Já disfarçou sua lesbofobia hoje?

por Mariana Gonzalez

“Trouxe você aqui para dizer que, por mim, tudo bem ser assim. Eu não me importo com a sua orientação sexual. O importante é ser feliz”. Esse diálogo – ou monólogo, melhor dizendo – aconteceu depois que a tia de uma amiga lésbica a chamou para conversar a sós, num quarto afastado da casa, sobre um “assunto particular”. A conversa durou cerca de 20 minutos e tinha como único objetivo dizer à minha amiga que aprova a relação dela com outra mulher. Depois disso, a tia descolada pegou um ônibus de volta para a cidade onde mora, a quase 3 mil quilômetros da sobrinha.

Três meses antes desse episódio, outra amiga relatou o primeiro almoço com o pessoal jovem e moderninho do emprego novo. Enquanto ninguém desviava a atenção da comida quando os colegas falavam sobre os planos para o final de semana, a mesa toda arregalou os olhos e sorriu quando minha amiga disse que iria no cinema com a namorada. Alguns ainda foram além da expressão facial – um tanto quanto exagerada – e soltaram um “nossa, que legal!”.

É bom saber que tem gente que gosta da gente enquanto 99% da população brasileira* desaprova a não heterossexualidade. Mas ao mesmo tempo, fica a pergunta: a quem serve essa “aprovação”?

Só quem saiu do armário – ou foi arrancada de lá – sabe a importância do apoio dos amigos, familiares e colegas de trabalho. É bom saber que tem gente que gosta da gente enquanto 99% da população brasileira* desaprova a não heterossexualidade. Mas ao mesmo tempo, fica a pergunta: a quem serve essa “aprovação”?

Nas duas situações, a mulher lésbica em processo de assumir a orientação sexual foi colocada no centro das atenções de pessoas não tão próximas, enquanto os heterossexuais saíram da situação com a certeza que se descolaram da grande e abominável maioria lesbofóbica. Vejo pouca ou nenhuma diferença entre essas cenas e a máxima “não sou homofóbico, tenho até amigos gays”. Claro que a intenção da tia e dos colegas de trabalho não é ruim, mas merece reflexão.

Vejo pouca ou nenhuma diferença entre essas cenas e a máxima “não sou homofóbico, tenho até amigos gays”.

Quantas heterossexuais (e até homens gays) já se referiram à amiga sapatão como “minha amiga lésbica”? E quantas vezes já usaram a amiga sapatão como passaporte de entrada para o descolado e moderninho vale dos homossexuais? Depois da festa “berro” e da sequência de “closes” que renderam centenas de likes nas redes sociais, os amigos heterossexuais não-lesbofóbicos seguem suas vidas sem pensar sobre fetichização, estupro corretivo e rompimento de relações familiares.

Daí a importância de estar sempre rodeada por outras mulheres lésbicas e de fortalecer espaços auto-organizados – mas isso é tema para outra reflexão.

*segundo um levantamento feito em 2009 pela Fundação Perseu Abramo

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Mariana Gonzalez é metade hispânica e metade nordestina, é produto de uma família de muitas mulheres e poucos homens. Outros adjetivos que a definem são feminista, lésbica, capricorniana, acumuladora de tarefas e quase-jornalista – tudo depende do TCC sair esse ano.
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