Apropriação cultural: entenda de uma vez (e não repita)

por Jéssica Rosa

Na última semana, nós tivemos mais uma polêmica envolvendo apropriação cultural. Como eu não sei ficar calada no meu canto e eu acho que temos que explicar certas coisas com muita paciência porque elas são importantes demais pra ficar na superficialidade com que vem sendo tratadas na internet, eu vou tentar, nesse texto, explicar pra vocês o que é apropriação cultural.

katyperrythisishowwedo_zps015fd5f1
Katy Perry, no clipe “This Is How We Do”

Quando estamos falando de apropriação cultural, estamos falando de dois critérios definidores: o esvaziamento da simbologia e do significado do objeto utilizado pelo suposto apropriador, e a posição desse apropriador na sociedade. Vou explicar.

Um turbante tem uma historicidade muito importante, e, dependendo da amarração que você faz, por exemplo, ele se remete a uma cultura e a um significado. Usá-lo como simples objeto de moda é esvaziá-lo totalmente de sentido. Sentido esse, que muitas pessoas do movimento negro se preocuparam em pesquisar, inclusive como forma de entrar em contato com a cultura africana de seus antepassados.

A cultura branca já é hegemônica. Não precisa lutar por esse espaço. Pode usar qualquer coisa que queira.

Ok. Ponto dois. Se um branco ou uma branca usam esse turbante vão ser tratados como poderosos e estilosos. Um negro ou uma negra, no entanto, são tratados como macumbeiros, são apontados nas ruas, ridicularizados, etc. Atendeu aos dois critérios? Sim. Estamos falando de apropriação cultural.

PORÉM, se uma pessoa branca, que faz parte do candomblé, usa o turbante, a situação muda de figura. Isso porque, o turbante passa a ter um significado para ela, ou seja, não há esvaziamento de significado, ainda que seja muito mais fácil para ela usar esse símbolo que uma pessoa negra. Não é apropriação, vida que segue.

Tudo bem, Jéssica, mas você acha certo uma pessoa parar a outra na rua, humilhá-la, etc, por causa disso?

iggylarge1
A apropriação cultural não acontece só com a cultura negra, mas com diversas culturas não-brancas ao redor do mundo – a indiana, apropriada aqui por Iggy Azelia, é um exemplo.

Vamos por partes. Quantas denúncias de racismo, você, pessoa que está lendo, já recebeu em sua vida? Todo mundo ao redor do denunciante aceitou como verdade absoluta? Porque eu, todas as vezes que denunciei e vi ser denunciado, só vi um monte de gente perguntando, “mas será que não foi brincadeira?” ou “será que você não entendeu errado?”. Então me explica por que os bonitos da internet e toda a mídia tá aceitando o relato da menina como verdade absoluta, sem exigir provas a torto e a direito? Privilégios, né, amores.

É por isso que entender o que é apropriação cultural e suas consequências é muito mais importante agora que ficar em debates rasos sobre um assunto tão importante e complexo

Mas, tudo bem, vamos aceitar como verdade, e seguir em frente. Eu conheço um total de zero pessoas negras que foram agressivas com pessoas brancas de turbante até hoje. Porém, eu conheço uma infinidade de pessoas negras que receberam “dicas” bastante agressivas sobre como e o que deveriam vestir e usar. Pois é. Se aconteceu, foi um caso extremamente isolado, que não pode simplesmente se transformar em um super manifesto pela adoção de turbantes por pessoas brancas que nunca conhecerão o significado daquilo.

Se eu acho que é certo abordar uma pessoa agressivamente? É claro que não, mas eu prezo pelo famoso bom senso, não é mesmo? Antes de usar qualquer coisa que não pertença a uma cultura hegemônica, se pergunte: “tem gente que tá lutando pra poder usar isso? Tem gente que precisou de anos de empoderamento e de pesquisa pra se sentir bem usando isso? Ao usar isso eu sou mais valorizada ou valorizado que outra pessoa de um outro grupo racial ou social seria se usasse?”.

palavra-chave-turbantes-para-mulheres-brancas
Existe uma lenda racista dentro do jornalismo: pessoas negras na capa não vendem revista. Agora, pessoas brancas usando turbantes? AÍ SIM! (nota da editora)

Pois é justamente esse o significado da apropriação cultural. Veja bem, o que você aprendeu sobre negros na escola? Provavelmente, eles só apareceram durante a escravidão, como seres que estavam ociosos na África, esperando pelos portugueses, passivamente. Com a abolição, em 1888, eles somem, viram fumaça e aparecem sei lá quando depois, se aparecem.

Se aconteceu, foi um caso extremamente isolado, que não pode simplesmente se transformar em um super manifesto pela adoção de turbantes por pessoas brancas que nunca conhecerão o significado daquilo.

Nossa história é negada todos os dias e é uma luta conseguir retomá-la. Esvaziar nossos símbolos históricos de significado nega todo esse esforço. A cultura branca já é hegemônica. Não precisa lutar por esse espaço. Pode usar qualquer coisa que queira. Não é uma questão de eu dizer aqui se pode ou não pode um branco usar turbante. A sociedade já definiu que pode. Cabe eu tentar falar de bom senso.

É claro que esse não é um debate individual. Não é sua culpa, nem da menina com câncer. É culpa de uma sociedade desigual, injusta e racista que nos apaga diariamente. Se a sociedade fosse igualitária e não apagasse nossa história e nossa vivência, se não nos jogasse para as margens em todos os espaços possíveis e imagináveis, eu nem precisava estar fazendo esse texto.

Mas não é assim. É por isso que entender o que é apropriação cultural e suas consequências é muito mais importante agora que ficar em debates rasos sobre um assunto tão importante e complexo. Não tem opinião sobre isso.

Veja bem, o que você aprendeu sobre negros na escola? Provavelmente, eles só apareceram durante a escravidão, como seres que estavam ociosos na África, esperando pelos portugueses, passivamente. Com a abolição, em 1888, eles somem, viram fumaça e aparecem sei lá quando depois, se aparecem.

Apropriar-se culturalmente não é uma atitude de valorização de nada. É chato ter que bater na mesma tecla e é injusto que, enquanto eu tenho que lutar por isonomia salarial por raça, pelo respeito da polícia, pelo fim do genocídio negro e por vagas nas universidades, gente branca e privilegiada possa estar lutando pelo direito de usar um pano na cabeça.

Não se enganem. Se você não pesquisou e se não faz sentido para você, é apenas isso: um pano na cabeça. Para mim, no entanto, é a força de me sentir parte da história que me negaram durante toda a vida.

Saiba mais sobre o assunto:
16809857_1592545050761552_412483445_n
Jéssica Rosa tem 19 anos, é estudante de história da Unicamp e feminista negra. Tem interesse pela história da África contemporânea e pelo movimento negro no Brasil do século XX.
Anúncios

o que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s