Homens não sabem sofrer – e nós com isso?

por Helô D’Angelo

Pedro não sabe o que quer da vida: já está na sexta faculdade e está pensando em pular para a sétima. Tiago não quer namorar; fica aflito demais ao lidar com problemas dos outros. Antônio não faz a menor questão de sair da casa da mãe, embora também não ajude em nenhuma tarefa de casa. Vitor não para em emprego nenhum – o defeito é sempre o trabalho, o chefe, os colegas, a empresa (mas nunca ele). Carlos se sente ameaçado pelo trabalho da esposa, e pede que ela fique em casa para cuidar dos filhos. André xinga feministas no Facebook quando perde discussões. Paulo não consegue se lembrar de nenhum compromisso sem a ajuda da noiva.

Parecem histórias completamente diferentes, mas são todas sobre a mesma coisa: homens, em geral, não sabem lidar com o sofrimento. E isso é um tiro no pé do machismo; um tiro que respinga sangue em nós, mulheres.

Sofrer é horrível, mas faz parte da vida. Aceitar isso faz a gente a entender como lidar com esse sofrimento, quando ele chega – e ele sempre chega. Quando olho para as mulheres que conheço, sei que elas, em geral, entendem isso muito bem: se elas ficam doentes, estudam a mais e tiram 10 na prova da faculdade. Se estão deprimidas, fazem terapia e tomam os remédios direitinho e seguem a vida. Se estão tristes, desabafam com as amigas. Se estão se sentindo presas no trabalho, buscam outro em que possam ousar mais. Se querem ter filhos, entendem que vai ser difícil, mas seguem em frente. Se estão endividadas, planejam. Elas fazem tudo isso porque abraçam a própria fragilidade e sabem que sofrer é inevitável. Elas sabem lidar com o sentir, com o frustrar-se, com o sofrer. Aos trancos e barrancos, elas seguem.

Homens, em geral, não sabem lidar com o sofrimento. E isso é um tiro no pé do machismo; um tiro que respinga sangue em nós, mulheres.

Isso acontece porque, desde muito pequenas, mulheres precisam ralar para sobreviver. E nem é questão de ser feminista: isso vem no pacote do que é “ser mulher”. Ouvimos, logo cedo, “você não vai conseguir”, “isso não é coisa de menina”, “senta que nem mocinha”; passamos, aos 9 anos de idade, pelo primeiro assédio sexual na rua; entendemos, com o primeiro sutiã, como curvar o corpo para esconder os seios que são constantemente apontados, tocados, observados. Somos obrigadas a usar salto alto, a ir trabalhar com cólica, a disfarçar o absorvente, a correr para o trabalho sob uma chuva de assédios, a sofrer abuso sexual até do médico. É normal que, com uma vida dessas, você se acostume a sofrer. Sofrimento é uma grande parte da sua vida: você aprende a ignorá-lo e a seguir caminhando.

Com os homens, porém, é o contrário. Sim, eles são frágeis também – afinal de contas, são seres humanos -, mas o problema é que não sabem lidar com isso. Nunca aprenderam, simplesmente porque é proibido um homem sofrer e se implicar com esse sentimento em uma sociedade patriarcal; é coisa de mulher. Desde pequenos, homens são criados como os reis que podem tudo, que têm cada desejo atendido, livres de sofrimentos. São os filhões, os garotões, os “que prometem”. São os príncipes da casa, os que podem praticar qualquer esporte, falar qualquer palavrão, sentar de qualquer jeito, em qualquer lugar da casa; sujar qualquer roupa, bagunçar o quarto, subir em qualquer árvore, assoviar para mulheres na rua; escapar das tarefas domésticas. Eles podem escolher qualquer profissão, de professor a astronauta, de engenheiro a jogador de futebol; eles são caracterizados como fortes, corajosos, capazes, inteligentes, potentes – porque tudo isso é”coisa de menino”.

Desde pequenos, homens são criados como os reis que podem tudo, que têm cada desejo atendido, como seres livres de sofrimentos.

