Minha gravidez ectópica e a verdade sobre a pílula do dia seguinte

Sim, amigues, vamos falar de pílula do dia seguinte. Algo que ninguém conta: Pode acabar com a sua vida de várias maneiras.

por Gigi

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Hey Paul Studios | Visual hunt

Sempre que vejo uma amiga minha dizendo que tomou uma pílula do dia seguinte, fico até arrepiada, e vou tentar explicar ligeiramente o por quê:

Quem me conhece sabe que eu nunca fui aquela pessoa que faz tudo certinho e opta sempre pelo estável. Não! No rio da vida, eu não fui lá molhar os pezinhos – eu mergulhei. Eu gosto de correr riscos e essa é uma característica minha; sem ela, eu seria outra pessoa. Sem ela, a vida que eu tive, eu não teria tido. Esta característica minha me fez conhecer o melhor e o pior da vida que vivi. E tudo bem.

O problema não é correr riscos, mas saber os riscos que você está correndo. E nós, mulheres, por causa dos interesses corporativos de companhias farmacêuticas, raramente chegamos a saber os riscos que estamos correndo com certas coisas – coisas que já são tão usuais quanto a pílula anticoncepcional e a pílula do dia seguinte.

A anticoncepcional eu já não tomo há milênios, quando descobri que meu inchaço e mau humor vinham daquelas doses diárias de hormônios que não me deixavam ser quem eu realmente sou. Em nós, mulheres, hormônio é tudo. Já pararam pra pensar que consumir diariamente qualquer dose que seja de hormônio tem um grande impacto no seu corpo e na sua mente? Pois pensem. E tô falando porque experiência em químicos eu tenho.

Gratidão pelas feministas que foram lá queimar sutiãs, tá tudo certinho. Mas seria a pílula a melhor opção anticoncepcional para a mulher? Seria a pílula uma invenção de mulher pra mulher, Marisa? Ou é mais uma ideia de liberdade sexual às custas de consequências que afetam SOMENTE a mulher? Pensem nisso quando tiverem um tempinho. Eu já pensei: não tomo!

Sexo sem camisinha é melhor? Nossa, mil vezes! Mas se há um método como a camisinha que não afeta o corpo e a mente de nenhuma das partes, por que não optar por ela? Porque na hora do vamo ver, as coisas são diferentes. Por isso, quando um homem se recusar a usar, e vocês não quiserem filhos e nem graves consequências, tentem pensar mais em si mesmas.

Meu breve relato

No meio de 2015, me despedindo da Irlanda pra vir embora pro Brasil, decidi curtir meus últimos dias de bouas. E se tem uma coisa que eu gosto nesse mundo, essa coisa se chama liberdade, inclusive a sexual. Transei, sim, sem culpa, com quantos quis. Todos com camisinha, exceto por um.

Eu não queria transar sem proteção. Mas, né… o cara queria, e sem proteção foi. No dia seguinte, obviamente, eu tomaria a pílula do dia seguinte. O menino, paranóico, já estava surtado de manhã, achando que eu não tomaria – depois, vim a saber que uma conversa que ele teve com outra menina sobre filhos o tinha deixado desconfiado (Ué, e por que não quis usar camisinha?).

Enfim… tomei a pílula. Mas conheço meu corpo: naquele mesmo dia, senti que algo estava diferente dentro de mim. Mas só viria a saber mesmo o que era umas duas semanas depois. Faltando 5 dias pro meu voo de volta pro Brasil, fiz um teste e quase não conseguia segurar ao ver o resultado: A pílula não tinha funcionado.

E se fosse só o fato de ela não ter funcionado e eu ter engravidado, tudo bem. O drama maior viria depois.

Tudo o que você não quer quando toma uma pílula do dia seguinte é engravidar, isso é óbvio. Mas também, eu, pessoalmente, não ia querer abortar. Minha mente teve que ir de “Uhul ,sou solteira e livre apesar de pobre e sem emprego” para “Certo. Tenho que resolver minha vida completamente AGORA”, em apenas algumas horas. Gente, a gente passa a vida fazendo essa transição, e eu tive que fazer em 2 minutos. Não sei de onde tirei forças.

Fui apenas avisar ao pai da criança qual era a situação, e que ele não precisava fazer nada etc. Eu teria a criança sozinha etc e tal. Veja bem: Eu tinha pouquíssimos dias pra resolver tudo isso, corria contra o tempo, mal conseguia pensar, mil coisas acontecendo ao mesmo tempo. Que situação, meus amigos!

O menino, afff, não vou nem dizer que surtou. E de repente, me vi sendo questionada por seus amigos sobre minha idoneidade, e sobre a dúvida se aquele filho era dele. Oi?????
Eu olhava aquilo e pensava: Como foi que eu vim parar nisso? Era o CSI Investigação Criminal da gravidez de one night standDe repente, todas as neuroses e medo de estrangeiros tinham brotado naquele grupo, e eu era agora um forasteiro do Velho Oeste que tinha deflorado uma donzela.

