Violência obstétrica: “Briguei pelo meu filho enquanto era costurada e chamada de ignorante”

por Isabel Rocha

Às 2h 55min do dia sete de abril de 2014, exatamente seis anos após escutar o coração de sua primeira filha, ainda na barriga, bater pela última vez, a dona de casa formada em design de moda Pamela Wagnitz entrava no Hospital Carmela Dutra, em Florianópolis, para dar à luz. Depois de perder as duas primeiras gestações, ler e pesquisar sobre maternidade, ela estava decidida: dessa vez, teria um parto natural humanizado.

Após algumas tentativas frustradas de contratar uma equipe para ter seu filho em casa, Pamela não se deu por vencida e procurou por um hospital que permitisse, pelo menos, a realização do parto o mais humanizado possível, optando pelo Hospital Universitário Professor Polydoro Ernani, também na capital catarinense. Além disso, a designer fez questão de ser acompanhada por uma doula, profissional responsável por acompanhar o parto humanizado. “Eu estava super empoderada e acreditava mesmo que conseguiria”- afirma.

Na manhã do dia sete de abril, percebendo o rompimento da bolsa, Pamela avisou Laura, sua doula, e dirigiu-se ao HU. Para sua surpresa, o local estava lotado e, já em trabalho de parto, ela acabou tendo de ser transferida para outro hospital. “Naquele momento eu sabia que tinha perdido meu parto, sabia da luta que seria lá no [Hospital] Carmela Dutra e o quão seria difícil conseguir vencer.” – lembra.

Foi a partir deste momento que, apesar do desejo de ter um parto natural, a designer passou a fazer parte dos mais de 50% de mulheres submetidas à cirurgia cesariana no país (número que representa mais do que o triplo do número recomendado pela Organização Mundial da Saúde, que sugere que o índice não ultrapasse 15%). Como se não bastasse, neste dia Pamela também entrou para a triste estatística que indica que uma em cada quatro brasileiras sofre violência obstétrica durante o parto.

Definida em dezembro de 1993, durante Assembleia Geral das Nações Unidas, como “(…) Qualquer ato de violência de gênero do qual resulte, ou possa resultar, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico para as mulheres” e naturalizada ao longo dos anos, a violência contra a mulher é resultado da crença na superioridade de um gênero sobre o outro e, mais do que isso, na noção de que o corpo feminino é um bem público, sendo preferível deixar nas mãos de qualquer um (marido, namorado, pai, médico…), que não nas da própria mulher, as decisões referentes a ele. Engana-se, porém, quem acredita que esse tipo de agressão se manifesta apenas no âmbito sexual. Violentadas doméstica, econômica, psicológica e fisicamente, mulheres são submetidas também a um tipo de violência ainda mais silenciosa: a obstétrica.

Mais de 50% das brasileiras são submetidas à cirurgia cesariana no país, embora a Organização Mundial da Saúde recomenda que o índice não ultrapasse os 15%.

Invisível e pouco debatida inclusive entre mulheres, a patologização do parto se prolifera nos hospitais e maternidades de todo o país, reforçando a crença popular de que o parto é, por natureza, um momento de dor e sofrimento. Blindados pelo escudo do status e pela posição de suposta superioridade em termos de conhecimento em relação à gestante, muitos profissionais da saúde acabam transformando este, que deveria ser um momento de felicidade e tranquilidade plenas, em uma verdadeira história de terror.

Colocando em xeque o protagonismo da partiunte (afinal, quem “faz o parto” é o médico), eles programam cesáreas a seu bel prazer (conforme for mais conveniente para suas agendas); interferem no processo natural de dilatação (por meio da aplicação de ocitocina sintética) e de rompimento da bolsa; impedem a presença do acompanhante; privam a gestante de alimento e água durante o TP; forçam posições e exames desconfortáveis; mutilam, humilham, e silenciam mulheres – trazendo à tona a misoginia velada da sociedade e deixando cicatrizes físicas e psicológicas para toda a vida. Foi exatamente isso que aconteceu com Pamela.

Quando chegou ao Carmela, a designer já estava com 6 cm de dilatação. Ela conta que tentou ficar no banho o máximo de tempo possível, mas que o médico logo pediu para que ela saísse e se deitasse para fazer a cardiotocografia, que deveria durar cerca de 20 minutos. “Foi aí que começou a maior parte da violência. Me obrigaram a deitar e fui deixada lá por mais de uma hora, o que fez com que os batimentos cardíacos do bebê diminuíssem. Lembro que olhava pra Laura como quem pedisse socorro e ela me deu muita força, até ‘contrabandeou’ água para mim, pois não me deixavam beber ou comer nada.”

Pamela conta, ainda, que após mais 10h de trabalho de parto, a médica finalmente sentou na sua frente para conversar. “‘Você já perdeu duas [bebês], né?’ eu acenei que sim com a cabeça e ela continuou ‘se você não for pra cesárea agora esse aí também vai morrer, mas a decisão é sua. Só decide rápido, porque não temos muito tempo.’ Nesse momento eu esqueci tudo que eu havia lido e me empoderado. Lembrei da Ananda [a primeira filha, que nasceu morta] e do quanto eu queria o Alberto comigo” – conta.

Após passar pela cirurgia, Pamela foi impedida de pegar o bebê no colo, pois, segundo os enfermeiros, ele deveria passar colírio e tomar banho primeiro, procedimentos que ela já havia negado anteriormente. “Aquele bebê que tanto esperei nos meus braços estava longe de mim. Tive que brigar pelo meu filho enquanto era costurada e a médica me chamava de ignorante. Foi o pior sentimento da minha vida.” – lembra a designer. “Ainda tive que ouvi-la falar para o anestesista que meu útero não estava contraindo e que, se ele não desse um jeito, ela ‘tiraria tudo’. Achei que nunca mais veria meu filho.”

