Meu primeiro sutiã

Eu tinha 10 ou 11 anos de idade; estava contente com mais uma manhã de sábado entupida de leite com Nescau e pão com Mumu. Gostava de assistir ao Mais Você, aquele programa da Ana Maria Braga, da época que ela passava por de baixo da mesa e apertava uma infinidade de imãs barulhentos. Minha mãe entra na sala e fala “filha, comprei algo para ti”. Logo achei que fosse algum CD pirata de Play Station 1 ou qualquer outro brinquedo maneiro.

Quando abri a sacola, vi que não tinha nada de maneiro na compra. “O que é isso?”, eu perguntei. “Um sutiã”, ela respondeu. “Suti-quê?”, eu disse. “Sutiã! É pra segurar teus seios, vai ajudar contra a gravidade”, ela disse em um tom de A Conversa Termina Por Aqui. Aquilo estava um tanto quanto confuso pra mim. Eu mal conseguia pronunciar a palavra direito e tinha que lidar com a ideia estranha de que algo tinha que segurar meus seios. “E o que a gravidade tem a ver com isso?”, eu tampouco entendia.

Era rosa, da Barbie e com rendinha infantil. Não tinha bojo; era apenas um pedaço de pano desconfortável – devido à estampa – que não fazia o menor sentido de uso. “Por que eu devo usar isso? Incomoda. E eu nem tenho seios ainda”, eu pensava, tentando achar uma forma de colocar aquilo sem me enroscar. Uma parte de mim achou legal a ideia. Estava me sentindo um pouco mulher, com toda a responsabilidade que um sutiã  pode trazer. Enquanto usava aquele pedaço de pano medonho, imaginava-me uma mulher importante, passando um cartão de crédito velho da minha mãe no telefone da sala.

Ter seios é uma responsabilidade enorme para uma mulher, se você parar para pensar que deve escondê-los sob qualquer circunstância

Ter seios é uma responsabilidade enorme para uma mulher, se você parar para pensar que deve escondê-los sob qualquer circunstância – mesmo na hora de amamentar seu bebê, pois é algo degradante para uma mulher (sarcasmo). Você não pode mostrar na praia e muito menos em casa; deve procurar por um sutiã resistente que aguente uma bela corrida em câmera lenta. E lembre-se, jamais deixe o sutiã aparecer para fora da blusa, só pelo fato de que “é feio, amiga”. É tanta responsabilidade, que eu nem sei como devo me direcionar a eles. Seios? Tetas? Peitos? Todas as palavras parecem meio estranhas depois que já saíram da minha boca.

Certo dia, estava me preparando para ir à escola. Eu estava usando meu projeto de sutiã, quando aquilo realmente encheu o meu saco. De última hora, resolvi tirar e ir para a escola assim mesmo. Estava um pouco frio, portanto ninguém notaria se eu estaria ou não vestindo aquela peça de roupa inútil com um casaco por cima. Eu gostava muito de fazer atividades extracurriculares; fazia aulas de dança no colégio. E por ser uma criança bem E.T., havia esquecido de que naquele dia teríamos uma apresentação no recreio.

Quando olhei para meus seios, ou tetas, peitinhos, enfim, eles haviam crescido, e eu não havia notado.

Como você deve imaginar, eu tive que tirar aquele casaco devido aos movimentos da dança e ao calor. Lembro-me como se fosse ontem: todos os alunos do turno da manhã estavam no ginásio para ver nossa apresentação; para nos ver dançar; para me ver dançar; para ver que eu não estava vestindo uma peça vital do meu roupeiro: meu sutiã. Quando olhei para meus seios, ou tetas, peitinhos, enfim, eles haviam crescido, e eu não havia notado. Foram 15 minutos de constrangimento e daquela sensação Todo Mundo Está Olhando Para Mim – e realmente estavam.

Até hoje não consigo entender o porquê de todo esse trauma. Tenho certeza de que ninguém estava dando bola para uma criança de tetas disformes dançando Man! I Feel Like A Woman. Bom, mas isso não importa; o que importa é esse sutiã tinhoso que vou tirar quando chegar em casa. E mamãe tinha razão: a gravidade não ajuda.

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Amanda Moresco é cantora de chuveiro, apreciadora da arte de portas de banheiro e goleira de Handball quando posso. Ama comida mexicana, witbier, cabelos coloridos e Marianas Trench. Fala que gosto de Inverno, mas quando chega quer Verão.

leia mais textos de Amanda no blog dela.

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