Guia rápido para ser um marido/filho/pessoa melhor em casa

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foto: snapwiresnaps

Antes de qualquer coisa, eu sei que este blog é direcionado a nós, mulheres. Eu concordo muito com a ideia de que nosso tempo é precioso e que empoderar duas mulheres ao invés de ensinar feminismo aos homens é melhor. Mas eu escrevo sobre relacionamentos (boa parte dos relacionamentos do nosso mundão é heterossexual) e acredito que algumas vezes é necessário abrir uma exceção pelo bem da praticidade do dia-a-dia.

Então venho, através deste artigo, fazer o papel de explicar, sem muitas delongas, um passo a passo de sobrevivência para o homem pro-feminismo (Ah, se você ainda se entitula homem feminista, já abre esse outro artigo aqui pra ler depois deste!) – na esperança que isso ajude as mulheres à volta dele, reduzindo o tempo perdido em tarefas e discussões do dia a dia, e quem sabe sobrando um tempo para elas para empoderarem outra mulher (ou a si mesmas).

A partir de agora, então, conversarei diretamente com os homens. Mulheres, não me levem a mal.

Então você é homem, se considera a favor do feminismo. Entende que lugar de mulher e onde e como ela quiser. E veio parar aqui porque alguém te enviou esse link, ou porque se interessa em ser um cara melhor. Então vamos lá. Imagine esta cena, acredito que ela não é muito rara – ou não foi muito rara – na sua vida: é fim de semana, está na hora do almoço. Um calor considerável e o ventilador está ligado. Você está sentado no sofá ou deitado na cama, rolando o facebook ou conversando com outra pessoa (ou as duas coisas). Tem alguém na cozinha – você até já foi lá perguntar se precisava de ajuda e ela, no máximo, falou “corta esta cebola pra mim” – você picou a cebola e se assentou onde está agora. Alguém toma a iniciativa de arrumar a mesa – seja começando a arrumação ou pedindo para que a mesa seja arrumada (no último caso, provavelmente a pessoa que estava na cozinha).

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“espero que seja lasanha”

Depois de alguns minutos, esta mesma pessoa sai da cozinha, um pouco suada, talvez secando as mãos num pano de prato, tirando um avental, e anuncia que o almoço está pronto. E segue colocando a comida à mesa – provavelmente com a ajuda dos outros presentes na casa. Depois do almoço, todos se levantam e levam a louça suja para a cozinha de volta – cozinha esta que está praticamente limpa, com exceção de uma ou duas panelas e algumas colheres de pau. Começa então a saga da lavagem de louça onde, possivelmente, uma pessoa lava enquanto outra enxuga e outra guarda.

Acabada a louça, você se senta no sofá novamente – ou no quarto -, liga a televisão e tira seu cochilo da tarde do fim de semana. Afinal, a noite anterior foi boa, recheada de Netflix ou balada, e você definitivamente não teve tempo para dormir suas 8 horas antes do almoço. Um pouco depois você acorda, tira o lixo ou arruma a cama – a pedido da mesma pessoa que estava na cozinha mais cedo.

Então, toma seu banho, se arruma e parte para a balada – ou liga a Netflix pronto pra próxima maratona de séries. No dia seguinte, com dor de cabeça por conta da bebedeira ou das poucas horas de sono, você não hesita em pedir para que ela te leve uma aspirina na cama ou um chá daquilo-lá-que-ela-faz que te levanta na hora, e depois de lavar outra louça naquela semana, você escreve ou lê e compartilha um textão no Facebook de um outro homem sobre como é importante dividir as tarefas domésticas ao invés de ‘ajudar’, com um sentimento gostoso de missão da vida cumprida.

Pareceu familiar ? Com alguns ajustes, provavelmente sim.

Geralmente a pessoa na cozinha é sua mãe, avó, namorada, sogra ou alguma mulher da sua vida, não é? E ela provavelmente sempre termina esses dias muito cansada – provavelmente estatelada no sofá ou na cama – diferente de você, que termina o dia praticamente começando outro. Mas ela gosta que seja assim, ela faz questão que a gente almoce juntos e comida feita em casa de fim de semana, por mim eu comeria um miojão e tava tudo certo, ou a gente comprava um pê-éfe ali no boteco e não tinha nada pra se preocupar de fazer nem limpar nada.

