Explicando feminismo para a sua avó: o que é feminismo?

A série Explicando feminismo para a sua avó, de  Beatriz Cuvolo, é um jeito alternativo de apresentar a militância para as mulheres mais velhas – sem assustá-las ou deixá-las à margem. Usamos, também, uma fonte maior para facilitar a leitura.

Beatriz Cuvolo

“Eu tinha uma prima lá no interior da Bahia, que morava perto de casa. Ela era novinha e se casou com um cara um pouco mais velho. Até ai tudo bem, né? Ele tinha cara de bonzinho e tudo, mas quando saía para trabalhar, trancava minha prima dentro de casa e amarrava o saco de farinha em cima da porta e ela só podia comer a farinha – tudo que tinha na casa – quando ele chegasse.
Mas não era só isso, não. Lá, a gente fala que tinha um terreiro, aqui vocês já falam quintal. Ele varria o terreiro todinho, [varria] a terra e deixava a bem lisinha, e se ele visse que alguém tinha pisado no chão do terreiro, ela apanhava. Um dia, meu pai foi cobrar ele, parece que ele “tava” devendo uma vaca, mas o marido dela não estava lá na casa. Quando ele chegou deu uma surra nela, chamou de que ela era uma vagabunda que recebia homem em casa quando o marido saía pra trabalhar”.
Eu pergunto: “E aí, vó?”
“E aí que o pai dela foi lá na casa salvar ela e os dois filhos também, levaram ela embora pra casa deles. Mas não teve jeito não, fia. Aquele cara parecia o cão. Ele ficava escondido no meio do mato e chamava os filhos, ai ele se fazia de coitado para os filhos e eles pediam pra mãe voltar com o pai”, ela responde.
“E ela voltou?”
“É, fia, o que uma mãe não faz pelos filhos? Ela deve ter voltado umas duas ou três vezes. Mas aí, pegou uma tuberculose e morreu cedo”.
“E o cara?”
“Ele deixou os filho tudo com os vô  e arrumou outra mulher. Mas agora, com fé em Deus, ele deve tá no fogo do inferno!”
Essa história é real e não faz tanto tempo assim que aconteceu. A tal moça era prima da minha avó, que hoje tem 78 anos. Ou seja, toda essa crueldade (que é frequente até hoje) aconteceu há menos de 50 anos. Tortura psicológica, cárcere privado, violência física, humilhação…..
Ela foi mais uma vítima do patriarcado, ou seja: da sociedade dominada pelos homens, essa em que a gente vive. Ela foi vítima do machismo, a ideia de que os homens são superiores às mulheres – que está tão enraizada na nossa cultura. Vítima do silêncio, do medo, da vergonha.
Infelizmente, é muito provável que essa história se repita e também seja esquecida. Vai ser enterrada junto com a mulher que sofrer e que for silenciada por tanto tempo. Sabe qual é o único jeito de ajudar essas mulheres? Simples: se juntando com outras mulheres para interromper essa repetição interminável de histórias como essas. Cabe a nós, mulheres, não esquecermos tudo isso. Cabe a todas nós, mulheres, proteger, e ensinar e ajudar umas as outras!
Vó, tia, mãe, prima…. Mulheres. Antes de tudo, esqueça tudo de ruim que você já leu sobre o feminismo, esqueça o que aquele seu vizinho já disse sobre o movimento, sobre as mulheres que participam dele, esqueça também aquilo que você já viu e ouviu na televisão, no ônibus, ou até saindo da boca do seu genro ou cunhado.
O feminismo é uma luta das mulheres, uma luta para que nós não sejamos mais violentadas, espancadas ou molestadas como a prima da minha avó. É para que nós tenhamos direitos iguais aos homens – o salário é uma dessas lutas: você sabia que para nós, mulheres, o ganho é cerca de 30% menor que o dos homens, para um mesmo trabalho? Pois é.
Ou seja, o feminismo é uma luta sua
O movimento surgiu na segunda metade do século XX, junto com a luta das mulheres pelo voto (o sufragismo). Mas mesmo antes disso, muitas outras mulheres deram a vida para que a senhora tivesse o poder de votar, de se separar, de ter uma casa no seu nome, de receber salário, entre tantas outras coisas que parecem tão básicas, mas fizeram e ainda fazem uma diferença enorme na vida de todas as mulheres.. Muitas mulheres se rebelaram contra sua condição, lutaram por liberdade e muitas vezes pagaram com a própria vida.
Mas o que é liberdade? Depende. Para algumas, pode ser trabalhar e ter o próprio dinheiro; para outras, simplesmente poder sair de casa para dar uma volta, como a da história acima. Infelizmente, você já deve ter ouvido, ou ate testemunhado, histórias parecidas com a descrita. E sempre depois da aflição de ver ou ouvir essas histórias, vinha a frase “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”.
Mete, sim! Quantas vezes a senhora que está lendo isso agora já ajudou uma vizinha que apanhava do marido, que era presa em casa, que sofria pressões de todos os tipos, a sair dessa situação? Ou quantas vezes você não ajudou, mas sentiu que gostaria de ajudar? Quantas vezes você se colocou na pele de outras mulheres que sofriam?
O feminismo é isso: mulheres se dando força, se apoiando, lutando juntas para viverem em condições de igualdade. Só isso!
Nós, mulheres, feministas, muitas vezes sem saber que somos feministas, reivindicamos o básico, o óbvio e que ainda nos é negado em várias situações do nosso cotidiano, tanto por outros indivíduos quanto pelo Estado. Não, feminismo não é um movimento de adolescentes que não têm nada o que fazer e que só querem mostrar o peito na rua, como dizem por aí.
O feminismo é uma luta política que quer apenas equidade entre os gêneros. Um movimento que agrega milhares de mulheres espalhadas pelo mundo com o mesmo objetivo, e muitas vezes pagando com a própria vida para que nós, nossas filhas, sobrinhas, netas e todas as que estão por vir tenham um futuro melhor.
Ajude suas vizinhas, suas amigas da novena, do culto, do baile, do bar. Ajude sem elas pedirem ajuda. Não existe o marido bom que não vai fazer de novo, ele vai. O feminismo não mata, o feminismo salva.
 No próximo Explicando feminismo para a sua avó: o que são vertentes?
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Beatriz Cuvolo, 19 anos. Jornalista em formação. Apaixonada por contar histórias de pessoas reais para pessoas reais. Em busca do que é belo e vulgar.
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Um comentário

  1. Parabéns, texto claro e de fácil entendimento! Vi isso acontecer com vizinhas/amigas no meu país de origem(Brasil) e vejo isto acontecendo aqui do outro lado do mundo onde vivo(Londres). Depois de tanto ouvir e ler sobre o feminismo, isso tem somente 3 meses aproximadamente me fez e faz enxergar essas situações que antes me passavam despercebidas. Mas precisamos agir. Parabéns novamente Beatriz Cuvolo, anciosa pela próxima matéria!

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