Afinal, o que é violência obstétrica?

por Beatriz Cuvolo

“Era para minha filha nascer entre o dia 17 a 23 de janeiro, mas a lua mudou e estava muito calor. No dia 10 eu fui para o hospital, estava com a pressão baixa. Uma médica me atendeu, me deitou e disse que ia fazer um tal exame de toque, eu nunca tinha ouvido falar naquilo, não sabia o que era. Mas também, tinha só 18 anos.

O tal exame era para ver minha dilatação, mas estava tudo normal e eu voltei para casa. Dia 11 comecei a sentir as contrações, como aquilo doía. Voltei ao hospital, tinha passado o dia todo com dor, sofri demais, acho que paguei todos os meus pecados ali.

Eu não tinha mais lágrima nos olhos, era um choro seco. Olhava para os lados e via meninas mais novas que eu, chorando, sozinhas. As enfermeiras eram grossas, elas nos maltratavam e falavam assim:

Não chora não, porque na hora de fazer você não chorou, agora aguenta.

A cada troca de turno vinha um médico com mais uns oito estudantes. Ele me mandava abrir as pernas, colocava a luva e passava o liquido, essa cena nunca saiu da minha cabeça. Eu estava sendo exposta sem sequer me pedirem autorização. Ele colocava a mão em mim, abria minhas pernas e chamava todos para olhar.

Eu já não tinha mais pudor naquela hora, estava com tanta dor, tão fragilizada e com medo de sofrer alguma humilhação por parte deles. Estava completamente sem reação, faria o que quisessem ali. Isso se repetiu mais de cinco vezes no mesmo dia. O médico disse que o parto teria que ser normal, a cesárea gerava muitos custos ao hospital.

Ao meu lado tinha uma moça gritando de dor. Uma enfermeira entrou no quarto com uma agulha de tricô e enfiou nela para estourar a bolsa. Naquela hora eu pedi ajuda mentalmente para minha avó, pedi para ela não deixar aquilo acontecer comigo.

Minha bolsa estourou, mas não tinha médico no hospital, então eu esperei. Depois de muitas horas a enfermeira entrou no quarto e mandou eu me levantar e me vestir, colocar a touca e calçar as sapatilhas. Eu não conseguia, pedi ajuda e ela foi extremamente rude.

Quando minha filha nasceu, ela não chorou, podia ter morrido por ter ficado tanto tempo dentro da barriga sem o líquido” – R.

Infelizmente, a história de R. é parecida com a de muitas mulheres. Essa situação tem nome: se chama violência obstétrica, e pode ocorrer durante a gestação, no momento do parto (que inclui o trabalho de parto, o parto em si e o pós-parto), e no atendimento de complicações de abortamento.

Essa violência pode ocorrer de diversas formas:

  • Impedir que a mulher seja acompanhada: toda mulher tem direito a um a acompanhante desde o momento que entra no hospital para dar à luz até o momento da sua alta. Existe uma lei federal que dá esse direito para toda mulher, negar isso é crime.
  • Violência emocional, como a enfermeira que mandou a mulher parar de gritar, porque na hora de fazer ela não gritou, entre muitas outras frases.
  • Ocitocina Sintética: este hormônio sintético é usado para “acelerar” o trabalho de parto. O problema é que o medicamento acarreta em um efeito cascata de sofrimento e outras intervenções, que poderia ser evitado sem a aplicação do hormônio artificial.
  • Manobra de Kristeller, que não é recomendada em nenhum tipo de parto. Um profissional deita em cima da mulher e pressiona a parte superior do útero para agilizar a saída do bebê. A técnica pode causar lesões graves para as mães e os bebês podem sofrer traumas encefálicos.
  • Tricotomia e Enema: o primeiro é a raspagem dos pelos pubianos; o segundo, lavagem intestinal. Ambos são procedimentos que não devem ser adotados com frequência, pois são desnecessários – e a raspagem dos pelos pubianos pode facilitar uma série de doenças.
  • Exame de toque: além do risco de infecções é um processo doloroso e incômodo. Deve ser feito de forma criteriosa e sempre com o consentimento da gestante.
  • Falta de atendimento no abortamento: a mulher que sofreu um aborto, independente dele ter sido provocado ou espontâneo, deve ter atendimento médico adequado, sem qualquer tipo de julgamento ou comentários preconceituosos.

O momento de dar à luz é delicado, envolve milhões de questões, dores e sentimentos. Toda mulher merece dignidade nesse momento, respeito, atenção e diálogo são fundamentais.

Violência obstétrica é crime e você pode denunciar. Conversem com as mulheres que estão a sua volta, as informe, as ame, cuidemo-nos.

Nós por nós!

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Beatriz Cuvolo, 19 anos. Jornalista em formação. Apaixonada por contar histórias de pessoas reais para pessoas reais. Em busca do que é belo e vulgar.
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