Não, você não quer um relacionamento como Marshall e Lily

por Jenyfer Begotti

Se você ainda não assistiu How I met your mother (HIMYM ) – ao pé da letra “como eu conheci sua mãe”- e pretende assistir aviso desde já que esse texto dará spoilers da série, afinal de contas seria bastante difícil explicar o título deste texto sem fazer referência a episódios e ao conteúdo da série.

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Se você assistiu e amou esse casal, talvez possa se irritar com o que falarei e me questionar “Ai, mas é ficção, por que você resolveu implicar com algo que nem é uma história/um casal real?!”, pois bem, eu sei que é ficção, mas sei também que a arte imita a vida, a vida imita a arte e que na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se copia – como o pensamento de Lavoisier parodiado por alguém muito sagaz. Não é porque Lily e Marshall são um casal ficcional que não representem uma parcela dos relacionamentos possíveis – na realidade, seria até melhor dizer impossíveis de se sustentarem  – no universo das relações amorosas ou que, por serem meras personagens de uma série, pessoas não os vejam como exemplo ou meta de relacionamento saudável e estável.

Há algum tempo venho pensando sobre esse casal e sobre como muita gente que conheço admira o relacionamento mantido pelos dois, assiste e reassiste a série sofrendo com cada briga e comemorando cada pequena “evolução”  deles. E isso me incomodava, primeiro porque eu já fui a pessoa que chorou com o Marshall quando a Lily resolveu fazer o curso de verão em San Francisco  e eles terminaram. Marshall inerte, eu esperançosa de eles logo reatarem e poderem ser felizes para sempre, aquele típíco final de romance-água-com-açúcar ou de conto de fadas. Já fui aquela que pensou que seria maravilhoso ter um relacionamento assim.

Entretanto, como todo texto, intertexto e contexto importam! Na época em que vi a série pela primeira vez, eu estava fragilizada e me identificava com o romance dos dois, com a história cheia de pequenos detalhes, alguns até inventados – mas perdoados porque os dois eram super apaixonados e isso precisa de um plano de fundo fantasioso (insira aqui a sua voz irônica) – e, é claro, vivemos numa sociedade que consideram o amor movido a lágrimas e sangue ainda o mais puro, correto e forte, aquele que seria o verdadeiro e desejável de se viver.

“vivemos numa sociedade que consideram o amor movido a lágrimas e sangue ainda o mais puro, correto e forte, aquele que seria o verdadeiro e desejável de se viver.”

Assisti a série uma vez mais completa e sozinha, como da primeira vez, mas num contexto completamente diferente, uma visão mais seca e crítica sobre alguns pontos. De repente, não mais que de repente, me via achando aquele relacionamento insustentável e forçado, uma simbiose, preto no branco o que era codependência e dessa vez meu queixo caiu, primeiramente porque eu não tinha visto daquela forma anteriormente, depois porque em conversa com algumas pessoas próximas descobri que não era uma interpretação a que apenas eu havia chegado.

Tentei assistir mais uma vez a série, mas fiquei cansada então foram apenas alguns episódios que confirmaram minha segunda visão. Mas vamos à explicação do porquê você NÃO quer um relacionamento como o de Lily e Marshall!

 

As mentiras

Durante grande muito tempo, Lily e Marshall basearam o sucesso de seu relacionamento na Teoria da Azeitona de acordo com a qual o casal só daria certo caso um gostasse de azeitonas e o outro as odiasse. Isso porque durante um encontro dos dois, Marshall disse odiar azeitonas para que Lily pudesse comer as dele e assim se aproximar dela. Algum tempo depois, Barney desmente essa história e, okay, eles ficam bem, mas qual a necessidade de passar anos mentindo a respeito de uma coisa tão minúscula como se seu namoro fosse desmoronar porque uma teoria de “brincadeirinha” que surgiu de um acontecimento tão no início do relacionamento se provou incorreta? Simples, porque apesar de pregarem que eles se contam tudo e se conectam de uma forma que ninguém mais compreende ou consegue, Lily e Marshall não conseguem se abrir realmente sem se questionar o que o companheiro vai achar do que será falado, eles sentem medo, o tempo todo, de qualquer ação ter uma reação que culmine no fim do relacionamento, na perda do objeto de amor.

