Pesquise ‘enteada’ no Google – e culpe a mãe pelo resultado

por Michelle Ferreira

Há umas semanas, uma amiga de face, mulher feminista que eu conheci em um dos grupos de discussão do movimento pelas redes sociais, compartilhou uma imagem que dizia o seguinte: “Pesquise enteada no Google”. E ela comentava, acima: “feminismo para quê, não é mesmo?”. Esse foi o primeiro soco no estômago. Isso porque, obviamente que eu já sabia o que me esperava ao seguir aquela instrução.

lolita
Em “Lolita”, a personagem Dolores é colocada como a femme fatale perigosa e maléfica que “seduz” seu padrasto de 50 anos, Humbert Humbert – assassino de sua mãe. Na história, Lolita tem 12 anos (créditos: reprodução)

Eu e tantas outras mulheres que viram aquilo fomos tocadas por um enorme gatilho na hora. Me sentindo nauseada, sai do Facebook pelo celular e abri o Chrome. Digitei a palavra, e angustiada, não aguentei descer a página por mais de 20 segundos. Esse foi o segundo soco no estômago. Eu sei que não estou nem perto de ter sido a única a sentir aquele refluxo, seguido de um suor frio e tontura.

Estatisticamente, está comprovado que a maioria de nós, mulheres, carrega nas costas, mente e no subconsciente, lembranças horríveis de assédios e abusos durante a infância. Muitas vezes – mais especificamente em 70% dos casos, segundo o Anuário de Segurança Pública deste ano -, eles vieram de pessoas de confiança, e nunca tivemos coragem de pedir ajuda, porque mesmo pequenas, já havíamos incorporado o silêncio como nossa defesa contra o mundo que nos culpa e nos julga a todo o tempo. Eu tenho minhas marcas também, e conheço tantas outras que aberta ou secretamente as têm, assim como você que está lendo esse texto.

Muitas vezes – mais especificamente em 70% dos casos, segundo o Anuário de Segurança Pública deste ano -, os abusos vieram de pessoas de confiança, e nunca tivemos coragem de pedir ajuda

Fechei o celular e olhei em volta, coloquei um sorriso amarelo no rosto e segui andando mais uma vez, com o gosto de sangue na boca que aqueles socos haviam trazido, mas segui. Simplesmente porque é isso o que podemos fazer. Não tive cabeça nem para comentar com minhas amigas que estavam perto. Não ia criar clima e bater também na cara delas naquele momento. O dia continuou e o assunto foi se desfazendo na minha cabeça conforme o tempo passava.

No dia seguinte, o nocaute veio. Veio forte como uma pancada que te faz desacoplar do corpo por um instante. Sem chão, céu ou ar eu recebi o print da página de pesquisa pelo Whatsapp, enviado pelo meu ex-namorado, que é o pai da minha filha. Olhei, incrédula, para aquilo e não tive nem forças para responder. Com o coração disparado, só não conseguia acreditar na crueldade e violência que ele havia feito comigo naquele momento.

Compartilhar algo tão asqueroso assim com os amigos homens dele (…) não é eficiente ou proveitoso. O melhor é mandar para que eu, mãe, saiba que se alguém algum dia chegar perto da minha filha, a culpa será minha. Afinal, eu deveria esperar por isso, não é?

O pai da minha filha, que viveu comigo na mesma casa por quase 6 anos, além de saber da minha própria experiência de assédio quando eu era uma criança – e do abuso que a minha mãe também passou -, porque eu confiei nele o suficiente para dividir isso durante o nosso relacionamento, conseguiu ter a coragem de me esfaquear sem dó com aquele recado.

Além do gatilho, que ele sabia que seria, mesmo que a minha situação não tivesse sido exatamente igual, ainda foi capaz de me apontar o dedo, como se dissesse: “você não pode se relacionar, pois isso colocará a nossa filha em risco. ”  Se isso não é violência, eu não sei dizer o que seria.

Mandar isso para mim, no meio das minhas férias, com a minha filha, na praia do Rio de Janeiro. Um lugar tão caro para mim. Para quê? Para afirmar que nunca estaremos seguras? Que se algo acontecesse a culpa seria minha? Foda-se se foi ou não essa a intenção dele – porque no final das contas, foi esse o recado insensível e grotesco que eu recebi.

Mesmo com toda a precaução que pudermos ter, a culpa será colocada na gente. Na mãe e na filha. A mãe que não cuidou, e a criança que provocou. Quem mandou sermos mulheres?

Porque é claro que compartilhar algo tão asqueroso assim com os amigos homens dele, para que eles tomem consciência dos absurdos causados pelo patriarcado, não é eficiente ou proveitoso. O melhor é mandar para que eu, a mãe, saiba que se alguém algum dia chegar perto dela a culpa será minha. Afinal, eu deveria esperar por isso, não é?

Aliás, todas as mães. Vigiem, não confiem, tenham mil pés atrás, é assim que vivemos ao criar uma menina. E não adianta…mesmo com toda a precaução que pudemos ter, a culpa será nossa. Da mãe e da filha. A mãe que não cuidou, e a criança que provocou. Quem mandou sermos mulheres?

A situação não acabou com a minha praia, nem com as minhas férias. Me recuso, estou exausta de me deixar diminuir, atingir e abalar por ataques assim. Mas, com certeza, comprovei mais uma vez que, para confiar uma história dessas, só com minhas manas, mulheres como eu, que jamais me acusariam de ser culpada pela doença masculina de achar que devem nos machucar, a troco de nada, apenas porque sabem que conseguem.

Seguimos.

11638850_901399166592933_866196909_o
Michelle Ferreira é formada em Audio Visual no Senac, tem 22 anos e vive em Sao Paulo, mas tem o coração no Rio de Janeiro.
Anúncios

o que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s