Crônica: virgindade

por Amanda Moresco
Eu sei, eu sei… Meus desabafos sempre envolvem assuntos como calcinhas fio-dental, soutiens, clubes de striptease e tudo mais que possa me colocar em uma situação constrangedora. A questão é: eu não sei porque as pessoas fazem tanto mistério quanto a esses assuntos. É como se mulheres tivessem que manter em segredo uma dupla identidade com depilação, menstruação, sexualidade e roupas íntimas. By the way, o assunto de hoje é virgindade.
Eu nunca fui o tipo de guria que se interessou profundamente por sexo durante a adolescência. Para falar a verdade eu estava mais preocupada em comer pão com Mumu e assistir Two and a Half Men. Comparando-me com minhas amigas, eu sempre fui a “atrasada”. Eu demorei para menstruar, nunca tinha um ficante e sempre ficava de fora dos jogos de “eu nunca”, afinal, eu não tomava nenhum shot já que minha vida sexual era zero – ou -3.
Você acreditaria se eu dissesse que sofri bullying por ter sido virgem por um bom tempo? Isso mesmo que você está lendo: por ser virgem! Quer dizer, você sofre bullying por transar demais e, também, por transar de menos. Com certeza está escrito em algum lugar que eu não conheço um manual de como não sofrer bullying pela sua vida sexual. Eu imagino regras como “Você deve dar três vezes por semana se estiver namorado; uma, se estiver solteira. Se passar de uma, você será taxada como ‘fácil, dada e vazada’; se for menos que isso, ‘frígida, mal-comida e santinha’.” – por favor, entendam meu tom de sarcasmo até aqui.
As pessoas acham que ser virgem é como se você fizesse parte de algo incomum e que merecesse destaque. Até hoje não entendo porque todas as vezes que meus amigos me apresentavam para alguém, eles falavam “Essa é a Amanda, ela é virgem!”. É como se essa informação fosse realmente necessária. Eu me arrependo de não ter feito um cartão de visita na época escrito “Amanda Moresco: extrovertida – criativa – virgem”.
A característica “virgem” toma conta de sua identidade, sendo ela mais importante que você mesma. Eu imagino pessoas conversando sobre mim da seguinte forma:
– “Ei, sabe a Amanda?”
– “Amanda… Que Amanda?”
– “A virgem!”
– “AH, CLARO! Lembrei”
Quando entrei na faculdade, eu ainda era virgem e evitava falar sobre isso pelo simples fato de ser algo extraordinariamente incomum, e isso me incomodava. Eu estava me sentindo muito pressionada e pensava “eu tenho que dar de uma vez!”, e não pelo fato de querer ter relações sexuais, e sim porque “miga, como assim tu ainda é virgem?”.
Uma vez, no bar da faculdade, estávamos em uma roda amigas esperando a aula começar. De repente, o assunto “sexo” veio à tona, e eu já comecei a ficar nervosa, pois minhas amigas ainda não sabiam desse meu segredinho. Todas falavam sobre posições e detalhes que eu não fazia noção de que eram possíveis. Quer dizer, frango assado? Sério que isso é uma posição sexual?

Enquanto isso, eu ouvia calada tentando aprender algo em meio àquela selva de pererecas ativas. Quando todas elas notaram que eu estava quieta demais, perguntaram-me “tá, Amanda, fala aí também”. Foi quando eu resolvi abrir a boca e falar a verdade: Err… Eu sou virgem. Não tenho uma posição favorita. O que era uma selva de pererecas falantes, tornou-se em um silêncio infinito e olhares paralisados em minha direção. No mesmo instante eu pensei “puta merda, deveria ter dito que era o frango assado”.

Eu não vejo nenhum problema em ser virgem, e muito menos e em ter uma vida sexual potencialmente ativa, até porque, desde quando isso virou um problema? Só quero que você entenda que a palavra “puta” não deveria existir. Ela deveria ser definitivamente substituída por mulher-bem-resolvida-com-sua-berenice. Na verdade, eu tenho mais o que fazer a me preocupar com a vida sexual alheia. Tem um pão e um Mumu bem bom me esperando lá em casa, e é para lá que eu vou!

* Texto originalmente publicado aqui.
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Amanda Moresco é blogueira, fotógrafa e colunista. Ama comida mexicana, witbier e cabelos coloridos. Fala que gosto de Inverno, mas quando chega quer Verão.
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