A ex namorada louca do cara legal

por Franciellen Carneiro

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Reprodução

Eu sempre achei estranho como, quando era mais nova, conversava com alguns caras que afirmavam que suas ex eram loucas — porque reclamaram de algo, porque quiseram ou negaram algo, porque não concordavam com algo. Todos aqueles caras, tão gente boa, tão atenciosos. E suas ex, as loucas.

Infelizmente, por um bom tempo, eu não só acreditei nessa ladainha quanto tinha medo de me tornar uma delas, mas nunca tive o interesse (ou a coragem?) de olhar o que existia entre as tais crises de histerias.

As histórias eram quase as mesmas: caras super legais, que faziam tudo que podiam, tão esforçados e corretos. E elas? Surtavam a qualquer mensagem, a qualquer outra presença feminina, “não sei o motivo, não entendo… eu sou tão bom que ela deveria agradecer…”.
Sempre terminavam com “a louca”, sempre faziam questão de dizer aos quatro cantos o quão defeituosas elas eram, as insistentes, as perseguidoras. E aí, logo depois, estavam de volta. “Ela não aguenta”, bradam. “Ela não aguenta ficar sem mim”.

Eu pensei que estava livre desse tipo de comportamento desde que saí do Ensino Médio — no máximo -, mas me enganei.

As histórias eram quase as mesmas: caras super legais, que faziam tudo que podiam, tão esforçados e corretos. E elas? Surtavam a qualquer mensagem, a qualquer outra presença feminina, “não sei o motivo, não entendo… eu sou tão bom que ela deveria agradecer…”.

Sinto um desconforto imenso quando conheci, há pouco tempo, uma menina que dá tudo de si por um cara que claramente só está ali pelos jogos emocionais. Não existe motivo algum para culpar alguém que foi educada para agradar, para servir sempre, para se entregar totalmente a um cara que, de tão prepotente, acha que pode brincar com a vida de alguém: indo e voltando quando bem entende, nem sequer por saber que é aceito, mas porque se sente dono daquele lugar.

Homens que roubam o espaço (e a saúde) emocional de suas parceiras é que mereciam uma análise das boas. O cara que desdenha, que não se importa em ser rude, que é incrivelmente machista e que acha que tudo o que uma garota quer é servi-lo, esses são os loucos. Mimados. Arrogantes. Perigosos.

Existe um número gigante de definições para essas atitudes, como gaslighting (a manipulação psicológica que faz com que alguém tente anular tudo o que você sente e tudo o que te incomoda com um “você é louca!”), mas talvez tanta técnica nem caiba aqui.

O cara é o louco! Louquinho!

Quando alguém acha que pode ir e vir, quando alguém não respeita seus sentimentos e não faz o mínimo esforço para transmitir o mínimo de segurança que um relacionamento pede: fuja. Quando o cara, ao invés de ajuda-la, só auxilia a minar sua autoestima, fuja! Corra para as colinas. Quando o cara não dá a mesma validade para o relacionamento que você, quando ele simplesmente não se importa: fuja!

Uma coisa é sabermos que temos N pontos a melhorar — como eu sei, inclusive sobre insegurança. Outra coisa é quando prendem com amarras tão fortes a ideias tão corrosivas sobre nós mesmas que acabamos doentes: pelo outro e por nós.

Se a sensação de estar doente, com alguma espécie de gripe que nunca termina, já aconteceu no mínimo uma vez – ou se acontece com alguma frequência: fuja. Corra o suficiente para sentir que ganhou asas. O suficiente para se libertar.

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Franciellen Carneiro tem 23 anos e mora em Jacareí/SP. É jornalista, escritora e feminista. Acredita que viajar espanta os monstros interiores e quer viver das próprias palavras.

* Texto originalmente publicado no site Meu Palanque. Você pode ler mais textos da autora no Medium dela, aqui.

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