Isso se repete ao longo da série em outras diversas atitudes, sejam coisas de pequena ou grande importância: Lily não conta sobre o curso de verão e o medo de se casar, Marshall não conta sobre decisões na sua vida profissional (mais de uma vez) que desagradam Lily, Lily não conta sobre sua compulsão por compras e sobre as dívidas em cartões de crédito, entre outras.

Você gostaria de se sentir insegura(o) o tempo todo com a pessoa? Viver fingindo que conta cada detalhe da sua vida e de todos os afazeres (o que é desnecessário, inclusive) e se sentir impelida(o) a mentir até sobre o que gosta de comer porque teme que será mal interpretada(o) ou que que vai afastar aquela pessoa da sua vida? Eu presumo que não, eu, pelo menos, não desejo tal coisa. E cabe aqui dizer algo importante: intimidade, confiança e amor não pressupõem que as pessoas envolvidas numa relação saibam completamente tudo uma sobre a outra, eu garanto que nem você sabe tudo sobre si própria(o). Além do mais, saudável é ter sua intimidade e limites respeitados, saudável é se sentir à vontade para contar o que se quiser contar, saudável é não mentir sobre aspectos que interferem na relação e conversar sobre isso sem que precise ser uma DR (Discussão de Relação) cinematográfica. 

saudável é ter sua intimidade e limites respeitados, saudável é se sentir à vontade para contar o que se quiser contar, saudável é não mentir sobre aspectos que interferem na relação e conversar sobre isso sem que precise ser uma DR (Discussão de Relação) cinematográfica.

Abnegação e apoio (in)condicional

Em diversos episódios da série, podemos ver o casal falando sobre como é fácil manter um relacionamento com a pessoa que se ama, mas que manter relacionamentos é difícil. Soa estranho, não é mesmo? Mas quando ouvimos a declaração de Marshall:

“Ser um casal é difícil. Exige comprometimento, fazer sacrifícios. É difícil, mas se é a pessoa certa, se torna fácil. Olhar para aquela garota e saber que ela é tudo o que você sempre quis na vida deveria tornar tudo o mais fácil possível. E se não é assim, então ela não é a garota certa.”

Fica tudo lindo, maravilhoso e faz sentido… Eu até concordaria, mas apenas em uma pequena parte: relacionamentos são difíceis, em sua maior parte, porque seres humanos são complexos e pensantes, logo há certas coisas que demandam conversas, tempo e comprometimento mesmo. Porém, quando se fala que relacionamento amoroso demanda sacrifícios é que o Titanic começa a caminhar em direção ao iceberg e bate nele de vez quando pensamos na idealização da pessoa amada.

Existe sim, como dito, uma necessidade de comprometimento em uma relação amorosa, uma preocupação além de si mesma(o) para com o bem estar do outro e para com a convivência harmoniosa. Entretanto, isso não quer dizer que você deva se anular e sacrificar seus ideais, objetivos, sonhos, vontades e pensamentos unicamente para manter o relacionamento estável e feliz. Até porque, você não estará feliz, você começará, aos poucos, a responsabilizar a outra pessoa pelos seus ”fracassos”, começará a atribuir a essa pessoa o dever de te fazer completamente feliz, porque você estará se dedicando unicamente ao relacionamento e isso não é justo com nenhum dos dois: não é justo viver unicamente para servir e não é justo depositar uma expectativa desse porte em outra pessoa.

Lily e Marshall tem um “acordo” sobre o apoio, eles apoiam, ou ao menos dizem apoiar, TUDO o que o outro faz, o que seria até um estímulo positivo e benéfico para o casal e para os indivíduos da relação, exceto pelo fato de que eles fazem isso pensando em receber de volta e o fazem ainda que não concordem com a decisão alheia. Veja, não há problemas em reciprocidade, mas a reciprocidade por obrigação não é troca, é paga, é cobrança.

