Eu tenho peitos (e ainda posso fazer o que eu quiser)

por Letícia Souto

Quando comecei a tocar guitarra, com 12 anos, uma questão incômoda era sempre presente: o que fazer com os meus peitos? Bem, todas as minhas referências de guitarristas naquela época eram homens, e eu observava com destreza seus movimentos no palco e a conexão deles com o instrumento.

Mas quando eu tentava repetir essas performances alguma coisa acontecia e eu travava, acabando por desistir da correia (correia é aquela faixa que segura o instrumento quando você toca em pé) e tocava sentada. E era horrível porque eu queria ficar de pé, eu queria fazer a minha própria performance com a guitarra… Mas eu tinha peitos.

Aliás, eu tenho peitos. Dos meus 12 pra cá eles não cresceram muito, mas o suficiente pra continuar me incomodando quando visto minha guitarra. Porque ainda existe aquele sentimento de subir no palco, pegar o instrumento e pensar “É mesmo, eu tenho peitos. Meu Deus, ninguém pode saber! Deixa eu colocar o esquerdo embaixo da correia pra disfarçar; vou me concentrar pra ficar com a minha postura ereta pra ficarem levantadinhos; não posso me esquecer de não pular muito pra não balançarem”.

Peitos em geral são o problema, né? Todo mundo ama mas não pode ver mulher amamentando. Todo mundo ama um pornozinho mas peito caído não dá! É. A mulher é o problema.

E aí a música fica em segundo, terceiro, quarto plano. Nem passa pela cabeça que eu posso estar com o batom meio borrado e a luz do palco esteja desfavorecendo meu penteado: o problema são os peitos.

Peitos em geral são o problema, né? Todo mundo ama mas não pode ver mulher amamentando. Todo mundo ama um pornozinho mas peito caído não dá! É. A mulher é o problema. E quando você é mulher e toca um instrumento, suas inseguranças com o corpo vêm todas à flor da pele quando você sobe no palco. ]

Porque música é um jogo corporal, mas num mundo machista desse, eu não posso tocar de shortinho agarrado estilo Axl Rose e pular no palco sem ser chamada de vadia. Eu queria tocar como Johnny Ramone. Agora, imagina Johnny Ramone com peitos? Aquela postura torta dele certamente ia fazer com que eles parassem no joelho, junto da guitarra. Mas, surpresa: eu tenho peitos!!! Fazer o quê?

Nesses poucos anos de palco aprendi que o mundo da música é muito machista e quando se é mulher a música é sempre o segundo plano.

E quando toco, um deles fica, sim, amassado por causa da correia. Quando a baterista toca os peitos dela pulam, mas nossa, que horror isso! (dê um pulinho em qualquer vídeo do White Stripes tocando ao vivo e veja os comentários nojentos a respeito dos peitos da Meg). Olha só, outra surpresa: peitos reais se mexem quando nos mexemos! Que mágico!

Nesses poucos anos de palco aprendi que o mundo da música é muito machista e quando se é mulher a música é sempre o segundo plano. O primeiro é sempre o seu corpo. É quase impossível não se abater por essa pressão de estar sempre tudo durinho, tudo bonitinho no lugar.

Mas nós realmente não vamos deixar nossa performance de lado por conta disso, muito pelo contrário: Joan Jett não se abateu, Courtney Love ligou o foda-se e Kathleen Hanna usou seu corpo pra tacar fogo nos bons costumes performáticos musicais. Sim, a gente tem peitos e vai continuar se chacoalhando no palco. Não gostou, sai. E se reclamar a gente toca sem sutiã!

leticia
Letícia Souto tem 19 anos de ócio criativo. Graduada em preguiça e pós-graduada em procrastinação pela Universidade da Vida. Gata em um mundo cão
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