A importância de estar entre mulheres

por Helô D’Angelo

Responda rápido: qual foi a última vez que você esteve apenas entre mulheres? Não estou falando de ambientes competitivos como o trabalho, nem das rodas de fofoca com as amigas da faculdade e nem mesmo das comprinhas que você faz de vez em quando com suas primas.

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Quanto tempo, hein, meninas?

Estou falando de estar entre mulheres para falar sem ser julgada; para se sentir à vontade ao perguntar qualquer coisa; para chorar sem ter que se esconder no banheiro. Estou falando de estar entre mulheres sem invejar ninguém – e sem se sentir inferior às outras.

Provavelmente, faz tempo, né?

Provavelmente, já te disseram que um ambiente só de mulheres é tóxico. Que você não pode confiar nas suas amigas. Que você precisa competir com elas pelos homens. Que mulheres são fofoqueiras, falsas, dissimuladas, trapaceiras. Provavelmente, você já sentiu que é mais simples estar entre homens (ou, pelo menos, já ouviu de outras mulheres que elas preferem estar entre homens).

Isso tudo, infelizmente, acaba sendo verdade. E por uma razão muito triste: na criação da mulher, sempre se insiste que nós não confiemos em outras mulheres, porque “elas vão roubar nossos homens” e “destruir nossas vidas”. Enquanto isso, os homens são criados sob o mantra “bros before hoes” (bróders antes das vadias). E as vadias, minha amiga, somos nós.

Ou seja: enquanto mulheres são criadas para odiar mulheres e amar homens, homens são criados para amar homens… E odiar mulheres (!). Por isso, ambientes masculinos geralmente têm uma aura de broderagem e humor, e os femininos são em geral rígidos, repletos de inveja e recheados de competitividade.

Provavelmente, você já sentiu que é mais simples estar entre homens (ou, pelo menos, já ouviu de outras mulheres que elas preferem estar entre homens).

Resgatar os ambientes exclusivos para mulheres é essencial para quebrar essa lógica. Porque só entre mulheres (e sem nenhum homem por perto) é possível deixar de lado a máscara e a armadura que a gente usa, dia após dia, apenas para estar em um mundo machista como o nosso – você sabe, a máscara de força, que usamos para provar ao mundo que não somos o sexo frágil, e a armadura de proteção, que precisamos usar contra as constantes violências e contra os abusos frequentes.

Apenas entre mulheres é que somos capazes de compartilhar as experiências mais íntimas, de explorar as funções mais femininas do corpo, partilhar os problemas que aos olhos do patriarcado são exagero ou “mimimi”. Só entre mulheres é possível chorar sem que o choro seja simplificado e ridicularizado como TPM – e só entre mulheres é possível desridicularizar a TPM e colocá-la como a parte importante do ciclo menstrual que ela é.

Resgatar os ambientes exclusivos para mulheres é essencial para quebrar essa lógica. Porque só entre mulheres (e sem nenhum homem por perto) é possível deixar de lado a máscara e a armadura que a gente usa, dia após dia, apenas para estar em um mundo machista com o nosso

Isso quer dizer que todas as mulheres são boazinhas e que todos os homens são horríveis? Claro que não: indivíduos são indivíduos; óbvio que existe muita mulher ruim e muito homem bom por aí. O que eu quero dizer é: ambientes exclusivamente femininos podem ser curativos e poderosos, em vez de opressores e tóxicos.

Eu te explico como: primeiro, encontre suas amigas, suas primas, suas tias, suas colegas ou qualquer outro grupo de mulheres que exista na sua vida. Daí, proponha um encontro periódico só com essas mulheres – pode ser semanal, mensal ou bimestral, o importante é que aconteça, e que aconteça sempre. Nesses encontros, faça o oposto do que esperam que mulheres façam: não vá às compras e odeie seu corpo nos provadores; converse com suas mulheres sem julgá-las. Não fofoque; aconselhe. Não fale mal da vizinha; chame ela para chorar as mágoas com vocês. Não chame a prima Maria de puta; discuta sexualidade e prazer.

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Grupos de mulheres são hostilizados há muito tempo: na Idade Média, por exemplo, encontros femininos poderiam facilmente ser condenados como “encontro de bruxas”

Vocês podem ler textos, compartilhar causos, fazer desabafos, cozinhar juntas, cantar, beber, cuidar das plantas, tirar dúvidas sobre menstruação, compartilhar prazeres sexuais, dançar, rir, chorar, reclamar, fazer carinhos, assistir e discutir filmes, aconselhar umas às outras sobre relacionamentos, enfim, fazer qualquer coisa que, na teoria, é impossível para um grupo de mulheres porque “mulheres são tóxicas” – mas que, na prática, é impossível mesmo quando estamos com homens, simplesmente porque eles não permitem.

Eu tenho pena dos homens e seus “bróders”, que jamais vão conseguir entender ou reproduzir o poder das mulheres em grupo – aliás, justamente por isso é que eles tentam se convencer e nos convencer de que os ambientes exclusivamente femininos são ridículos, tóxicos, improdutivos, infantis, loucos, perda de tempo, depravados, ou qualquer outro adjetivo que você já tenha ouvido sobre grupos de mulheres.

Homens tentam nos separar porque eles têm medo de nós. Porque juntas, não somos tóxicas: somos bruxas, poderosas, fortes, indestrutíveis. Ou, como disse a poeta feminista Adrienne Rich: “As conexões entre mulheres são as mais temíveis, as mais problemáticas e a força mais potencialmente transformadora no planeta.”

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Helô D’Angelo, 22 anos na cara e fazendo o que pode para viver do que ama: desenho e escrita. Saiba mais sobre ela aqui.

 

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