Além disso, esse “acordo” entre os dois se limita com base nos interesses pessoais dos mesmos, a exemplo, quando Lily apóia Marshall na decisão do emprego na empresa que Barney trabalha, ela não pensa no sucesso profissional ou na experiência que ele terá, ela pensa em pagar seus cartões e em ser “recompensada” por sua abnegação por haver  trabalhado e arcado com as despesas enquanto ele estudava. O mesmo acontece quando Lily decide por fazer o curso de verão e Marshall decide terminar o relacionamento devido ao “egoísmo” de Lily.

Você pode justificar a resolução pelo término com “Ah, mas a Lily fez tudo pelas costas do Marshall, fugiu, abandonou ele pensando unicamente nela, foi como uma traição…”, e realmente não foi legal da parte dela agir sem conversar ainda mais às vésperas do casamento, mas você se recorda de que ela estava apenas cogitando? De que ela sempre teve o sonho de ser uma artista e que estagnou sua carreira e se propôs a sustentar o relacionamento, se abnegando de seus desejos profissionais? De que o casamento marcado era mais uma pressão devido o casal estar há anos juntos sem evoluir o relacionamento – como se  casamento fosse necessário para tal e não estivéssemos no século XXI… ? E de que o Marshall deu uma escolha para ela? E, como brilhante lição de moral dessa fuga da Lily, tão egoísta pensando na sua carreira, ela volta, arrependida, fracassada, e a série caminha dando a ideia de que ela fez aquilo por nada, que ela nunca teria chance, que ela é péssima artista, que ela nunca deveria ter saído do lado do Marshall.

Muitas vezes nos identificamos com o Marshall porque esperamos aquele amor que abdicará de tudo pela gente, por um romance de novela, contra tudo e todos e acabamos vendo a Lily indo para o curso como egoísta, porque uma mulher que tenta ser independente e buscar seus sonhos é vista dessa forma. O próprio casal fala isso sobre a Robin em uma conversa a respeito da personagem e Lily fala “A Robin é… qual é o eufemismo para egoísta mesmo?” ao que Marshall responde “Independente!”… Robin nunca mentiu sobre suas pretensões para Ted, assim como Marshall sempre soube que Lily desejava ser uma artista reconhecida, entretanto, a partir do momento que as duas se colocam como protagonistas de sua própria vida, são vistas como egoístas e “sem coração”.

“Muitas vezes nos identificamos com o Marshall porque esperamos aquele amor que abdicará de tudo pela gente”

“Ah, mas o Marshall desiste do emprego como juiz para acompanhar a Lily na Itália depois…” você me diz, ora, continuamos na ideia da abnegação e do apoio condicionado. Lily poderia ter ido sozinha para a Itália, afinal de contas, ela passaria apenas um ano lá. Marshall também estava olhando o emprego sem conversar com a mulher previamente. Novamente mentiras, novamente uma anulação da vontade pessoal em pról do relacionamento e o apoio condicionado pela ideia de que relacionamento saudável é aquele que para ser real, as pessoas não podem estar distantes fisicamente e precisam estar sempre dispostas a se sacrificar.

Voltando ao Titanic, encontrar tudo que se deseja numa pessoa parece até elogioso, mas, além de fantasioso, chega a ser assustador. Imagine por um momento que você deseja um carro, quatro portas, modelo esportivo, airbags, tudo completo, na cor vermelha, etc, mas que você só quer comprar o carro caso seja exatamente de acordo com o que desejou. De repente, você passa por uma loja e você vê ele, o carro dos seus sonhos, perfeito, lindo, do jeitinho que você queria e por um preço muito abaixo do que você esperava, mas essa loja não permite devoluções e, mesmo com o test drive você não nota que o interior do carro não é como no seu sonho, você só nota isso ao longo do tempo, mas ele te serve perfeitamente e você não tem mais dinheiro para outro carro. O que você faz? Você vende e compra outro, não é mesmo? Ou você apenas se acostuma àquele e apesar de reclamar frequentemente de como aquele não é o carro dos seus sonhos para suas amigas, você mantém ele com você.