Depois de muitos convites para aborto com tudo pago negados por mim, e a declaração via porta-voz de que o cara não se responsabilizaria por nada (algo com que eu já estava ok desde o começo), resolvi que eu não tinha que passar por aquilo e provar idoneidade pra ninguém: eu poderia ter transado com 375 homens, o filho ainda era dele. Tchau, galhere, cês que se resolva aê, tenho muita coisa pra me preocupar agora. 

Aliás, gratidão aos meus amigos e família. Mas a dor de quem está numa situação destas só pode ser realmente dividida com a outra parte que gerou o filho. Então, aquela dor era só minha. E vendo o quanto o cara era emocionalmente frágil, ainda tentei ser forte por ele também.

Mas a história não termina aí… Ela fica ainda mais Stranger Things

Vim embora para o Brasil, praticamente louca, sem saber o que fazer da vida. Estudava sem parar porque tinha agora que arranjar um emprego muito bom. Eu, que nunca realmente quis ser mãe, agora me preocupava com todo o futuro de uma criança que decidi ter. Eu tinha que ser forte.

Mas já na primeira semana no Brasil, comecei a perceber em meu corpo que algo não ia bem. Eu tenho uma conexão muito forte com meu corpo e uma intuição muito aguçada. Todos os dias, inconscientemente, muita adrenalina começava a tomar conta do meu corpo e eu comecei a ter certeza de que eu ia morrer.

Cada dia que passava eu sentia que estava mais perto da morte. Minha mãe achava que era noia, mas eu não conseguia sentir que uma vida nova estava chegando, mas que a minha estava indo embora. Uma certeza irracional que eu não sabia explicar até o dia em que se confirmou a situação. Eu, sem entender o que acontecia comigo, comecei a pensar que ia morrer no parto. Nunca tinha tido tanta consciência e certeza da morte.

Já estava me habituando a ideia de ser mãe. Roupinhas, projetos, essas coisas todas. Mas quando pensava na criança em si, vinha uma adrenalina muito forte e, de novo, a certeza da morte surgia dentro de mim. Eu não conseguia nem me visualizar com a criança, nem ao menos visualizar seu rosto.

No dia da primeira ultrassom, enquanto ouvíamos os batimentos cardíacos do bebe e minha irma e mãe choravam de emoção, veio a notícia: a médica olhou com aquela cara estranha, e eu senti ali que tinha um problema. Ela desligou o som dos batimentos cardíacos e disse: “está fora do útero”. E eu: “como põe pra dentro?”. Ela ficou sem graça de me dizer diretamente, dava pra ver no rosto dela: “você vai tomar um remedinho ou fazer uma cirurgia”. Ela não teve coragem de dizer. E eu entendi que o remedinho ou a cirurgia era pra por pra dentro do útero. Mas não: era pra tirar. Ou até tirar perdendo trompa e tudo mais.

O que????

Gravidez nas trompas

Gravidez ectópica: isto quer dizer que o óvulo foi fecundado bonitinho, mas, no meio tempo de ação da pílula do dia seguinte, ele ficou ali, fecundado, sem descer das trompas para o útero – pois no momento em que ia descer, a pílula fez efeito, impedindo a descida para o lugar certo, mas não a fecundação.

Que beleza, hein, galhere! DEVIA ESTAR ESCRITO ATRÁS DE CADA CAIXA DE PÍLULA, ASSIM COMO FAZEM COM O CIGARRO: VOCÊ PODE MORRER!

A trompa é menor que a espessura de um dedo mindinho, e não tem capacidade elástica para um evento deste porte: um bebê crescendo dentro dela. À medida que o feto cresce, uma bomba-relógio aumenta o passo em seu corpo, pois quando a trompa estourar, será uma hemorragia interna sem freios (a menos que você seja muito sortuda e chegue muito a tempo no hospital).

Muitas mulheres nem sabem que estão grávidas até esse sangramento chegar e ser devidamente confundido com uma menstruação super intensa – só que essa “menstruação” vai te levar à morte.

Como minha vida tinha saltado de “uhul solteira e livre” para “fudeu, vou ser mãe” para “socorro, vou perder filho e trompa”, assim, em questão de semanas? Podia ser pior: podia acabar em “socorro, estou morrendo, adeus”. Só agora, escrevendo, vejo como foi tudo tão intenso; na hora a gente fica meio que anestesiada.

Daquela consulta para ouvir os batimentos cardíacos, eu nem pude voltar pra casa. Estava correndo risco de vida e não sabia. Eu ainda quis ir pra casa, pensei “volto amanhã, prometo, mas me deixa pensar, gente”. Mas o hospital proibiu e, então, eu soube pela boca da médica que eu já poderia estar morta há um tempinho – e tudo fez sentido. Aquela dor e os pequenos sangramentos que eu sentia de vez em quando, tudo agora estava claro.

