A traição masculina não é ‘biológica’: é machismo puro

por Nathalia Gorga

Inverno de 1984. A voz de um homem corta a noite:

— Você vai ter que escolher, mulher: ou eu ou ela.
— Melhor você ir embora, filha…

Depois dessas palavras, a jovem de 20 anos não teve reação. Ficou em pé, estática, olhando para sua mãe, Edna, que tinha acabado de mandá-la embora. Após alguns segundos, seu pai, Alexandre, estava correndo atrás dela, gritando “vai embora!”. E ela foi, com a roupa do corpo. Desceu alguns andares do prédio e, com esperança, bateu na porta da avó paterna:

— Vó, posso ficar aqui?

Assim como o filho, dona Marli usou o tom de voz elevado:

— Não! Você está destruindo a vida do meu filho! Pode ir!

E, finalmente, ela foi. Entrou em seu carro e dirigiu sem rumo. Quando percebeu que estava ficando tarde, foi para o shopping Ibirapuera e fez do estacionamento seu dormitório, pelo menos por aquela noite. Fechou todos os vidros, deixando “apenas uma frestinha para respirar”, como ela mesma diz. Refletindo hoje, ela pensa que poderia ter ido para um quarto de hotel, por exemplo, mas ficou tão atordoada que não sabia o que fazer.

Por incrível que pareça, ela dormiu. No dia seguinte, foi para o trabalho. Esperou uma loja de roupas abrir, comprou um vestido, se lavou no banheiro do shopping e, mais do que pontualmente, estava a postos no serviço.

A situação trouxe consequências: Carla não terminou a Faculdade, assumiu as contas de um dia para o outro e, por dois meses, não teve um lar; só lugares que a acolheram esporadicamente – como o restaurante de um amigo, no qual dormia em um quarto minúsculo; tão pequeno que, para descrevê-lo, Carla começa com um “nossa…” pausado e sofrido. Além disso, por causa da má alimentação, do pouco sono e do estado constante de estresse, a jovem desenvolveu sérios problemas de saúde.

Você deve estar se perguntando por que Carla foi expulsa de casa pelo pai e pela mãe. O motivo é algo que continua acontecendo nos dias de hoje e teve suas origens há muito tempo: a traição masculina.

A jovem pegou o pai, de 50 anos, e a amante, Lúcia, de 30, no flagra em um show do Roberto Carlos. Sua reação foi fazer um escândalo e bater na acompanhante de seu pai que, no caso, era sua vizinha também. Foi depois disso que o clima em sua casa ficou insustentável até tudo culminar na sua expulsão – e, claro, no corte de relações com sua mãe e seu pai.

Esse tipo de história, na qual a mulher traída perdoa o marido traidor, é comum. Mas por quê?

O designer e psicólogo Philipe Kling David escreveu sobre os relacionamentos extraconjugais. Para ele, a coisa tem uma explicação simples, mas assustadora:

A maioria dos homens trai suas parceiras. A mulher na rua deu chance, o cara vai lá e manda bala. Isso quando não é o caso do cara pegar uma grana e bancar uma prostituta para prestar alguns serviços. É parte indelével da índole masculina buscar parceiras.

Somos caçadores. Andamos nas ruas perscrutando cada calçada em busca dos sinais inequívocos do sexo. Bundas, pernas, peitos… É normal ocorrer de estarmos pensando em outra coisa e ainda assim olharmos. A programação genética é inexorável”.

Parece coisa dos anos 50, né? Mas a fala de Kling David foi publicada na revista Papo de Homem, em julho de 2007. Pois é. Absurdo pensar que em 2007, há apenas 10 anos, um psicólogo colocava dessa forma uma situação tão complexa e impactante para a vida da mulher traída e de todas as pessoas envolvidas. No caso de Carla, por exemplo, a mãe usava calmantes frequentemente, para se controlar diante do que não queria acreditar (isso para não falar da expulsão da filha de casa).

Mas vamos supor, por alguns segundos, que essa visão seja verdade. Então quer dizer que Alexandre, pai de Carla, traiu a esposa dele, sem pensar nas consequências, simplesmente porque ele e todos os homens são “caçadores” e “animais irracionais”?

Não. Essa explicação não faz o menor sentido. Se a gente seguir com essa lógica, vamos chegar à conclusão de que os homens são irracionais, já que a traição seria apenas parte de um instinto incontrolável e parte “genética” do seu ser. Mas, apesar de sermos constantemente violentadas, ameaçadas e psicologicamente abaladas por eles, a gente sabe que isso não é verdade: homens entendem muito bem o que estão fazendo quando traem. E eles traem mesmo tendo essa clareza porque, socialmente, trair é aceito – e até encorajado através discursos como o do tal psicólogo.

