Feminismo que agrada homem não é feminismo

por Helô D’Angelo

Nos últimos meses, duas histórias bizarras aconteceram comigo. A primeira: em dezembro, um amigo muito querido, psicanalista em formação, resolveu romper comigo porque “meu feminismo não conversa com a psicanálise” e porque eu “não deixo ele expor a opinião dele”.

A segunda: pouco depois disso, um amigo em comum veio me atacar em um post no meu Facebook sobre abuso sexual – e terminou dizendo que, na minha fala, eu tinha revelado a “Helô de verdade”, muito diferente da “Helô sorridente e fofa” que ele conhecia das longas tardes de café na casa do meu namorado.

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Créditos: Ser um omi feministo (fb.com/serumhomemfeministo)

Claro, os dois se dizem feministas. Os dois dizem defender os “direitos das mulheres”. O primeiro amigo, aliás, em mais de uma ocasião, me pediu textos de apoio para entender melhor o feminismo – e jamais demonstrou que “meu feminismo não abre espaço para debate”.

Eu até posso ser feminista – desde que eu não atrapalhe ou questione as falas dos homens, seus abusos, suas violências e seus machismos cotidianos.

Mesmo assim, depois das brigas, lembrei de uma série de coisinhas. Em quase dois anos de amizade, o primeiro amigo já tinha defendido abusadores, colocado em dúvida relatos de vítimas de estupro e relativizado pedofilia como algo “cultural”.

O segundo amigo já tinha berrado comigo, me impedido de falar e se ofendido quando eu questionava a ideia de feminilidade que ele tinha na cabeça – e, claro, me tinha me dito várias vezes que ele não era machista, já que era gay (nunca vou entender essa lógica).

Conclusão: para os homens, mesmo os mais desconstruidões, eu até posso ser feminista – desde que eu não atrapalhe ou questione suas falas, seus abusos, suas violências e seus machismos cotidianos. Posso ser feminista, desde que seja de boa. Desde que não seja “a chata do rolê”.

Posso ser feminista, desde que eu não mude em nada meu comportamento ~típico feminino~, ou seja, fofo, obediente e educado. Posso ser feminista, desde que eu não ouse debater com homens quando discordamos. Ou desde que eu não use formas de discurso vistas como masculinas, como a agressividade ou o ser direta. Posso ser feminista, desde que não tente quebrar seus laços de macheza machista com os “brodérs”.

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Até pode ser feminista, mas não precisa gritar tanto!

Para mim, isso tudo é muito estranho. Estranho porque, a meu ver, o feminismo precisa questionar, atrapalhar, mudar, ousar, discordar. Feminismo é, por definição, incômodo, e não fofo ou sorridente; ele não pode abaixar a cabeça para homem nenhum. Ele é (e deve ser), de certa forma, chato – chato porque o machismo é muito enraizado, muito firme na nossa sociedade, às vezes nas coisas que a gente nem imagina, e faz parte do feminismo colocar esse tipo de coisa em xeque.

Feminismo é, por definição, incômodo, e não fofo ou sorridente; ele não pode abaixar a cabeça para homem nenhum.

Afinal, como falar de abuso sexual de forma fofa? Como ouvir que uma garota pode “pedir para ser estuprada” sem emitir nenhum sinal de imenso horror? Como lidar com o medo de fazer parte do grupo que compõe a vasta maioria das vítimas de violência doméstica, estupro e assédio sexual com um sorriso no rosto? Como engolir a raiva e a frustração de ouvir um amigo querido relativizando estupro e abuso sexual – e sugerir que ele deixe o assunto pra lá e venha tomar uma cerveja?

Como? Resposta: não dá. É impossível. Se você é mesmo feminista, em algum momento vai ter que ouvir que é chata, que está estragando o rolê ou criando briga. Faz parte.

Porque o feminismo florido, cheiroso, depilado, maquiado e sempre amigável, sempre fofo, sempre de cabeça abaixada evitando brigas ou engolindo sapo (mesmo ao se deparar com o machismo em sua forma mais pura), não muda nada. Não revoluciona. Não ajuda, não para o abuso sofrido diariamente. Ao não incomodar, ao sorrir, ao aceitar tudo, acabamos criando um movimento que serve a uma classe e apenas a ela: aos homens.

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Helô D’Angelo, 22 anos na cara e fazendo o que pode para viver do que ama: desenho e escrita. Saiba mais sobre ela em seu portfolio: helodangelo.wixsite.com/portfolio
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