O que eu penso não é da sua conta – é da minha

por Taís Sofia

Não tem nada que chame mais a atenção de uma mesa cheia de gente do que uma menina pensando. É sério, se o Faustão entrasse na sala de jantar, as pessoas não iam ficar tão interessadas quanto elas ficam quando eu estou bem tranquila, mais entretida com os meus pensamentos do que com a conversa.

Outro dia, meus tios e a minha avó vieram jantar em casa. Não sei daonde veio, mas começaram a falar sobre asma e sobre como meu tio tinha asma mas não tinha mais, mas que minha avó tinha dado uma bombinha para ele deixar na mesa de cabeceira. Não era uma conversa particularmente legal, mas também não era particularmente chata. A epopeia da asma do meu tio tinha, inclusive, alguns momentos com muitas emoções, mas, o fato é que as vezes eu só estou pensando em outra coisa e é isso ai. Não é nada pessoal, é totalmente apolítico e até independe do assunto. As vezes eu só estou pensando em outra coisa.

Bem, por mais que eu me policie para não soltar aquela risadinha quando eu penso em alguma coisa um pouco mais interessante, eventualmente, alguém vai se dar o trabalho de parar a conversa (que provavelmente está particularmente interessante para alguém, a ponto de estar sobrevivendo) e mandar um: – E aí, Taísinha, no que é você está pensando?

Talvez não ocorra para os interruptores, mas eu acho que se eu quisesse compartilhar, eu estaria falando e não pensando. Não tem nada mais indelicado do que interromper os pensamentos de alguém, principalmente em uma mesa cheia de gente. Essa é a típica interrupção que não leva a nada e que é um inconveniente para todo mundo, porque o pensador interrompido vai ter que dar uma risadinha e inventar alguma coisa e a mesa toda vai perceber que a conversa não está tão interessante para esta pessoa.

Pior do que essa Interrupção Abrupta Simples, é a Interrupção Presunçosa, que já vem com uma presunção embutida a respeito do que a pessoa está pensando: – E aí, Taísinha, pensando na morte da Bezerra? Quando as pessoas pressupõem isso, elas nunca presumem que eu esteja pensando em alguma coisa séria ou realmente interessante, mas em alguma coisa banal e, certamente, menos interessante do que a conversa da mesa.

Esse tipo de interrupção se manifesta de duas formas: a direta, que é essa que já assume um assunto específico para o pensamento e a indireta, que não presume em quem o no que você está pensando especificamente, mas sim que você esteja pensando em alguém e não em algo: – E aí, Taísinha, em quem você está pensando? É claro que, quando perguntam isso, nunca estão presumindo que eu esteja pensando no Mandela ou na Graça Foster, mas sim, em um ~alguém especial~. Esse “quem” da pergunta nunca é puro, ele sempre vem acompanhado de um coro de “huuuum” na mesa, porque, inevitavelmente, todo mundo vai achar que você está apaixonada sempre.

Bem, se eu realmente estivesse pensando em um “”alguém especial”” e, até o momento, não tivesse compartilhado com a mesa, o que raios leva o interruptor a pensar que a pergunta dele vai ser o gatilho para eu declarar o meu amor por alguém (num jantar de família)?

Tendo em vista a situação, eu achei a resposta perfeita e eu gostaria de compartilhar com todas aquelas que, como eu, sofrem com interrupções de pensamentos. Quando vocês estiverem tranquilas pensando e alguém interromper numa mesa cheia, responda:

– Ah tio, eu estou pensando numa bela duma sacanagem. (de preferência com uma voz bem suave e parnasiana).

A mesa vai ficar em silêncio um segundo e pode ser um pouco constrangedor, mas não se preocupe porque logo todos vão começar a rir. Isso porque a Interrupção Presunçosa ainda se manifesta de uma terceira forma, que eu chamo de “Negativa”. A Interrupção Presunçosa Negativa é aquela em que as pessoas assumem que tem certos assuntos em que você só nunca estaria pensando, tipo sacanagem. Então, se você disser que está pensando numa sacanagenzinha, só vão assumir que é mentira e achar que é uma piadinha. E ainda que não assumam ser uma piadinha, ninguém vai pedir para você dar detalhes e você vai poder continuar a pensar tranquila.

E o melhor de tudo é que essa resposta ainda tem um bônus: se você quiser sair mais cedo da mesa pra ir deitar, você também não vai precisar dar uma desculpa tipo “dor de cabeça”, porque ninguém vai te perguntar mais nada pelo resto da noite, com medo de mais uma “piadinha”. Imagina só o que você pode responder, se te perguntarem o que você vai fazer sozinha no quarto, tão longe da hora de dormir.

tais
Taís Sofia é formada em Direito e estudante de filosofia. Atualmente é feminista em tempo integral.
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