda das garçonetes naquela noite no Hooters e eles concordariam, sem nem pensar duas vezes, com a fala dele.

Afinal, ele só estava pensando no bem dela, como todo bom namorado. Ela tinha sorte de ter alguém que a avisasse dos perigos que a rede esconde e dos riscos que sua militância feminista poderia causar a si. O problema era ela, que, ingênua demais, tadinha, não enxergava que poderia ofender outros homens (inclusive seu interlocutor) e sabe-se lá deus o que poderia acontecer.

Ainda bem que ele estava lá, pronto para abrir os olhos dessa pobre moça e ensiná-la como exercer seu feminismo, sua feminilidade e até explicar um pouco sobre como é ser mulher. Aliás, ficou ofendidíssimo quando ela insinuou que ele estava censurando-a. Nunca faria uma coisa dessas! Só não queria ver novamente ela postando na web coisas que não lhe agradavam – era muito melhor continuar a postar gifs de gatinhos.

Ela poderia continuar com suas ideologias, óbvio, mas ela não precisa explanar isso para todo mundo ver. Afinal, ninguém é obrigado a ver como a cultura do estupro ainda é forte; como as mulheres ainda são constantemente oprimidas; como vivemos em uma sociedade patriarcal. Todo mundo sabe que isso é coisa da cabeça de mulher que não tem nada para fazer. Ela pode ser livre, claro, mas não livre demais.

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Karina Morais, 22 anos, jornalista, virginiana, paulista e nordestina. Irmã mais velha e problematizadora na família mais tradicional brasileira.
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