Entrevista: Andrea Dip

por Helô D’Angelo | imagem de capa: Pedro Henrique

“No ônibus na rua, no metrô ou no Senado, mexe comigo que eu arranco o seu saco”. É esse tipo de conteúdo, sem eufemismos nem rodeios, que as minas da banda punk feminista (e raivosa pra cacete) Charlotte Matou um Cara costumam gritar.

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Charlotte Matou um Cara no festival Hard Grrrls, com Andrea nos vocais | Foto: Allan Almeida

Criada há pouco mais de um ano e formada por Andrea Dip (vocal), Dori (batera), Nina (Guitarra) e Katharina (baixo), a missão das quatro Charlottes é “derrubar o patriarcado no grito”. E olha, vou te contar: só tocando o terror e a força que é ser mulher, elas conseguem estremecer as bases do machismo.

A poucos dias do lançamento do primeiro disco da banda (que vai rolar em São Paulo, dia 23 de abril), batemos um bapo com a Andrea Dip, vocal da Charlotte. Além de feminista e gritadora, ela é jornalista especializada em direitos humanos da Agência Pública (e já fez matérias incríveis como a Meninas em Jogo). Conversamos sobre a cena punk, sobre ser mulher e sobre a música da Charlotte mais indicada para os ouvidos do (Fora) Temer. Saca só:

Eu, tu, elas: Quando você começou a curtir punk?
Andrea Dip: Quando eu tinha uns 12 anos, veio parar na minha mão uma fita com os primórdios do Green Day, Bad Religion, Jane’s Addiction, Pixies. Aí eu pirei nisso e aos 13 ou 14 anos, fui conhecendo as coisas da Riot Grrrl [movimento cultural feminista, que abrange fanzines, festivais e bandas punk rock e hardcore], e conheci a minha banda favorita de todos os tempos, a Bikini Kill.

Quando você começou a cantar (ou melhor, gritar)? Já participou de outras bandas além da Charlotte?
Bem nessa época em que descobri o punk, eu tinha tido aulas de piano e canto lírico. Aí, eu comecei uma banda de doom metal, numa pegada mais Evanescence, aquela mistura entre lírico e metal. Essa banda já era só de garotas. Tinha uma garota que fazia o vocal gutural e eu fazia o lírico.

Tô ligada que o nome da banda vem da Charlotte Corday, que matou o Jean-Paul Marat durante a Revolução Francesa. Mas por que vocês escolheram essa história específica pra batizar a banda? O que ela representa pra vocês?
Bem no comecinho da Charlotte, depois de cada ensaio, a gente fazia uma ~reunião~ no bar e começamos a falar de possíveis nomes de banda. Pensamos que queríamos o nome de alguma mina que tivesse matado um cara, pra ser uma coisa meio simbólica de matar o patriarcado. Ficamos pensando em mulheres que mataram homens não por motivos passionais, mas políticos.

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O logo da Charlotte Matou um Cara | Arte: Guilherme Peters

E aí meu namorado, que é artista plastico e trabalha bastante com a Revolução Francesa, sugeriu a Charlotte. A gente foi pesquisar a história dela mais a fundo e achou muito interessante que ela era uma moça de família aristocrata e católica e nada disso a impediu de matar de forma premeditada e calculada o Jean-Paul Marat.

Outra coisa que a gente curte é o nome levanta uma curiosidade. As pessoas ficam curiosas pra saber que Charlotte é essa, e acabam pesquisando e sabendo mais sobre a revolução francesa que foi importante inclusive para o modelo de democracia que temos hoje.

Como é o processo criativo das músicas da Charlotte? Elas vêm de histórias pessoais ou vocês se inspiram no que é foda de engolir nos noticiários?
As letras sou eu que escrevo, geralmente, e a partir da letra a gente desenvolve as melodias – se é que a gente pode chamar assim – juntas. As letras são baseadas em histórias não só minhas, mas das mulheres que eu encontro fazendo matérias, das minhas migas, das companheiras de luta e militância. Também me inspiro em coisas que, infelizmente, todas nós passamos, tipo assédio na rua, relacionamentos abusivos, machismos cotidianos. A nossa ideia é que as garotas ouçam as músicas, se identifiquem e gritem com a gente, até porque a gente brinca que a Charlotte vai derrubar com o patriarcado no grito.

Por falar nisso, como é a relação entre seu trabalho como jornalista de direitos humanos e o punk? Como eles se interseccionam? Rola uma inspiração de um para o outro?
Não só um se relaciona com o outro, como também um complementa o outro. A minha maior conexão com o feminismo e com as lutas vem através do jornalismo, já que eu denuncio violações dos direitos das mulheres e é a partir disso que a minha militância se constrói. Muitas das coisas que eu grito na Charlotte, como eu disse, eu vivencio e denuncio no jornalismo.

“No ônibus na rua, no metrô ou no Senado, mexe comigo que eu arranco o seu saco” – Mexe Comigo, Charlotte Matou um Cara

Já ouvi de várias mulheres que o espaço punk, apesar de estar sendo bem apropriado pelas feministas, ainda é bastante machista. Que tipos de violência de gênero e desigualdades vocês sentem e observam nesse meio?
Ainda existe machismo no punk, e existe muito. Às vezes, eu vou em festivais de punk com 20, 30 bandas, e *nenhuma* mina. Eu penso: meu deus, em que ano estamos?! Você tem que se esforçar muito pra fazer um festival punk e não botar nenhuma banda de garotas, porque existe muita banda punk de minas hoje, muita banda que começou agora e precisa dessa força dos festivais e das casas de shows. Mas quer saber? Eu acho que rola mesmo um boicote de alguns festivais e shows.

