Ballet não é opressão – é transgressão

As bailarinas mulheres só conquistaram papeis de destaque no ballet depois de muita luta feminista – e depois de enfrentar muito assédio sexual

por Isabella Faria

Sapatilhas de cetim. Tutu rosa. Expressão aérea. Pulinhos e rodopios. Quantas vezes já não ouvi essas definições quando o assunto em questão era o ballet? Os estereótipos eram uns piores que os outros. Tanto que, em determinado momento dos meus 15 anos dançando, eu desisti de tentar explicar qualquer coisa sobre o ballet para qualquer pessoa.

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Ballet não é isso, gente.

Porém, minha língua começou a coçar novamente quando vi esses mesmos estereótipos sendo propagados por mulheres feministas que problematizavam o próprio ballet: dizendo que ele reforçava estereótipos de gênero, que impunha às mulheres bailarinas uma feminilidade inalcançável, e que era, portanto, um desserviço ao feminismo. Nas palavras da teórica feminista Germaine Geer: “o ballet é um câncer cultural”.

Tudo isso me deixou surpresa e decepcionada por saber que uma arte tão complexa como o ballet era vista como “submissa” e “problemática”.

Portanto, em defesa da dança, aí vai meu manifesto:

Nos primórdios do ballet, lá pelo século XV, quem dançava nos palcos eram apenas homens, que, inclusive, performavam papéis tanto femininos quanto masculinos. Foi só em 1681 que as mulheres foram autorizadas a dançar e quem trouxe isso até nós foi Mademoiselle Lafontaine (1655-1738), uma mulher francesa considerada a primeira bailarina da história.

Mas, adivinhem só? Bailarinas eram uma fonte de excitação, e muitas vezes, satisfação sexual. A simples exibição de pernas no ballet atraía a atenção de muitos homens ricos, e assim, bailarinas com menos destaque deixavam os palcos para se tornarem prostitutas.

Nos primórdios do ballet, lá pelo século XV, quem dançava nos palcos eram apenas homens, que, inclusive, performavam papéis tanto femininos quanto masculinos.

Dispostas a serem respeitadas como artistas, diversas mulheres tomavam a frente de suas criações, já que a maioria dos coreógrafos e diretores de companhias da época eram homens. Bronislava Nijinska (1891-1972) foi a única coreógrafa mulher da primeira metade do século XX a trabalhar com os recursos de uma grande companhia de ballet, o “Ballets Russes”. Abertamente feminista, ela encenou papéis masculinos, mostrando-se versátil e adaptável, questionando os papéis sociais destinados às mulheres.

E claro que tais papéis tão presentes na sociedade iriam se refletir nos palcos. Bailarinas interpretavam princesas de contos de fadas, camponesas inocentes e mulheres que morriam de amor. Porém, também interpretavam mulheres independentes, sedutoras e rebeldes que passavam longe dos estereótipos da época.

Dispostas a serem respeitadas como artistas, diversas mulheres tomavam a frente de suas criações, já que a maioria dos coreógrafos e diretores de companhias da época eram homens.

Um exemplo de uma forte personagem é Kitri, do ballet Dom Quixote, de 1808. A história é basicamente a mesma do livro, onde Kitri é forçada a se casar com um rico comerciante e, desafiando a ordem do pai, foge pra bem longe enquanto faz esses movimentos aqui:

Podemos tirar um pouco o foco da “performance da feminilidade” e discutir sobre o fato que essa mulher gira mais de 15 vezes enquanto seus dedos estão comprimidos dentro de uma sapatilha que possui gesso na ponta? Obrigada.

E isso vale para qualquer personagem que, teoricamente, não condiz com ideais feministas. Uma mulher interpreta a Bela Adormecida enquanto seu corpo treme de tanto esforço, outra interpreta a camponesa Giselle formando um ângulo de 180° com sua perna, e mais uma interpreta a cigana Esmeralda enquanto seus dedos do pé não param de sangrar.

O esforço e o empenho de uma bailarina, independente do gênero de dança, são descomunais e não podem ser reduzidos ou ignorados por estarem inseridos em uma arte que  “reforça estereótipos de gênero”.

Podemos tirar um pouco o foco da “performance da feminilidade” e discutir sobre o fato que essa mulher gira mais de 15 vezes enquanto seus dedos estão comprimidos dentro de uma sapatilha que possui gesso na ponta? Obrigada.

Inclusive, a bailarina Pina Bausch (1940-2009), expôs e quebrou com muitos desses estereótipos em suas coreografias. Bausch tinha grande consciência da opressão que as mulheres sofriam, e revelava no palco jogos de poder entre homens e mulheres, combinando violência, insatisfação e desejo.

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Cena de “O despertar da primavera”, de Pina Bausch: quebra de padrão, exploração dos limites corporais e – olha só – nenhum tutu rosa à vista.

