Entrevista: Aline Kátia Melo, do coletivo Nós, Mulheres da Periferia

por Nathalia Gorga

Encontrei Aline Kátia Melo, jornalista co-fundadora do coletivo Nós, Mulheres da Periferia quando estava pesquisando avaliadoras para o meu Trabalho de Conclusão de Curso, sobre mulheres empreendedoras das periferias. Ela era perfeita para avaliar o nosso trabalho, pois, além de jornalista, Aline Kátia conhece muito bem o universo que envolve a periferia paulistana e as pessoas que moram nessas regiões.

Nos conhecemos pessoalmente no dia da banca. Aline Kátia, que gosta de usar o nome duplo porque, como ela diz, “tem muita Aline no mundo”, chegou na sala de apresentação com suas anotações envoltas pelos braços, com passos calmos e, à primeira vista, me pareceu tímida. No entanto, quando começou a compartilhar suas impressões sobre o trabalho, que dizia respeito também a sua realidade, me deu um banho de água fria e mostrou que, como profissional, era uma mulher segura, com um andar leve e uma fala forte, uma especialista sobre o tema, alguém que, além de trabalhar com ele, o vivenciava diariamente, então tem propriedade para debater, comentar e criticar.

Hoje, tive o prazer de entrevistá-la por vários bons motivos (sua vivência nas periferias de São Paulo, seu contato frequente com mulheres incríveis e anônimas, envolvimento com projetos culturais direcionados para mulheres e etc), mas um é especial: o documentário Nós, Carolinas, criado e dirigido pelo coletivo – que, aliás, é integrado por seis jornalistas e uma designer -, e financiado pelo VAI (Programa de Valorização às Iniciativas Culturais) da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Ele teve sua pré-estreia no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, e mostra as narrativas de quatro mulheres, de 18 a 93 anos, de regiões periféricas diferentes.

Confira a entrevista:    

Eu, tu, elas: Esse ano o coletivo Nós, Mulheres da Periferia completou 3 anos. Como ele começou?Aline Kátia Melo: Sim, completamos três anos. Nunca imaginamos toda a repercussão desde 2012. Todas as integrantes são moradoras de bairros periféricos e eram correspondentes de seus bairros no Blog Mural, onde nos conhecemos. No dia 7 de março de 2012, quatro das jornalistas do coletivo publicaram artigo na seção “Tendências/Debates” do jornal Folha de S.Paulo, atentando para a invisibilidade e para os direitos não atendidos de uma parte das mulheres – as que moram em periferias de grandes metrópoles. O texto obteve grande repercussão, sendo replicado em outros veículos de mídia. E encontrou eco entre nossas iguais, outras jovens ou não tão jovens mulheres moradoras da periferia de São Paulo que, finalmente, tinham se sentido representadas, lembradas e retratadas. O artigo, por exemplo, foi lido e registrado em vídeo no Sarau do bairro Itaim Paulista, na zona leste da capital.

As autoras do texto, que, para escrever, se basearam, principalmente, em suas vivências, visões e experiências cotidianas, perceberam, naquele momento, que o vazio de representatividade não era sentido apenas por elas.  A partir disso, iniciou-se um processo de pesquisa e consolidação do coletivo, que tem como objetivo principal dar visibilidade aos direitos não atendidos das mulheres, problematizar acerca dos preconceitos e estereótipos limitadores que se cruzam com as questões de classe social, etnia e raça, muito presentes em razão da localização geográfica das residências, que ficam nas bordas da cidade.

“O coletivo tem como objetivo principal dar visibilidade aos direitos não atendidos das mulheres, problematizar acerca dos preconceitos e estereótipos limitadores que se cruzam com as questões de classe social, etnia e raça, muito presentes em razão da localização geográfica das residências, que ficam nas bordas da cidade”

O filme Nós, Carolinas, já foi exibido em um circuito com várias regiões de São Paulo. Como foi a reação das pessoas que assistiram a ele? Você notou alguma diferença na reação das mulheres e dos homens?
Até o momento fizemos exibições na Galeria Olido, no Centro de Formação Cultural de Cidade Tiradentes, no Cieja do Campo Limpo, e na Biblioteca Cora Coralina em Guaianases. No público tinha mulheres, homens, crianças, mães e filhas, casais, etc. E em todos os locais fizemos debates após o documentário. Muitas pessoas se reconhecem nas personagens. Algumas se dizem filhas de uma mãe solteira, ou mãe autônoma como a Tarcila. Outras se identificaram netas de uma mulher negra como Dona Carolina. Pessoas se emocionam, dão risada com algumas falas. No final, aplaudem, vêm nos abraçar e parabenizar pelo trabalho. Eu, particularmente, não vi muitas diferenças entre as reações dos homens e das mulheres, talvez eles tenham mais curiosidade pelo processo e elas falam do que viveram em comum com as entrevistadas. Duas meninas assistindo na biblioteca Cora Coralina reconheceram locais do bairro e exclamaram “Olha, é aqui!”. Esse tipo de reação, de reconhecimento, mexe com a gente. Uma criança pode começar a ver o bairro mostrado num contexto positivo, diferente do escolhido pela grande mídia no sensacionalismo do dia a dia.

“Uma criança pode começar a ver o bairro mostrado num contexto positivo, diferente do escolhido pela grande mídia no sensacionalismo do dia a dia”

Como é tratado o machismo no filme? E pelo coletivo?
Temos mais reações favoráveis do que contrárias, e são nessas que nos apoiamos. Às vezes recebemos alguns comentários machistas no site e no Facebook, mas seguimos em frente. O machismo acaba nos encontrando também a cada uma individualmente, nas situações do dia a dia, como algum assédio na rua, esse tipo de coisa. No documentário, o machismo aparece indiretamente no impacto dos desafios individuais enfrentado pelas mulheres, duas delas falam de terem criado os filhos sozinhas. O racismo é um tema mais comum entre elas, e está presente em três das quatro entrevistas.