E fora isso, tem o machismo normal, do dia a dia. Tem muito cara que passa pano pro outro, caso de abuso psicológico, de garota que denuncia pai que não paga pensão, nudes de minas vazadas em grupos de homens punks. Macho fazendo machisse: no punk também tem de monte.

E como a Charlotte lida com isso?
Olha, todas as poucas (importante frisar o poucas) vezes que a Charlotte foi chamada pra tocar junto com outras bandas de homens rola um distanciamento dos homens do público. O que a gente costuma fazer é deixar os caras bem ou ainda mais desconfortáveis, pra eles entenderem que a gente ta falando deles mesmo nas letras. Tem até uma musica nossa que é exatamente sobre isso, chama “Punk Mascuzinho”.

Os caras ficam incomodados quando uma banda de minas sobe no palco (especialmente pra falar que vão arrancar o saco deles)? Como é isso?
A gente sempre pede pras garotas virem pra frente do palco e para a roda ser só das garotas. Aí, claro, no caso dos shows mais mistos os caras ficam putos! Eles ficam cabreiros mesmo, cruzam os braços, e ficam só ouvindo o que a gente ta falando – enquanto que nas bandas dos caras eles ficam na roda, curtindo e tal. No nosso show, eles adotam uma postura de quem ta tomando uma bronca e isso é bem engraçado. Mas a gente continua berrando. Machismo no punk é igual ao machismo no mundo, na sociedade: ele existe e a gente tem que combater no grito, não tem outro jeito.

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Dea usa sua camiseta XXT PWR e nós dizemos: amém pra isso | Foto: Larissa Zaidan

Como é tratada a questão da maternidade no meio punk? Rola umas coisas tipo “mas seu filho tá com quem?!”?
Eu nunca senti nada a respeito da maternidade. Meu filho vai comigo em alguns shows, quando menores podem entrar na casa, e ele é sempre muito bem tratado. Quando eu não estou com ele, acho que ninguém pergunta.

Onde a Charlotte já tocou? O clima muda muito dependendo do lugar ou nada a ver?
O clima muda demais de show pra show. A gente já tocou em festival só de bandas de garota, em festival que tinha mais de 10 anos de existência e que nunca tinha recebido uma banda de garotas, numa festa junina das promotoras populares que tinha crianças e senhoras (e que foi muito legal). A gente já tocou em um centro cultural junto com uma banda de mpb e com uma garota que estava fazendo performance em um sarau. A gente já tocou na caminhada lésbica, que aliás foi um evento gigante em um palco enorme no qual a gente não sabia nem o que fazer.

Então os shows mudam muito, mas a diferença principal que eu sinto é quando é um evento só de bandas de garotas, e que tem mais garotas no público, é sempre um show mais solto, as minas gritam junto com a gente, se soltam. É mais um clima de “estamos todas gritando juntas” a respeito de uma coisa que a gente sente e resiste. Agora, pra um show em que somos a única banda de garotas, é diferente: a gente tá gritando para os caras que estão assistindo, não junto com o público. Isso muda bastante o clima do show.

Existem iniciativas massa dentro do meio punk e musical em geral pra diminuir essa desigualdade e a violência?
Existem, sim, essas iniciativas de resistência: por exemplo, tem o Distúrbio Feminino, o Maria Bonita Fest, o Hard Girrrls, e vários outros festivais e eventos legais e independentes. A gente tem resistido, a gente tem feito festivais de punk feminino e feminista, a gente tem trazido nesses festivais não só o som, mas também palestras, filmes, conversas. É muito legal quando vem uma garota depois do show e fala que vive o que a gente canta. A gente vive isso também, e é maravilhoso poder cantar e sentir essa sincronia. Nosso papel desde sempre e pra sempre vai ser o de resistência, como mulheres e como mulheres no punk.

“Machismo no punk é igual ao machismo no mundo, na sociedade: ele existe e a gente tem que combater no grito, não tem outro jeito” – Andrea Dip

O que falta pras minas conseguirem se erguer no punk?
Falta visibilidade, mas não sei que tipo de coisa poderia acontecer para melhorar isso. Qualquer estratégia que eu imagino para aumentar a visibilidade das minas já parece uma utopia. Tipo, às vezes as pessoas falam “imagina se sua banda estoura?” e eu dou risada, porque eu realmente não consigo imaginar como a gente poderia ter uma banda punk feminista só de garotas fazendo um baita sucesso. Se agente tivesse infraestrutura, apoio, divulgação das ações, mais festivais, espaços bacanas pra tocar, como os caras têm, talvez a situação melhoraria.

Se você pudesse cantar uma música de vocês pro Temer, tipo num showzinho ~particular~, qual seria? Por quê?
Pro Temer eu cantaria nossa música “Não passarão”, que é exatamente sobre ele e a situação política do Brasil. A gente fala que “racistas, golpistas, ditadores, fascínoras não passarão” e que fala que o Congresso ta cheio de ratos:

 

Quer ver a Charlotte ao vivo? Acompanhe os eventos:

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Helô D’Angelo, 22 anos na cara e fazendo o que pode para viver do que ama: desenho e escrita. Saiba mais sobre ela em seu portfolio: helodangelo.wixsite.com/portfolio
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Um comentário

  1. […] Se você se acha punk mas é contra o feminismo, sinto em dizer: cê é punk coisa nenhuma! Acorda pra vida! Aproveita e assista a essa entrevista incrível com a Andrea Dip, vocalista da banda punk (de som e de atitude) Charlotte Matou um Cara e repense a cena punk da qual você faz parte (a gente também já entrevistou a Andrea aqui). […]

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