E sim, tenho certeza que ela gosta disso, mas que também reclama ou te manda fazer muitas coisas: lavar a louça, limpar a mesa da sala, tirar o lixo, ariar aquela panela; porque nós, mulheres, aprendemos a olhar por cima de algumas coisas, e ver o “lado bom” ou um “próposito que valha a pena” – geralmente o amor. E eu sei que você, apesar de fazer mais ou menos a contragosto, gosta de se exibir pra si mesmo, no Facebook ou na conversa com seus amigos, o quanto você é prestativo em casa e faz a sua parte

E eu vim aqui hoje para te contar que, apesar de fazer a sua parte, você não faz tudo que deveria ou poderia para a rotina dessa casa e desse relacionamento – seja qual for a mulher da qual estamos falando. Resumindo: mesmo fazendo sua parte, você não faz sua parte.

Vamos analisar parte do que eu descrevi e em cada trecho vou te dar dicas valiosíssimas para ser um homem melhor na sua convivência com uma mulher, especialmente quando esta mulher é sua mãe ou sua esposa, ou algumas vezes, sua irmã.

1) tem alguém na cozinha – você até já foi lá perguntar se precisava de ajuda e ela, no máximo, falou “corta esta cebola pra mim”

Veja só o primeiro sinal da sua abertura pró-feminismo. Esta mulher está engajada numa tarefa doméstica e você, preocupado, perguntou se ela precisa de ajuda. Ela respondeu que não, ou que precisa sim que você faça algo pequeno – cortar uma cebola (que você obviamente cortou muito grande), guardar um copo no armário, ou mexer um legume na panela porque ela estava ocupada fazendo outra coisa ou precisava ir ao banheiro. Finda a sua parte, você pode ter até perguntado “mais alguma coisa?” mas provavelmente ela disse não – ou te entregou outra tarefa pequena, como tirar o refrigerante do freezer, ou até colocar a mesa de almoço. Veja bem, esta mulher deve estar há pelo menos uma hora na cozinha – quando não há 2, 3… Não é muita ingenuidade sua achar que ela de fato não quer ajuda em mais nada?

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Ela não precisa de ajuda. É óbvio dá conta do recado – se tem algo que nós mulheres damos é conta do recado. Mas não necessariamente ela quer dar conta: é só que, ela estar lá dando conta disto sozinha – ou com ajuda de outra mulher- é uma tradição, falta de opção ou simplesmente foi sempre assim e ela se dá ao luxo de ficar feliz quando você pergunta o que fazer quando eventualmente você percebe que a barra pode estar pesada. Mas se ela quer ajuda ela não deveria pedir ajuda? você poderia me perguntar, um pouco confuso. Sim, ela deveria. Mas isso é um papo que eu vou ter com ela em outro post e não nos cabe falar disso agora.

Vou te dar a primeira dica: nunca pergunte se ela precisa de ajuda. Pergunte “o que eu posso fazer? Esta mudança tão simples no discurso vai te dar muito mais coisas para fazer neste sábado, porque mesmo de maneira inconsciente, ela receberá sua disposição a respeito desta tarefa de outra maneira: como uma parceria e não como se você fosse um cabo do exército esperando uma ordem do general.

Se ainda assim ela negar sua prestação de serviço, cabe, caso você conheça a receita ou o passo a passo do que ela está fazendo, se voluntariar para cortar a cebola, por exemplo. E ainda é possível que ela negue sua ajuda porque “você sempre pica a cebola muito grande” ou “não sabe refogar a berinjela”. Neste caso, entenda esta fala dela como uma dica para que se dedique a aprender como cortar uma cebola menor ou refogar uma berinjela o mais rápido possível ao invés de se resignar e ficar frustrado pela falta de empatia dela sobre sua disposição pra ajudá-la. E caso você não saiba o passo-a-passo do que ela está fazendo, que tal aprender?

2) Acabada a louça você se senta no sofá novamente – ou no quarto – liga a televisão e tira seu cochilo da tarde do fim de semana

As chances são que, enquanto você vai dar sua relaxada, porque a semana foi longa e a noite foi louca, a mesma mulher da cozinha ainda não tenha sentado por mais tempo que a duração da refeição. Ela varreu a cozinha, fechou o lixo, limpou a pia, o fogão. Tirou a roupa do varal ou da máquina, colocou mais roupa para lavar. E antes de se envolver com o almoço, enquanto você ainda dormia, ela provavelmente varreu a casa, substituiu as toalhas do banheiro… enfim, pode ter certeza que o almoço não foi a única tarefa doméstica do dia dela – mesmo que a semana dela tenha sido tão longa e a noite tão louca quanto a sua.