Só que esse mundinho é insustentável. Quando crescem um pouco, os meninos começam a perceber que nem tudo pode se dobrar à sua vontade – e aí começa o impacto. Quando vão estudar, eles percebem a faculdade não é 100% deliciosa, como foram levados a crer que seria; percebem que os professores nem sempre passam a mão em suas cabecinhas. Notam que a vida adulta tem responsabilidades que o papai nunca deixou que eles tomassem antes. Quando vão trabalhar, percebem que o trampo é difícil e desafiador – e que eles não estavam preparados para isso. Quando passam a morar sozinhos,  se surpreendem ao ver que a casa não fica magicamente arrumada: afinal, antes era a mãe que limpava tudo. Quando recebem um “não” de uma garota, eles simplesmente não conseguem entender.

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Né não, lindão?

Essas descobertas são uma chuva de realidade e causam, como qualquer tapa na cara, sofrimento. Só que, de novo, os homens não podem sofrer, porque sofrer, em um mundo machista, é coisa de mulher – então, eles continuam vivendo a vida como se fossem os reizinhos que foram educados para ser. É lógico que isso não se encaixa à realidade, e a única resposta possível que eles podem dar a gente já sabe: ficam letárgicos, estagnados, não conseguem abraçar o sofrimento, não sabem o que fazer da vida, não topam desafios, só conseguem subir na vida se sentirem que alguém (geralmente uma mulher) está por baixo e ficam irados se têm o ego ferido. Eles não conseguem se mover, estão travados, deprimidos, cansados, ansiosos – e só dão um passo à frente se alguém der uma empurradinha atrás.

Homens são frágeis também, mas o problema é que eles não sabem lidar com isso. Nunca aprenderam, simplesmente porque é proibido um homem sofrer e se implicar com esse sentimento em uma sociedade patriarcal.

Isso não é de hoje, não. Não me venha com essa de geração millenial. Isso vem desde o início dos tempos patriarcais, especialmente depois do estabelecimento da noção burguesa de família, quando a mulher da casa (fosse a esposa ou a mãe) se via obrigada a mascarar a fragilidade do marido ou do filho, fazendo o mundo achar que aquela era a sua fragilidade, inerentemente feminina. Ela também servia de “a grande mulher atrás do grande homem”, empurrando o marido e levando-o nas costas, enquanto ele aparecia como “O Provedor Que Não Tem Fraquezas”.

Há até pouco tempo, essa hipocrisia funcionava, e relegava a fragilidade masculina ao secreto: ela aparecia mais frequentemente na forma de suicídios, vícios, violência doméstica, traição e doenças psicológicas. Pegue, por exemplo, o tanto de maridos que suicidaram ao perder tudo na crise de 1929: será que, se as acionistas da Bolsa fossem mulheres, haveria tantas mortes? Eu imagino que não: mulher dá um jeito. Para dar uma ideia, são as esposas das regiões mais pobres do nordeste brasileiro que recebem o Bolsa Família, juntam um dinheirinho e abrem um pequeno negócio de família – enquanto os maridos enchem a cara no desespero de desemprego.

Com o avanço dos questionamentos feministas, porém, os homens estão conseguindo, de algum jeito, demonstrar essa fragilidade – ainda que mal, na forma de letargia, de preguiça, de problemas psicológicos ou então de um ego de ouro – e quebradiço. Ainda há, evidentemente, um longo caminho para eles.

Uma legião de homens frágeis, letárgicos, estagnados, que não conseguem abraçar o sofrimento, que não sabem o que fazer da vida, que não topam desafios, que só conseguem subir na vida se sentirem que alguém (geralmente uma mulher) está por baixo

Apesar de ser gostosinho pensar que as mulheres são mais emocionalmente fortes do que os homens, essa situação toda é uma armadilha para nós. Afinal, os sentimentos dos homens merecem ter uma atenção e um espaço, mas, ao mesmo tempo, as mulheres também têm fragilidades, também sofrem, também precisam dos dias de cuidado e atenção – do contrário, entende-se que nós podemos aguentar tudo. E não podemos.

Homem, sua mãe precisa de ajuda para lavar a roupa. Sua namorada não pode ficar te lembrando dos seus compromissos para sempre. Sua amiga merece parabéns – e não inveja – quando consegue um bom emprego. Sua avó merece paciência. Não somos a mulher por trás de um grande homem, nem a Mulher Forte com M maiúsculo, como todo mundo gosta de pensar – somos apenas humanas. E como humanas, merecemos respeito.

Helô D'Angelo
Helô D’Angelo tem 22 anos na cara e nenhuma ideia do que quer fazer da vida quando terminar a faculdade de jornalismo (que ela acabou de terminar).
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