Precisamos aprender a pedir

por Raquel Abe

Num texto passado tive uma conversa com os homens sobre como eles devem prestar uma atenção empática a nós mulheres no que diz respeito às tarefas domiciliares. Falei sobre como muitas vezes nós não queremos pedir (e pedir e pedir) para que eles façam o mínimo na manutenção do lar, especialmente quando a disponibilidade masculina é visivelmente condicional, emburrada, mal-feita. Disse que muitas vezes nem chegamos a pedir que eles façam o que devem, porque ter que descrever com detalhes cada tarefa, ensinar e fazer um papel materno, ensinando homens adultos a fazerem o mínimo é, muitas vezes, mais cansativo do que fazer a tarefa em si.

Mas hoje a conversa é entre nós duas. E vamos falar sobre essa coisa desconfortável que é pedir.

Muitas vezes nós associamos o ato de pedir por algo como uma brecha para nossas fraquezas. Como um grande acusador de nossa dependência: nas tarefas em casa, no amparo emocional ou até mesmo no trabalho. Não só sentimos isso como geralmente respondem aos nossos pedidos por esse viés negativo. Uma chefe que delega tarefas demais para sair no horário do contrato é irresponsável e não dá conta do trabalho (deve ter chegado neste posto transando com algum superior). Uma mulher que pede que o parceiro olhe para suas emoções é uma mulher dependente, carente  – e ninguém quer estar com uma mulher carente. Uma mulher que pede ajuda nas tarefas domésticas é quase uma não-mulher, por que afinal foi isso que ela nasceu para fazer e nem consegue dar conta do recado?

Nossa formação foi, aos poucos, nos moldando para sermos supermulheres, e ainda nos ensinam que há um grande mérito em dar conta de tudo: somos admiradas por essa capacidade e retratadas na mídia desta forma o tempo todo. (Mas ninguém mostra que por trás de uma supermulher tem alguns subhomens ou uma infraestrutura social e familiar deficiente.)

O ponto é: Você não precisa dar conta de tudo e tenho certeza que existe parte das tarefas do seu dia a dia que só são resolvidas por você porque alguém não tomou conta disso antes que chegasse nas suas mãos. E existem três motivos básicos para que isso aconteça: A pessoa não realizou o que deveria porque também está sobrecarregada/desorganizada, a pessoa não realizou porque sabia que você ia dar conta ou a pessoa não realizou porque não sabia que a tarefa existia. No primeiro caso, precisa-se pensar numa reestruturação geral do que estiver acontecendo para que ninguém mais se sinta sobrecarregado. Mas no segundo e no terceiro casos, apesar da responsabilidade não ser sua (mas acabar sendo no fim do dia) , cabe fazer essa coisa incômoda que é pedir.

E quando eu falo sobre pedir, não estou dizendo para você se ajoelhar e implorar por ajuda porque peloamordedeus a situação está impossível. Pedir é sentar com a(s) outra(s) pessoa e requisitar atenção ao tópico que te aflige ou sobrecarrega, conversando como adultos e criando uma segurança sobre quais as responsabilidades de cada parte. O meu ponto é que, apesar de sermos retratadas, vistas e “admiradas”por sermos multifunção e darmos conta de tudo, nós não precisamos- e não devemos – agir dessa forma.

Embarcar no mito da supermulher permite aos homens que sejam displicentes.

E provavelmente vai alimentar em você a necessidade de controle e vai fazer com que você trate seu parceiro (ou colegas de trabalho) como um filho – ou como uma criaturinha frágil e irresponsável que precisa de cobrança toda vez que recebe uma tarefa.

Mas, se seu parceiro é de fato parceiro ele estará disposto a ouvir o que você tem a dizer e iniciar um desenvolvimento interno para se tornar uma pessoa adulta. Lembre-se que nós somos criadas desde cedo para darmos conta de tudo, enquanto eles são criados para deixar tudo na nossa mão: não assuma este papel que lhe foi dado. Essa transição pode ser conflituosa, difícil e regada à muito bate-boca, se ele estiver disposto a amadurecer – e você estiver disposta a abrir mão do controle por um tempo – tem tudo para dar certo.

Sei que alguém vai entrar nesse texto e dizer que estou passando pano para macho, que nós não temos que ter paciência e ensinar nada para eles, que eles que se virem sozinhos e aprendam a serem responsáveis, etc. E eu concordo com essa fala, de uma maneira geral. Mas quando tratamos de relacionamentos, onde a compreensão e a parceria deveriam ser a regra, acredito que um pouco de paciência e diálogo não fazem mal a ninguém – se fazem, me pergunto o que estão fazendo neste relacionamento, afinal. O mais importante de tudo isso é que nós não somos obrigadas a nada. Nem a dar conta de tudo e nem de manter um relacionamento com alguém que não tem maturidade o suficiente para ouvir e mudar atitudes que ditam o tom do relacionamento.

1017232_10201323956642668_316033484_n
Raquel Abe está num relacionamento complicado consigo mesma há 27 anos, curte hackear receitas e quando da na telha escreve umas besteiras pra tentar se encontrar.
Anúncios

o que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s