Então minha segunda dica é: enquanto ela não sentar para descansar, ninguém mais senta. Mas minha mãe/esposa/sogra é uma maluca obcecada por limpeza, o tempo todo ela está limpando e arrumando, eu não quero ser assim. Ela só é assim porque ninguém mais na casa é. Se todo mundo fizer um pouco, ela vai agradecer muito ter um tempo para não limpar – e cuidar de si, por exemplo -mas uma tarefa é uma tarefa e nós fomos criadas para não descansar enquanto ela não está acabada e não confiar que outras pessoas vão benevolentemente terminar por nós se largamos a tarefa inacabada. Então eu repito, enquanto ela não sentar, você também não senta!

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vocês deveriam ser parceiros, no final das contas, não é?

Olha só, eu já fiz essas duas dicas e ela me disse “nada” todas as vezes. Não é culpa minha que ela fica lá limpando tudo fazendo tudo toda obcecada e depois ainda fica piririca da vida comigo porque eu não faço nada se eu tava lá parado perguntando que que tinha para fazer e ela não me deu nada pra fazer.

Como eu disse antes, ainda tenho que ter um papo com ela sobre pedir e aceitar ajuda. Mas agora estamos falando sobre você e sobre como as suas atitudes podem fazer a diferença. Então lá vai a terceira dica pra responder essa sua questão.

3) Um pouco depois você acorda, tira o lixo ou arruma a cama – a pedido da mesma pessoa que estava na cozinha mais cedo.

Olha só. De novo aqui você sempre precisando de uma atitude ou pedido dela para fazer alguma coisa. Você não se cansa de ser conformado deste jeito? Minha próxima dica é: saiba quais são as tarefas que o seu lar precisa para funcionar da melhor maneira possível. Se adiante no que você for capaz, aprenda o que não for. Tire o lixo antes dela pedir. Faça a cama. Coloque a toalha no lugar certo. Lave a louça antes da próxima visita dela à cozinha. Quando a roupa estiver seca, tire-a do varal, e se é costume de vocês passar a roupa, então passe, e dobre e guarde – especialmente as suas próprias.

Trabalho doméstico é horrível de ser feito, principalmente porque não tem fim. Cuidar de um espaço habitado e mantê-lo habitável é o próprio mito do Sísifo (aquele carinha grego que foi condenado a levar a pedra enorme montanha acima, mas quando ele estava quase lá, a pedra rolava montanha abaixo e ele tinha que recomeçar). As louças se sujam, os cabelos caem no chão e entram num caso de amor com a poeira, o fogão fica um nojo e os armários da cozinha engordurados com uma rapidez impressionante.

Então adquira a capacidade de prever e resolver, com base na rotina já existente por aí, tudo quanto for possível. Não, não é fácil. Mas alguém tem que fazer e é melhor dividir tudo sem que nós tenhamos que ficar brigando e pedindo o tempo todo. Porque, uma vez que criamos uma rotina, é mais fácil segui-la do que ter que parar e mandar ou discutir com outra pessoa o que ela tem que fazer.

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representação gráfica de uma pessoa fazendo uma tarefa doméstica

4) No dia seguinte, com dor de cabeça por conta da bebedeira ou das poucas horas de sono, você não hesita em pedir para que ela te leve uma aspirina na cama ou um chá-daquilo-lá-que-ela faz que te levanta na hora.

Você sabia que 75% das mulheres têm cólicas menstruais, né? Provavelmente, alguma delas na tua vida já reclamou disso para você. Mas a maioria delas (algumas têm cólicas realmente perturbadoras, não é delas que estamos falando) se levanta com cólica mesmo, faz todas estas tarefas que você nem sabe que existem, toma um remédio, trabalha, estuda e dificilmente vai pedir ajuda se não for um caso de muita, muita dor. E você não consegue manejar nem uma ressaca.

Daí, minha quarta dica: seja um adulto. – você vai me questionar – mas eu sou um adulto, eu tenho meu trabalho, eu pago uns boletos, tenho até um cartão de crédito com meu nome escrito nele. Sim, tenho certeza disso… mas cá entre nós, você não tem a menor ideia do que tem para comer pronto na geladeira (ou no freezer), se precisa comprar arroz, onde a aspirina está guardada, se ela está no fim, ou onde você colocou suas chaves né?

E por incrível que pareça, ela sabe, né? Pois é… Que tal começar a prestar atenção consciente ao seu redor ao invés de depender dela para a sua rotina básica? É um esforço tremendo se lembrar de tudo isso e você está jogando deliberadamente tudo nas costas dela, se comportando como um verdadeiro dependente.

