Meu primeiro encontro com a sororidade

Sou filha única, branca, classe média, pós-graduada. Trabalho em um órgão público e recebo o mesmo salário de um homem que exerce a minha função. Não estou em um relacionamento abusivo (mas já estive). Não sou constantemente assediada (salvo algumas frases e olhares nojentos que às vezes escuto na rua ou no ônibus). Uma mulher nas minhas condições, como algumas que conheço, não veria muitos motivos para ser feminista.

Mas, sejamos francas, isso seria de uma hipocrisia e egoísmo imensos. Ao saber que nossas irmãs sofrem a cada segundo, com violência doméstica, sexual, obstétrica, assédio no trabalho, na rua, repressão na educação, opressão no relacionamento, julgamento pelas aparências, e tantas outras discriminações, seria no mínimo covarde da minha parte não lutar ao lado delas.

Sofri um abuso na infância, chantagens emocionais em relacionamentos na adolescência, e olhares reprovadores ao expor minimamente minha bissexualidade. Fui criada numa família moderadamente liberal em termos morais, com educação sexual constante em casa (ainda mais depois do abuso). Aprendi a superar as violências sofridas.

As cicatrizes ainda estão aqui, mas hoje elas me deixam mais forte. Fazem-me lembrar das minhas irmãs. Fazem-me pensar que muitas delas sofreram muito mais do que eu, e ainda sofrem caladas. Caladas porque foram doutrinadas a agir assim, a não ferir o ego do parceiro, a não desafiá-lo, a não manchar o falso pudor que mascara a sociedade.

Mas hoje eu grito. Eu grito porque não aceito mais que ninguém me comande, me manipule, me culpe pela culpa que não tenho. Eu sou a senhora do meu destino. Dona do meu corpo. Dona do meu coração. Sofro junto a minhas irmãs. Resiliência, mulheres!

Descobri a palavra ‘sororidade’ recentemente e, embora sempre tenha me considerado feminista, carregava comigo muitos preconceitos velados. E foi uma estranha que me introduziu a esse mundo sororo. Estranhamente, a estranha, apesar de ser sorora, não me perdoou por um erro. Qual? Eu conto.

Eu me abri a ela sobre um relacionamento que tinha tido, meses atrás, com um rapaz com quem ela teve um namorico. Conversa escrita, facebook da vida, tudo ficou registrado. Papo vai, papo vem, tive a impressão de que ela havia sido um pouquinho ácida em alguns comentários sobre ele. Aquilo ficou na minha cabeça. Dias depois, ao conversar com o dito cujo, mostrei o meu chat com ela para ele. Sim, a expus. Cheguei a esse ponto. Achei que tinha o direito de alertá-lo. Mas não tinha. Nunca tive. Aquilo ficou na minha cabeça.

Aquilo não saiu mais da minha cabeça. Por que eu fiz aquilo? Pode parecer trivial (quem nunca deu um ctrl+C, ctrl+V e vazou para alguém?), mas, para mim, não teve nada de banal. Pedi desculpas, mas minha irmã não aceitou. No lugar dela, eu teria aceitado, mas respeitei e entendi. Entendi que a sororidade é mais do que ser militante e escrever belos textos, é ser capaz de se colocar no lugar da outra.

Desde aquele acontecimento, tenho estado atenta a cada palavra que digo, a cada pensamento que me surge. Temos que ser vigilantes, irmãs. A pressão sobre nós para que julguemos as mulheres tão somente por seu gênero é muito intensa.

Às vezes, é inconsciente. Vai desde você cogitar “como essa professora se mantém nessa faculdade?”, “como Fulana conseguiu o cargo de diretoria?”, “por que Ciclana está sempre sorrindo para todo mundo e se abrindo?”, “como o namorado dela deixa-a sair com esse shortinho?” até “já teve um filho sem pai e agora vai ter outro?”… e por aí vai.

É fácil julgar a outra quando você não está na pele dela. É confortante. Dá uma sensação de superioridade, não é? Do tipo “você errou, mulher; você não faz parte do nosso seleto grupo de intelectuais”. Precisamos parar com isso! Por favor!

Todas as mulheres, pelo fato de serem mulheres, são feministas. Acredite. Mesmo a que parece mais machista, revela alguma ideia feminista (afinal, se fosse o contrário, ela estaria dentro de casa, sem trabalhar, votar ou falar em público). E é por aí que nos identificamos como grupo, como irmandade. Excluir parte das mulheres do nosso discurso e tachá-las de intolerantes, ignorantes, ou machistas só vai deturpar nossa imagem com a falsa impressão de que somos inimigas.

É difícil? É. Requer paciência? Muita! Mas temos que integrá-las, mostrar-lhes o nosso poder, a nossa força. Sororidade não é só escrever coisas bonitinhas ou raivosas e se pagar de ativista. Sororidade é aceitação, perdão, amor incondicional. É amar ser mulher, e amar outras mulheres pelo simples fato de serem mulheres. Eu, tu, elas. Mãos dadas. Para sempre.

* a autora pediu anonimato.

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