O procedimento

Foi tão de emergência que me colocaram na frente de outras cirurgias de emergência. E olha, o SUS tá de parabéns. Pra resumir: agora minha vida tinha dado outro plot twist, e eu ali, acordada da cirurgia, apenas sentia as piores dores desse mundo – físicas e emocionais -, mais o luto da perda de tantas coisas (tantas que eu não conseguiria nem enumerar).

Foi devastador pra minha família, que já amava aquele que seria o primeiro neto, mas pra mim foi milhões de vezes mais devastador: eu é tinha sentido o poder da vida e da morte tão de perto, tão rápido, tão intensamente.

E o processo de cura dessas dores também não foi fácil. Todos pensam que vai ser rápido e let it go. Mas são vários estágios e, pra mim, um deles foi ficar traumatizada a respeito de homens. Meu corpo ficou traumatizado, era irracional. Uma vez, fui a um banheiro de um bar, e lá tinham várias fotos de homem sem camisa, e meu coração batia rápido, com medo, como se o homem fosse uma ameaça de morte. Eu nunca tinha vivido essa experiência do medo de homem antes.

Hoje estou curada, passou, tá tudo bem, e agora tive forcas pra falar no assunto. Mas quantas amigas vão passar por isso – e outras coisas piores – até que a verdade sobre pílula do dia seguinte seja espalhada? Algumas coisas a gente só sabe porque ouve de uma, ouve de outra. E essas são as coisas que deviam ser ditas para todas.

No meu caso, #gratidão à vida e pela vida. Adiei a morte, pois precisava escrever esse post antes. Se cuidem, meninas, pensem mais em vocês mesmas, e em primeiro lugar. O homem que use camisinha. E se não quiser, ele que vá bater uma punheta.

Espalhem entre as amigue de voces. Vamo cuidar umas das outras, porque, como diria o Michael, “they don’t care about us”, e como diria o Julian Casablancas: “That was a cautionary tale, boombox is not a toy”.

Todo meu amor pra voces.

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Gigi pode ser seguida no Twitter: @GGprinceharry

* Originalmente publicado aqui.

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3 comentários

  1. Oi, NO DIA 04/05/017 PASSEI POR TUDO ISSO . TAMBÉM FIZ USO DA PILULA DO DIA SEGUINTE, POR ISSO COMECEI A PESQUISAR A RELAÇÃO DELA COM A GRAVIDEZ ECTÓPICA. PQ DEPOIS Q A GENTE PASSA POR ISSO QUEREMOS ENTENDER O PORQUE…OS MÉDICOS NÃO ME DISSERAM NADA , A NÃO SER QUE TEM VÁRIAS COISAS QUE PODEM CAUSAR E AGORA ESTOU FAZENDOEXAMES MAIS NADA TIRA E MINHA CABEÇA Q PODE TER SIDO SIM ESSE BENDITO REMÉDIO, QUE SE EU TIVESSE A INFORMAÇÃO DO QUE PODERIA ME CAUSAR EU NÃO TERIA TOMADO…
    COMO E QND TE DERAM A CERTEZA DE QUE FOI O REMÉDIO QUE CAUSOU A SUA ECTÓPICA? TE FALARAM SE A SUA OUTRA TROMPA ESTARIA BOA PRA ENGRAVIDAR ?
    ABRAÇO;

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  2. Também passei por isso, tomei a pílula do dia seguinte e tive uma gravidez ectopica ,tenho três filhos a minha Caçula já tem 10 anos ,quando me deparei novamente que estava grávida, no começo foi um choque mas depois estávamos acostumando com a ideia de um novo filho , o quarto. De repente depois de alguns dias começou uma dor muito forte diferente de cólica ,e um medo de morrer , fui ao hospital fiz ultrassom e depois de escutar o coração do bebê o médico disse que era uma gravidez ectópica, eu e meu marido mesmo não querendo mais filhos ficamos chocados com a notícia de ter que tirar um filho, depois de escutar o coração do bebê, choramos muito e até hj nos deparamos pensando e chorando sobre o que ocorreu. Isso deveria por lei,
    ser mais divulgado, deveria conter nas bulas, com certeza não teria tomado.

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  3. Também passei por isso, tomei a pílula do dia seguinte e tive uma gravidez ectopica ,tenho três filhos a minha Caçula já tem 10 anos ,quando me deparei novamente que estava grávida, no começo foi um choque mas depois estávamos acostumando com a ideia de um novo filho , o quarto. De repente depois de alguns dias começou uma dor muito forte diferente de cólica ,e um medo de morrer , fui ao hospital fiz ultrassom e depois de escutar o coração do bebê o médico disse que era uma gravidez ectópica, eu e meu marido mesmo não querendo mais filhos ficamos chocados com a notícia de ter que tirar um filho, depois de escutar o coração do bebê, choramos muito e até hj nos deparamos pensando e chorando sobre o que ocorreu. Isso deveria por lei,
    ser mais divulgado, deveria conter nas bulas, com certeza não teria tomado.

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