Primeiras-damas e o elogio às mulheres

por Larissa Rosa

Séria. Jovem. Intelectual. Fútil. Bonita. Velha. Elegante. Essas são algumas palavras que me vêm à mente quando penso nas três últimas primeiras-damas do Brasil: Ruth Cardoso, esposa de Fernando Henrique (1995-2003), Marisa Letícia, esposa de Lula (2003-2011), e Marcela Temer, esposa de Michel Temer (2016-atual), nosso presidente em exercício. São palavras que me vêm à mente, na verdade, menos pela espontaneidade da lembrança de seus rostos e personalidades e mais pela representação midiática e repercussão popular que tiveram e têm suas figuras.

image
A ex-primeira dama de Lula, Marisa Letícia (crédito: Agência Brasil)

Apesar da informalidade do título que recebe a esposa de um presidente da República, são muitas as cobranças que pairam sobre as primeiras-damas. Nenhuma delas diz respeito à política, mas à sua postura enquanto uma espécie de “mulher modelo”, enquanto esposa de um homem poderoso e, enfim, enquanto mulher que deve seguir o que é esperado de uma pessoa do sexo feminino.

A esposa do presidente da República é sempre avaliada, elogiada ou criticada numa comparação, mesmo que muitas vezes implícita, com outras que estiveram na mesma posição.

Em um de seus livros, Suely Rolnik, ao tratar sobre o casamento heterossexual, que chama de empresa doméstico-matrimonial, escreve: “Se ele tem que ficar ligado na cotação da bolsa de valores econômicos para não dar bola fora em sua inabalável ânsia de ascensão, ela tem que ficar ligada na cotação da bolsa de valores de expressão para não dar bola fora na maneira como deve se apresentar a família daquele que tem que vencer”. Essa lógica, podemos imaginar, é ainda mais intensa quando se trata de um casal público e político.

As mulheres que ocupam ou já ocuparam a controversa posição de primeira-dama me intrigam cada vez mais desde que comecei minha iniciação científica, há pouco mais de um ano, e passei a relacionar a imagem de algumas delas à construção e aos caminhos da feminilidade. São muitas as faces deste cargo que sinalizam para a condição mais ampla sob a qual vivem as mulheres em nossa sociedade. Uma delas, a que aqui nos importa mais, é a forma como a esposa do presidente da República é sempre avaliada, elogiada ou criticada numa comparação, mesmo que muitas vezes implícita, com outras que estiveram na mesma posição.

É ingênuo acreditar que as comparações estabelecidas entre elas não sejam mais uma tentativa de reiterar a rivalidade feminina.

É bem verdade que, numa análise mais superficial, poderíamos apontar uma coerência nesse tipo de olhar: é normal que haja uma comparação entre pessoas que já ocuparam o mesmo cargo. Tratando-se de um título informal que mulheres recebem e que nos remete a estruturas patriarcais – é primeira-dama, afinal, aquela que é casada com o presidente, ao passo que não existe um título equivalente para um homem casado com uma presidenta e tampouco estamos acostumados a ter presidentas –, no entanto, é ingênuo acreditar que as comparações estabelecidas entre elas não sejam mais uma tentativa de reiterar a rivalidade feminina. Tratando-se, aliás, de comentários e comparações que, na maior parte dos casos, não dizem respeito à política, mas a características pessoais, é difícil pensar que a motivação dessas falas não seja essencialmente misógina.

Há uma sutileza no ódio que se destila em elogios que são, por outro lado, críticas veladas e direcionadas a outras mulheres. Há também um perigo nessa sutileza, pois é difícil apontar a maldade no que é, em sua outra face, lisonjeiro. Nas duas posses presidenciais de Dilma Rousseff, algumas das maiores empresas de comunicação do país não pouparam publicações elogiosas às roupas, à beleza e ao comportamento da então vice-primeira-dama, Marcela Temer.

[São] comentários e comparações que, na maior parte dos casos, não dizem respeito à política, mas a características pessoais, é difícil pensar que a motivação dessas falas não seja essencialmente misógina.

Na mesma ocasião, não pouparam publicações que eram críticas ou debochadas em relação à aparência da presidenta eleita. Recentemente, com a morte de Marisa Letícia, também não foram incomuns textos e comentários que exaltavam sua figura tendo como muleta a crítica velada a outras primeiras-damas (um dos textos diz: “que não ficava badalando em colunas sociais, que não usava joias caras, que não fazia pose de intelectual”).

Nós, mulheres, não somos bonitas, não somos inteligentes, não somos agradáveis. Nenhuma de nossas características existe e é admirada por si só. Ao contrário, somos admiradas quando em contraposição a outras mulheres, numa espécie de competição constante.

Há uma sutileza no ódio que se destila em elogios que são, por outro lado, críticas veladas e direcionadas a outras mulheres.

Se os homens nos olham e conseguem encontrar algo em que sejamos, em sua concepção, melhor do que outras mulheres, isso os excita: estão mais perto, afinal, de encontrar a mulher de verdade, figura estranha, torta e, como a boa utopia que é, que sempre parece escapar. Escapa porque, se somos muito bonitas, somos também muito fúteis. Se somos intelectuais, somos muito esnobes.

Se somos admiravelmente engajadas, talvez sejamos velhas, feias, gordas, deselegantes. Algo sempre nos falta ou nos excede. É preciso repensar os elogios às mulheres. Em relação às primeiras-damas, elas aqui são só um bom exemplo – não há nada que não precise ser repensado sobre elas.

sem-titulo
Larissa Rosa tem 20 anos, estuda jornalismo, tem certeza que uma fada morre a cada vez que um universitário diz que teoria não importa e ainda tateia caminhos possíveis dentro do feminismo .
Anúncios

o que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s