Campeão em cesárias e em violência
Atualmente, o Brasil é o país que mais realiza cesárias no mundo. Em 2011, data do último levantamento de dados a esse respeito disponível no site do SUS, o número total de cesarianas equivalia a 53,88% dos partos realizados no país. Os motivos alegados para a prática são diversos. Dentre os mais comuns, cordão umbilical enrolado no pescoço do bebê, pouca dilatação da mãe e realização de cesárea anterior. Para a doula Laura Muller Sagrilo, que acompanhou o parto de Pamela, todos eles são mitos utilizados para induzir cesarianas desnecessárias.

“Pouca dilatação não existe, o que existe é não esperar a mulher dilatar. Estipulam um tempo pra dilatação acontecer e não respeitam a fisiologia do parto”, diz ela. “Eu mesma precisei de 40h para dilatar tudo e então parir minha segunda filha. Se não estivesse munida de informações e com uma equipe informada e atualizada, teria sido operada sem necessidade, apenas por protocolo” – explica. Sobre o cordão umbilical, Laura afirma que dentro dele há uma substância gelatinosa que assegura a passagem sanguínea e garante que “o bebê pode se enrolar à vontade sem danos, inclusive com nós.”

Em um questionário online respondido por 150 mulheres para a realização desta reportagem, 88,2% das entrevistadas disse acreditar que o parto normal é o mais seguro tanto para a mãe quanto para o bebê, apesar de 71,4% delas ter afirmado que fizeram cesariana – sendo que em 61,5% dos casos o procedimento foi uma sugestão médica, e não uma escolha da mulher. O questionário revela, ainda, que em 28,6 % dos casos o médico não conversou com a gestante a respeito dos riscos e vantagens de cada tipo de parto durante o pré-natal. “A cesariana eletiva aumenta em 120 vezes o risco de o bebê ter problemas respiratórios ao nascer e em três vezes o risco de óbito materno. São dados que médicos não passam para gestantes no pré-natal, quando tentam induzir a cesariana sem necessidade”, enfatiza Laura.

“Pouca dilatação não existe, o que existe é não esperar a mulher dilatar. Estipulam um tempo pra dilatação acontecer e não respeitam a fisiologia do parto” – Laura Muller Sagrilo, doula

Em abril do ano passado, a OMS lançou uma declaração sobre as taxas de cesáreas e estabeleceu que elas “são efetivas em salvar vidas maternas e infantis, porém somente quando realizadas por indicações clínico-obstétricas”. Laura, que também é educadora perinatal, explica que algumas das razões para se realizar a cirurgia são frequentemente diagnosticadas precoce e erroneamente (como sofrimento fetal agudo, desproporção céfalo-pélvica e parada de progressão), e lista os casos em que a operação é, de fato, necessária:
•Prolapso de cordão com dilatação não completa;
• Descolamento prematuro de placenta com feto vivo fora do período expulsivo do parto;
•Placenta prévia ou centro-parcial;
• Bebê em apresentação transversa durante o parto ( ela explica que, nesse caso, também “é possível tentar a versão cefálica externa, uma manobra para posicionar o bebê dentro do útero”);
•Ruptura de vasa prévia;
•Herpes genital com lesões ativas no momento do trabalho de parto.

Das mulheres entrevistadas para a realização desta reportagem, 45,5% declarou ter recebido ocitocina sintética na veia sem consentimento, 20% foram imobilizadas ou obrigadas a permanecer em posição ginecológica desconfortável durante o trabalho de parto e 27,5% foram impedidas de entrar em contato com o bebê logo após o nascimento. Os outros 7% das respostas ficou dividido entre humilhações verbais, sucessivos exames de toque e negligência no atendimento.

88,2% das entrevistadas disse acreditar que o parto normal é o mais seguro tanto para a mãe quanto para o bebê, apesar de 71,4% delas ter afirmado que fizeram cesariana

Laura, que também é coordenadora do Grupo Gestar e criadora do Projeto Fênix para vítimas de violência obstétrica, decidiu tornar-se doula após passar, ela mesma, por uma experiência violenta durante o parto do seu primeiro filho. “Achei que querer era suficiente, que eu seria respeitada e que jamais iriam fazer algo que eu não precisasse, afinal estudaram anos pra isso, mas acabei em uma cesariana sem necessidade alguma.”

Durante a cirurgia, Laura relata que foi chamada de gorda pelos médicos e que teve seu corpo exposto a estudantes residentes de medicina que “entravam e saiam da sala a todo momento”, mesmo sem a sua autorização. “Essa experiência fez com que eu tivesse o desejo de fazer algo pra mudar isso, para ajudar outras mulheres.” – lembra.

Como alternativa a tudo isso, a doula ressalta a importância do parto humanizado e enfatiza que, apesar de todos os tipos de parto oferecerem riscos, “um parto onde a gestante tem maior liberdade de locomoção, pode se alimentar e ingerir líquidos, receber apoio continuo, ter sua intimidade e autonomia respeitadas e recursos de alivio da dor à disposição, tem maior sucesso no desfecho.” Parece óbvio, mas essa ainda é uma realidade a ser alcançada. Lutemos!

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Isabel Rocha tem 22 anos e sonha em viajar o mundo quando terminar a faculdade de jornalismo. Depois de um ano trabalhando no BandNews TV,deixou o hardnews e passou a escrever sobre destinos para um app de viagens. Geminiana, acredita em destino e no poder transformador das palavras
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