17474189_10202938351616694_964517239_o
As integrantes do Nós, Mulheres da Periferia [da esquerda para a direita]: Aline Kátia Melo, Semayat Oliveira, Regiany Silva, Jéssica Moreira, Lívia Lima, Mayara Penina e Bianca Pedrina
Como foi para você, Aline Kátia Melo, uma jornalista, produzir um filme como esse? Você já havia feito esse tipo de produção?
Eu nunca tinha trabalhado antes com linguagem de vídeo. Foi um desafio, uma experiência interessante. Aprendemos bastante num longo e árduo exercício para todas nós, de escolher trechos, de trabalhar em conjunto pelo consenso desde a escolha do nome até chegar no curta pronto. Pois partimos de 9 entrevistadas, então tinha muito material e, juntas, conseguimos reduzir para quatro entrevistas resultando em um pouco mais de profundidade nas histórias.

Como é sua relação com a periferia como jornalista?
A minha relação com a periferia começou a se estreitar em 2011, ano que me formei em jornalismo na Uni Sant’ Anna e me tornei correspondente comunitária do bairro de Jova Rural, no Blog Mural. Hoje, o blog é um dos produtos da Agência Mural de Jornalismo das periferias.

Em 2012, criei uma página do meu bairro para publicar as matérias feitas no Mural desde 2011. A página tem, até o momento, 1.869 curtidas. Este ano, fui convidada para ser homenageada no dia 25 de março na Fábrica de Cultura do Jaçanã no evento Cultura de Fibra que vai homenagear mulheres da região Jaçanã Tremembé em vários temas, fui escolhida como representante de jornalismo e pesquisa.

“As mulheres de todas as idades esperam que as periferias tenham mais creches, mais atendimentos de saúde, mais iluminação, mais empregos, etc. coisas que beneficiem todos os moradores, não só as mulheres, mas seus maridos, seus filhos, seus pais, suas famílias como um todo”

O que você acha que deve mudar na periferia para as mulheres, tanto jovens quanto idosas? O que mais você sentiu em contato com elas durante o projeto Quem somos [por nós] (exposição realizada no Centro Cultural da Juventude, na Vila Nova Cachoeirinha), que, de uma certa forma, deu origem ao filme Nós, Carolinas, por contar as histórias de mulheres das periferias por meio de seus desenhos?
Somos um coletivo que tem um site e uma página no Facebook, então chegamos mais facilmente ao conhecimento das jovens e que acessam a internet. Ao fazer as oficinas nas periferias, acabamos tendo um contato maior com mulheres mais velhas. A maior parte das oficinas foi realizada em dias de semana em horário comercial, quando as mulheres com menos idade estão trabalhando ou estudando, geralmente fora, longe das periferias onde moram.

As mulheres de todas as idades esperam que as periferias tenham mais creches, mais atendimentos de saúde, mais iluminação, mais empregos, etc. coisas que beneficiem todos os moradores, não só as mulheres, mas seus maridos, seus filhos, seus pais, suas famílias como um todo.

O que o coletivo quer transmitir para as espectadoras e espectadores com o filme?
Queremos mostrar a diversidade feminina nas periferias, por meio de histórias não vistas ou desprezadas pela grande mídia. Que as mulheres possam se ver no curta. Pensamos no formato também pela dificuldade que algumas mulheres possuem, como o tempo curto ou escasso para o lazer. A ideia de exibir nas periferias, principalmente nos locais onde iniciamos o processo com as oficinas para a exposição Quem somos [por nós] em 2015, foi para possibilitar que essas mulheres pudessem ver o resultado final do nosso projeto, do qual elas fizeram parte. Assim, o acesso para elas seria fácil, pois é perto de suas casas, não comprometendo as outras atividades de suas vidas multitarefadas.

“O nome “Nós, Carolinas” me lembra que todas nós somos Carolinas, cada uma com sua vivência, com sua ferramenta, procuramos, todas nós, sermos sempre protagonistas das nossas histórias”

Você acha que o documentário Nós, Carolinas, é como se fosse o diário das mulheres entrevistadas, assim como a escritora Carolina Maria de Jesus teve no livro Quarto de despejo: Diário de uma favelada? Você acha que os temas abordados atualmente se assemelham em algo aos quais Carolina, a escritora, fala no livro?
Em um certo momento do processo, chegamos a pensar em chamar o documentário de Diários de outras Carolinas, mas concluímos que as entrevistas não eram num formato que lembrasse um diário. Carolina Maria de Jesus falava do dia a dia e dificuldades na favela em que vivia no bairro do Canindé. O tema que nossas Carolinas teriam em comum com a escritora seria a maternidade autônoma, a criação dos filhos sozinhas. O nome Carolinas veio da homenagem a uma das entrevistadas que faleceu em 2016, Carolina Augusta e uma homenagem ao protagonismo da escritora Carolina Maria de Jesus, que teve seu sonho realizado, de ter seu diário publicado como livro e na voz das nossas Carolinas. O nome “Nós, Carolinas” me lembra que todas nós somos Carolinas, cada uma com sua vivência, com sua ferramenta, procuramos, todas nós, sermos sempre protagonistas das nossas histórias.

16651940_1236823893038331_2112277175_n
Nathalia: 22 anos, aquariana que gosta de ter muitos peixes em suas águas, o que significa amores, ideias, inspirações, vontades e sonhos… Três paixões: Claudia, Clarice e Cássia. Dois prazeres: ler e conhecer (pessoas, lugares, comidas). Um vício: escrever.
Anúncios

Um comentário

o que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s