O que é depressão?

texto e ilustração por Indiara Launa

Esse é daqueles textos longos e que não são fáceis de escrever, mas precisos. Preciso, precisamos falar sobre depressão.

A noite mais longa da minha vida, definitivamente, foi a madrugada que escutei de dois ou três médicos – não lembro direito -, que deveria procurar ajuda com um psiquiatra. No meio de perguntas (como que pra garantir) se fazia terapia, a palavra depressão foi dita, no meio da empatia do clínico que dizia que – assim como todo mundo precisa pedir ajuda- ele já precisou.

indiara launa

Verdade é que 2015 foi um dos anos mais difíceis da minha vida, e depois da angústia e de tomar uma cartela de analgésico pra calar minha cabeça e dormir, de passar um ano indo raramente pra aula, fazendo visitas quase diárias a orientadora do colégio e tentando entender a cura pela palavra, procurar tratamento chegou como um alívio.

Ao contrário do que se pensa, depressão não é se sentir triste. Às vezes, a pessoa nem sente tristeza. De fato, é muito mais sobre se sentir vazio, não sentir nada quando se quer sentir tudo, e a culpa pela própria impossibilidade.

Mergulhei no mar como quem lava a alma, no fundo era isso, mergulhei por vezes desesperadamente, por vezes só flutuei escutando o som do universo muito maior que eu mesma.

E escrevendo sobre isso, abrindo uma parte tão escura de mim, não deixo de lembrar o filme Elena, de Petra Costa. E, vendo nele aquele retrato da doença que fala tão profundamente com sua alma como só a arte pode, tenho a consciência de que preciso, mais do que nunca externar isso. Se a cura é – e é -, a palavra, a expressão, a depressão é uma questão que merece ser falada e chamada pelo nome.

Ao contrário do que se pensa, depressão não é se sentir triste. Às vezes, a pessoa nem sente tristeza. De fato, é muito mais sobre se sentir vazio, não sentir nada quando se quer sentir tudo, e a culpa pela própria impossibilidade.

“The opposite of depression is not happiness, but vitality, and it was vitality that seemed to seep away from me in that moment” – TEDx Andrew Solomon: Depression, the secret we share

É a angústia, é a cobrança e a distorção da realidade mascarada pelo seu cérebro. É um grito preso na garganta e no peito sufocando, um grito de raiva, um grito choroso, grito de dor por tudo ao redor te machucar. Grito esse que dá o impulso de reagir de alguma forma, desencadeando na auto-destruição. São suas questões e traumas em jogo.

É também a ansiedade, o medo interno somatizado, preso no pensamento até perder o foco e o fio da meada. Vem com ela a despersonalização, não saber mais o quanto daquilo é real, a mente avulsa do corpo.

É o sentimento de afogar.

Mas, vivendo meu próprio transtorno e entendendo o que é afogar, também entendo o alívio de respirar (e é essa umas das simbologias mais bonitas presentes no filme). E o único modo é fazer a dor ir embora é dar vazão a ela – e aqui cabe, mais do que nunca o mantra de um dia de cada vez, trabalhá-la, deixa-lá pouco a pouco virar alma, e acordar.

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Indiara Launa, 18, é estudante de ciências sociais e artista freelancer. Vê na palavra e na arte uma forma de entender o mundo e a partir disso criar sua própria voz. Feminista, acredita que toda menina do mundo deveria pegar um teclado e começar a escrever e defende uma visão mais humana sobre as doenças mentais. Portfolio: https://www.facebook.com/themoonstyle15/
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2 comentários

  1. Acho que é um texto curto, mas lindo, profundo. Pensar que não necessariamente quem tem depressão está triste é um tema bem existencial… Gostei muito. Sei que o tema exige maior aprofundamento, mas compreendi bem a proposta de sua página.

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