Fale para a sua amiga não fazer a dieta do leite

por Larissa Moreira 

Se você entrar no Google e digitar “dieta do leite”, você vai se deparar com um cardápio de 8 dias que promete te fazer perder 8 kg nesse meio tempo. Maravilhoso, parece até mágica. O único porém é que no primeiro dia, além de água, só podem entrar no seu estômago 6 copos de leite.

Eu vou repetir caso não tenha ficado claro: seis copos de leite. No dia seguinte são 4 e mais duas frutas. E ai depois dois copos de leite, duas frutas e queijo à vontade. E continua assim por oito dias, cada dia mais claramente faminto do que o outro, com a promessa de que no final você esteja magra, linda, pronta para tudo na vida. Você só precisa passar fome por 8 dias, porque, afinal, quem não quer o milagre de perder 8 quilos em um período de tempo tão curto?

Por se sentir desconfortável com o corpo. Por pressão da sociedade, dos pais, de si, de todo mundo. Por bullying. Você pode escolher. A lista de respostas é tão longa quanto a de menus bizarros.

No geral, os nutricionista recomendam ingerir duas mil calorias diariamente. Um copo de leite tem cerca de 80 calorias. No primeiro dia dessa “dieta”, o consumo seria menos do que ¼ do recomendado. 480 calorias. Parece absurdo. E é. Mesmo assim, essa dieta está a um clique de qualquer desesperada que já tentou de tudo e não conseguiu fazer o número da balança diminuir. Eu fiz essa dieta quando tinha 17 anos.

Nem do ensino médio eu tinha saído ainda e tava ali enchendo garrafinhas de leite para beber no colégio. No terceiro dia, me entupi de queijo e passei mal. No quarto, desisti. Fui muito repreendida por colegas, por amigos, até pela professora de matemática que demonstrou uma preocupação genuína. Mas é claro que eu não escutei ninguém, porque para mim aquilo era temporário. Eu ia passar por aqueles 8 dias, conseguir o número que eu queria na balança e depois ia ficar tudo bem.

Essa dieta do leite é só um exemplo. Tem também a dieta da maçã, a dieta da USP, a dieta detox. E a lista é longa. Tipo, realmente longa. Tão longa que eu poderia gastar meia hora do seu dia te fazendo ler uma lista com 300 dietas malucas e que não vão fazer mais por você do que acabar com a sua saúde. Você terminaria a lista pensando “meu deus, como é que tem gente que passa por isso? Como é que tem gente que acha que é normal fazer uma dieta em que você só come maçã quando estiver fome? Como tem gente que aguenta passar mais de uma semana quase só no leite? Como?”.

Mas essa é provavelmente a pergunta errada. Porque as respostas são óbvias. Por se sentir desconfortável com o corpo. Por pressão da sociedade, dos pais, de si, de todo mundo. Por bullying. Você pode escolher. A lista de respostas é tão longa quanto a de menus bizarros.

A pergunta certa é: por que estas dietas estão expostas em sites comuns da internet, até em sites de credibilidade e ninguém fala nada? Quer dizer, fala. Mas ainda não o suficiente para impedir meninas de 12, 14, 16 anos (ou mais, porque isso não acaba nunca) de encontrarem essas dietas, acharem que é ok fazê-las porque é “só por um tempinho” e ficarem com a saúde debilitada, paranoicas, o que mais vier de consequência com essa situação.

Eu sei, eu sei: o buraco é bem mais embaixo, a internet é um monstro e tirar as coisas dali é praticamente impossível. Mas, respondendo à pergunta que eu fiz ali em cima, é porque a gente – e quando eu digo “a gente” eu quero dizer tanto as pessoas que criam essas dietas malucas quanto as que disponibilizam e as que fazem – é por causa da importância que a gente dá para isso. O importante é você pesar 50kgs. É parecer com a moça da revista. É usar P.

A pergunta certa é: por que estas dietas estão expostas em sites comuns da internet, até em sites de credibilidade e ninguém fala nada?

O foco não é – e nunca foi – saber quantos nutrientes você está ingerindo. Mas sim as calorias, os carboidratos. Essas dietas – e as pessoas que as incentivam – não ligam para a sua saúde. Não querem saber se você vai passar mal. Se vai desmaiar. Se vai parar no hospital tomando soro porque passou 15 dias comendo maçã quando sentia que estava ficando tonta.

Elas ligam para o tamanho do seu jeans. Para o número na sua balança. Para a contagem final do aplicativo de calorias que você baixou e perde boa parte do seu dia atualizando para que o número de calorias seja menor que a meta absurda. Teve gente que me incentivou a fazer a dieta do leite.

Teve, também, gente que pediu para que eu parasse porque era loucura e porque aquilo só ia me fazer mal. Se eu não tivesse ninguém ali que me dissesse “não se machuque desse jeito que não vale a pena”, talvez eu tivesse me mantido nesse cardápio maluco até o final. Talvez eu tivesse feito essa dieta duas, três, quatro vezes.

Eu não posso tirar a dieta do leite de todas as páginas da internet. Não tem um botão da internet em que eu possa clicar para que mais nenhuma adolescente encontre a dieta da maçã. Mas eu posso ser a pessoa que chama atenção de quem incentiva esse tipo de comportamento. E também posso ser que nem as pessoas que me disseram para não continuar com aquilo. Eu não posso tirar a dieta do leite da internet. Mas eu posso lembrar as pessoas que elas não devem fazer a dieta do leite. Vai ver é um começo.

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Larissa Moreira tem 21 anos e quatro gatos. Não acredita em signo, mas adora dizer que é de áries. Tem aflição de usar calças e só quer terminar jornalismo para poder cursar letras e traduzir textos em alemão.
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