Mas eu não faço nada disso de propósito e a ressaca costuma ser muito grande. Quanto à ressaca, tenho certeza que se você não exagerar tanto na próxima e beber uns copos de água entre os drinks não vai ficar tão terrivelmente paralisado de dor depois da próxima balada. E, caso esta mulher da tua vida, da qual estamos falando, seja uma mulher bem… estressada, obcecada… Garanto que se você aliviar o quanto exige dela indiretamente nessas pequenas coisas em pouco tempo se tornará uma pessoa muito mais tranquila.

Então, se você não consegue fazer isso tudo por si mesmo, para sentir o gostosinho sentimento de ser dono de si – e para acabar com a dor de cabeça pós balada – faça por ela. Faça para que o relacionamento não se deteriore (porque convenhamos, ninguém aguenta por muito tempo com sorriso no rosto ter que ser responsável por tanta coisa ao mesmo tempo, ainda mais quando coisa é outra pessoa. Mesmo mães têm limite e provavelmente você já encontrou o da sua algumas vezes na adolescência). Divida com ela as responsabilidades da casa e tome para si suas próprias responsabilidades – e se for capaz de fazer isto com leveza, melhor ainda, para ambos: é sempre bom compartilhar momentos, mesmo que eles sejam plena obrigação e sofrimento.

Então calma, vamos recapitular porque foi muito textão até agora. Primeira coisa, se mostre disponível de verdade, e mude suas palavras e atitudes de forma que ela entenda que você está de fato disposto a fazer sua parte, mesmo que não saiba qual sua parte – “o que posso fazer?” ao invés de “precisa de ajuda?”. Segunda coisa, exerça a empatia de não “ir relaxar” enquanto ela mesma não estiver relaxada. Não sente enquanto ela não sentar. Terceira dica: saiba quais as tarefas e a rotina necessária na sua casa e se adiante a fazê-las, seja mais proativo. Quarta dica: Seja adulto, pegue as responsabilidades para si. Seja capaz – e exerça esta capacidade diariamente – de viver sozinho, e não apenas de sobreviver.

5) você escreve ou lê e compartilha um textão no facebook de um outro homem sobre como é importante dividir as tarefas domésticas ao invés de ‘ajudar’, com um sentimento gostoso de missão da vida cumprida.

A quinta e última dica é: não se vanglorie por ser decente – talvez só um pouquinho, nas primeiras vezes que acertar toda a rotina, não tem problema – mas divida a experiência com os amigos e estimule-os a serem homens melhores. Se você seguir todas estas dicas, você se tornará um homem muito diferente da maioria, mas isso não quer dizer que passou de ano com louvores. Até agora, meu querido, você e todos os outros estava passando apenas por conselho de classe. Não espere estrelinhas na agenda, parabéns ou qualquer coisa que o valha, e entenda que, apesar de ser gratificante para nós dividir algumas cargas desta vida com vocês, você está apenas fazendo metade do que essa mulher fazia antes em casa.

E, quando você sentir o peso desta metadinha, talvez consiga entender melhor um pouco estas mulheres da sua vida, e quem sabe vai ser capaz de transmitir aos bróders a importância de dividir toda esta carga que até então era invisível para você. Exercer a empatia e se sentir dono de si é muito gostoso e recompensador – e não tem nada errado com o sentimento de missão cumprida, desde que a missão esteja cumprida de verdade. Só que você foi moldado de uma forma diferente da nossa e terá que lutar contra seus hábitos para se tornar um companheiro melhor.

Sei que soa difícil, chato, e nossa senhora agora tenho que fazer tudo isso para ser a favor do direito das mulheres? Mas cara, se você não mudar porque quer, a vida vai te empurrar pra esse lugar, porque daqui pra frente não vai mais ter mulher dando colher de chá para vocês, mesmo que você seja dos pro-feminismo bem comportados e intencionados. Intenção sem ação é só e somente só uma intenção – e intenção não ajuda ninguém, mesmo que esse alguém não precise de ajuda.

Ah, sim! Caso você tenha filhos, nenhuma lição de moral vai ser melhor que o exemplo do pai presente que divide de fato os fardos com a mãe e respeita o trabalho dela dentro e fora de casa. Assim você já contribui para um mundo melhor com uma filha mais empoderada e um filho mais responsável com muito menos esforço.

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Raquel Abe está num relacionamento complicado consigo mesma há 28 anos, curte hackear receitas e quando dá na telha escreve umas besteiras pra tentar se encontrar.
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