No ballet, eu aprendi histórias fascinantes, adquiri uma consciência corporal imensa, mergulhei em um conhecimento de anatomia humana que nunca teria acesso de outra forma, fui aluna de mulheres incríveis, fiz amizades que sei que durarão por muito tempo, me machuquei, me curei de muitas coisas e, o mais importante de tudo, me realizei na pele de personagens e em inúmeros passos de dança.

E quer saber? Eu tenho certeza que se Germaine sentisse como é saltar mais de um metro e meio do chão, girar mais de 30 piruetas, e fazer outras coisas com seu corpo que são julgadas quase impossíveis… Provavelmente a opinião dela seria bem diferente.

Dança é arte. E arte também é transgressora.

Saiba mais sobre ballet e transgressão aqui e aqui.

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Isabella Faria tem 21 anos, é Jornalista, está sempre acompanhada de um caderninho azul e pretende voltar a dançar o quanto antes
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6 comentários

  1. Oi Isabella,

    Gostei muito da lente que você usa para olhar o ballet. Isadora Duncan, minha musa inspiradora desde a adolescência, certamente concordaria com muitos de seus pontos. O que ela via de errado no ballet era a falta de escolha, mas isso já não existe mais. Hoje, bailarinas maravilhosas como você ficam nas pontas dos pés porque querem, e sobretudo porque conseguem, e não porque se submetem a um esteriótipo feminino!

    Chico Buarque também retratou a bailarina como símbolo de uma burguesia que não permite a mulher ter piriri, calcinha velha ou mesmo pecar depois da missa, o que todo mundo faz. Só mesmo a bailarina do porta-joia seria capaz de tal feito, não é? Mas novamente, o que ele critica e o olhar raso de um senso comum que reifica a mulher de forma infantilizada como o bibelô da caixinha de música.

    Hoje sabemos que a bailarina não é nada disso. A bailarina e uma atleta. Uma mulher que extravasa os limites de seu próprio corpo e que faz o impossível, deixando a todos nós, cidadãos comuns, em um estado de catarse, como se estivéssemos a voar em nossos próprios sonhos.

    Quero muito ver você dançar um dia. Um grande beijo feminista pra você.

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  2. Não vejo nada de tão ruim no mundo cor de rosa a que as bailarinas são associadas. e se isso atrapalha a ideologia de gênero melhor ainda!

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  3. Amei o texto!
    Ótica incrivel! Estou compartilhando já!
    Aproveito para divulgar meu blog, que tem como objetivo destruir diversos mitos e tabus relacionados a dança e trazer a tona sua verdadeira essência.

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  4. Isabella, parabéns pelo seu texto, claro, competente e lúcido. Os dados históricos estão perfeitos e sua intimidade com o ballet é óbvia. Em nome do ballet clássico, que me ajuda até hoje, aos 70 anos, obrigada. Grande abraço.

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  5. Gostei da iniciativa em abordar esse tema, tão cheio de mal entendidos pelo público em geral! Parabéns!

    Compartilho com você da necessidade de desassociar o ballet da carga de absoluta feminilidade que ele carrega. Ele com certeza não é coisa de mulherzinhas frágeis, o ballet de hoje está mais atlético do que nunca na história!

    Mas acho que vou discordar quando você diz que reconhecer o virtuosismo, a dor, o esforço, a consciência corporal de uma bailarina é o suficiente para redimi-lo da “performance da feminilidade” e elevá-lo a um status empoderador para as mulheres. O problema central é que a técnica clássica, em sua raiz mais profunda, não tem esse objetivo: bem sabemos que ela visa alcançar uma feminilidade ainda mais profunda, que chega a desafiar as leis da física… É um fato incontestável que Nijinska, Pina Bausch e Isadora Duncan, por exemplo, tenham aberto portas para que o ballet supere essa questão de gênero, e isso é lindo, mas ainda não foi o suficiente para que ele se liberte de toda essa carga construída durante sé-cu-los.

    Ainda me lembro de, na adolescência, eu evitar falar para homens que eu era bailarina, pois eles sempre faziam aquelas expressões subliminares de desejo. Sim, o ballet ainda possui essa conotação sexual! Ele ainda consente, também, em impor padrões de beleza praticamente inalcançáveis para a maioria das mulheres, e isso não é nada transgressor.

    Se hoje há transgressão na dança, eu diria que ela está mais próxima da dança moderna do que do ballet, como no exemplo que você citou da Pina Bausch. Mas o próprio ballet tem mostrado alguns discretos avanços também, como no caso da Misty Copeland como primeira bailarina do NYC Ballet! ❤ Uma lerdeza completamente natural para uma área que esteve sempre tão mergulhada num tradicionalismo de raízes tão bem estabelecidas.

    Entre em contato comigo, tenho uns textos ótimos sobre dança e gênero para discutirmos 😉

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