A cabeça das feministas

Qual o peso do machismo na saúde mental de mulheres que escolhem reconhecer ou bater de frente com padrões?

por Karolina Bergamo | imagem: Julian Bouhenic

Hoje de manhã, li uma matéria que falava sobre o risco de astronautas ficarem loucos. Alguns cientistas de universidades reconhecidas, como Harvard, estão preocupados com o que pode acontecer com a saúde mental de quem parte (provavelmente com passagem só de ida) rumo à Marte.

Pode parecer meio desconexo, mas ao ler esse texto pensei na saúde mental de nós, mulheres feministas, que apesar de não darmos um rolê extraplanetário, escolhemos (re)existir aqui na Terra sob a batuta do regime patriarcal.

Antes de mais nada, que fique claro: toda mulher apenas por estar viva já está lutando contra o machismo. Sabemos que a cada uma hora e meia uma mulher é assassinada no Brasil, apenas por ser mulher. Estar viva, por si só, já é uma resistência.

Acontece que estar viva para algumas de nós é só a primeira das resistências. Muitas escolhem trilhar um caminho essencialmente combativo. Escolhemos ter consciência da opressão que sofremos. Escolhemos existir fora dos padrões pré estabelecidos. Escolhemos escolher.

E foi pensando nisso que me veio o questionamento. Qual será o peso do machismo na saúde mental das que escolhem bater de frente e olhá-lo nos olhos? Outro dia assisti uma palestra do Leandro Karnal em que ele fala sobre como a ignorância pode ser uma bênção, enquanto a consciência, um peso. E, pela minha experiência, o feminismo, apesar de libertador, também pode acabar pesando uma tonelada.

Então, estimulada pela matéria dos astronautas, fui procurar estudos de cientistas preocupados com os efeitos do machismo na saúde mental das mulheres feministas. Adivinhem? Isso mesmo, zero resultados.

Até achei algumas pesquisas sobre as consequências da violência conjugal e da opressão de gênero no nosso emocional e tudo mais, mas nada que trouxesse dados significativos sobre a saúde mental de mulheres solteiras, por exemplo, que lutam contra o machismo no mercado de trabalho, na vida acadêmica, na padaria, no açougue, no transporte público ou em qualquer outro lugar que você quiser imaginar.

O pulo do gato (que os acadêmicos parecem ignorar) é que mesmo que não tenha um homem sendo escroto e me abusando na farmácia, tem o preço mais caro do Gilette cor-de-rosa que cumpre a mesma função do azul, mas custa mais porque é rosa.

E aí, quando você não dá a mínima para padrões de feminilidade e decide comprar o azul, tem que lidar com a cara estranha da pessoa que vai te cobrar no caixa, afinal, você é mulher… tem que comprar o cor-de-rosa, oras bolas.

E esse tipo de reprovação social gera ansiedade. Mesmo a mais desprendida das feministas, aquela que nem sequer compra o Gillete porque “foda-se… mulheres têm pelos lidem com isso”, passa por um processo (bem doloroso, diga-se) de desconstrução. E ele é diário.

Falando agora na primeira pessoa, tem dias em que foda-se mesmo… Não lembro nem que isso é uma questão e saio feliz da vida por aí com meus pelinhos. Só que tem dias em que, sei lá porque motivo, o julgamento alheio pesa na conta e fica difícil. E são desses dias que estou falando. Qual será o impacto disso em nossa saúde mental em longo prazo? À que tipo de doenças estamos sujeitas? Depressão, ansiedade, estresse…

Por mais que a gente saiba que esse tipo de pressão é totalmente bizarro, não dá pra ignorar o fato de que, por grande parte da nossa vida (a menos que você tenha sido criada por uma mãe feminista quebradora de tabus), fomos ensinadas que depilar as pernas é uma questão de sobrevivência, e não de escolha.

A editora-chefe da revista Az Mina, Helena Bertho, fez um desabafo que fala exatamente sobre como ela lida com questões do tipo. No texto “Sou feminista mas não consigo amar meu corpo”, ela conta que apesar de tudo o que sabe sobre os padrões de beleza, não consegue escapar da armadilha de querer se encaixar neles:

“Tento aliviar a consciência com o pensamento de que talvez as filhas das amigas possam já ser criadas com essa chavinha virada pro lado certo, sem esses padrões doidos que nos torturam”, escreveu Helena.

Ótimo exemplo da tal consciência pesada. Dá pra sentir, ao ler o texto da Helena, que essa é uma questão que lhe causa sofrimento. E temas como esse é o que não faltam na nossa vida, né, migas? Mas e aí? O que a gente tá fazendo pra prevenir que eles virem transtornos psicológicos no futuro? Não que haja uma receita mágica para afastar depressão, ansiedade etc, mas saber que pode acontecer, ficar atenta aos sinais e não forçar a barra durante o processo de empoderamento talvez ajude.

No fim das contas, é legal saber, e aceitar, que esse caminho é sim doloroso e, sobretudo, ter mais empatia com nós mesmas. Respeitar nosso próprio tempo. Não dá para sair por aí exigindo que, do dia pra noite, a gente seja uma descontruidona da porra.

Por hora, acho que o que podemos fazer é falar sobre isso. Nos reconhecer em desabafos como o da Helena e não reprimir sentimentos, porque eles “não são” feministas. Pelo menos por aqui, essa inquietação está com um adesivo amarelo dentro da minha cabeça escrito “em observação”. E assim vai ficar até que eu consiga elaborar melhor o que sinto.

Aos acadêmicos, #fikdik: os efeitos do machismo estrutural sobre a saúde mental de mulheres, feministas ou não, precisa ser estudado. Os resultados dessas pesquisas são algumas das armas que podemos usar a nosso favor nessa luta diária que é ser mulher.

karol

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