Os números de homens traidores confirmam essa tese. Em junho de 2016, uma pesquisa do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas entrevistou 3 mil brasileiros do país inteiro sobre traição. O resultado? Entre os homens, 50,5% (sim: metade) admitem já terem cometido uma traição em seus relacionamentos. Entre as mulheres o número cai: apenas 30,2% disseram já ter traído seus parceiros.

Em entrevista à Globo, a psiquiatra Carmita Abdo, autora do estudo, afirmou que já esperava a disparidade entre homens e mulheres. Ela observou que, especialmente na cultura latina, o homem costuma não considerar relações eventuais de caráter exclusivamente sexual como algo que coloque em risco seu relacionamento com a pessoa com a qual tem um projeto de vida.

Na pesquisa, os homens tentaram se explicar: “Eles dizem que isso faz parte da natureza masculina, que eles não vão abrir mão da oportunidade”, explicou a psiquiatra. Ela também comparou a justificativa masculina com a explicação das mulheres: “Geralmente, para elas, há uma insatisfação sexual ou afetiva”.

Na mesma reportagem da Globo, a psicóloga clínica e educadora sexual Laura Muller completa a lógica de Abdo: a disparidade nos números da traição masculina versus a feminina tem a ver com a antiga repressão da sexualidade da mulher. “Em geral, as mulheres, que viveram séculos de uma repressão sexual muito forte, gostam de falar que são quase virgens, que fazem pouco sexo”, disse Muller. Essa repressão sexual não está só nas entrelinhas ou na criação da mulher: ela chega a ser física.

Em alguns países do Oriente Médio, como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Sudão, por exemplo, a mulher pode ser presa ou até morta em casos de adultério. Em nosso país, a prisão não é uma consequência, mas a “defesa da honra” em caso de adultério da mulher só foi proibida em 1940 (!).

Mas mesmo com a proibição legal da vingança caso a esposa seja descoberta traindo seu marido, ela pode sofrer agressões físicas ou sexuais, abuso moral e inúmeras agressões do companheiro. Foi o caso de uma jovem de 18 anos, que, em 2016, foi agredida pelo marido após ser acusada de traição. Ou da moça baiana que, em 2015, teve as mãos decepadas pelo companheiro ciumento. Ou, ainda, da mulher que foi torturada e obrigada a andar nua no início de 2017, por ter sido pega com o marido de outra.

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Em “beleza americana”, Kevin Spacey interpreta o típico cara que acha que vai se realizar com a traição de sua mulher.

Ou seja: homens traem mais, e traem porque podem. Mulheres traem bem menos – e traem quando o parceiro não está nem aí para elas. Só que a mulher que trai frequentemente é assassinada, espancada, decepada, estuprada; tem a família ameaçada, é perseguida – tudo para vingar a “honra” do marido traído, com o apoio e os aplausos da sociedade.

Enquanto isso, o homem que trai sem ser descoberto (ou até sendo descoberto) é macho de verdade, um ótimo exemplo da espécie, um ser invejável. A traição masculina é uma conquista; a feminina, um crime passível de qualquer forma de vingança.

Percebe a disparidade?

Da pesquisa do Hospital das Clínicas, participaram três mil pessoas. Mas fico imaginando que, se todos os brasileiros fossem entrevistados, ainda assim a porcentagem de homens traidores seria maior, muito maior. Porque o homem trair é algo enraizado em nossa cultura patriarcal; é algo encorajado como um grande ato de “macheza”. Nos filmes, nas novelas, nos livros, nos quadrinhos e nas músicas, sempre há a história do romance entre um pai de família e uma moça inocente (inclusive, é o caso de Alexandre e Lúcia), ou do jovem que está namorando duas mulheres ao mesmo tempo, ou do tipo cafajeste que pega todas e não namora nenhuma…

A partir desses dados e refletindo sobre o que vemos em livros, televisão e ouvimos de conhecidos e conhecidas, chego em uma conclusão triste: a história de Carla, que ocorreu em 1984, é a de muitas outras mulheres atualmente, talvez com finais diferentes, mas com o elemento chave em comum: a traição, tão recorrente entre os homens, na cultura brasileira, transmitida de geração em geração.  

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Nathalia: 22 anos, aquariana que gosta de ter muitos peixes em suas águas, o que significa amores, ideias, inspirações, vontades e sonhos… Três paixões: Claudia, Clarice e Cássia. Dois prazeres: ler e conhecer (pessoas, lugares, comidas). Um vício: escrever.
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