Não, essa não é uma metáfora de como você deve descartar pessoas até encontrar a perfeita, se você entendeu dessa forma, eu vou explicar bem claramente para não haver confusão. Essa é uma metáfora sobre como expectativas podem nos trazer reações negativas mesmo diante de situações positivas. De como o idealizado ilude e não nos deixa perceber a realidade. Quando você mentaliza que tipo de pessoa você deseja para se relacionar, você deixa de se relacionar com pessoas, você se relaciona apenas com seu objeto de desejo, sua imaginação, um ser idealizado que jamais vai existir porque ele só existe na sua mente. E sua mente te pregará peças se você se mantiver pensando assim.

Vou fazer uma leve abertura para incluir algo sobre o Ted aqui: ele nunca esteve à procura de amor, ele sempre procurou a esposa perfeita, magoou muitas pessoas no caminho com o objetivo de achar um match perfeito, um relacionamento que deu tão certo que a esposa faleceu e permitiu que ele, finalmente, se relacionasse com a Robin, depois de ter filhos e ter cumprido toda sua lista de ideais amorosos.

Ou seja, depositar expectativas imaginárias e idealistas sobre seu futuro/atual relacionamento não traz nada de positivo, traz apenas frustração e uma carga para o outro sujeito do relacionamento que é desonesta.

Agora eu pergunto: você quer estar com alguém que vai fazer tudo, absolutamente tudo por você, e vai esperar o mesmo de volta? Alguém que vai perder a própria identidade e esperar que você faça o mesmo por ela? Você quer ter todos os seus sonhos norteados com a desculpa de que eles interferem no relacionamento? Ou você deseja alguém que compartilhe sonhos e discuta soluções que não privem nenhum dos dois de seus desejos eobjetivos? Alguém que se importe com seu crescimento e não ache o fim do mundo você querer ser mais do que unicamente namorada(o), companheira(o), esposa(o)? Se você respondeu que sim para as primeiras três perguntas, eu tenho a impressão de que você precisa rever seus conceitos de relacionamento saudável e de amor, porque as três primeiras indicam que você deseja possuir alguém e não amar e ter um relacionamento baseado em companheirismo e sinceridade. Um relacionamento saudável não depende de abnegação e apagamento, de cobranças, depende sim de conversa e mediação, de análise conjunta de prioridades e pretensões, de respeito a si mesmo e ao outro envolvido na relação.

Pause nas brigas

Clássico do casal em questão, Lily e Marshall não discutem como os outros casais, eles pausam as discussões e as arrastam por muito tempo, parando para lanchar, assistir filmes, conversar com os amigos e até mesmo para transar. Mas… por que arrastar por tanto tempo algo que muitas vezes é de simples resolução? Provavelmente para evitar o conflito, os dois não pausam as discussões unicamente por motivos práticos, eles param porque ficam sem argumentos, porque têm medo de se exaltar e serem mal interpretados (novamente), porque querem evitar o conflito imediato.

Obviamente, cada casal desenvolve sua própria forma de resolver os conflitos gerados pela existência de uma relação amorosa, entretanto, o medo de discutir a relação e de torná-la enfadonha com isso é o que resulta, muitas vezes, em insatisfação e desentendimento. Prefere-se ficar no pause porque socialmente a DR é vista como um problema ou um sinal de que algo não vai bem, é vista com olhos revirados porque “ai que terror, MAIS  DR”. Particularmente, eu acho que DR’s são muito diferentes de discussões acaloradas, DR’s são diárias, são sobre pequenas coisas que afetam o casal. O que gera brigas, gritos, choros incontroláveis, os biquinhos e os pauses são coisas acumuladas, são comportamentos que ao longo do tempo não são revistos no momento e ficam martelando a cabeça e pedindo para serem discutidos, como quando Marshall retoma a discussão sobre o curso de Lily e ainda pergunta se ele e seu filho são apenas um prêmio de consolação para ela.

Será que vale a pena estar num relacionamento em que tudo é uma bola de neve e que precisa de dias, meses e anos pausando discussões e aguardando ansiosamente que sejam solucionadas?

Dependência emocional

Lilypad e Marshmallow não existem separados. E não, não é porque este são os apelidinhos carinhosos do casal, mas sim porque eles são um caso de dependência emocional muito claro. Lily não consegue sequer dormir sem Marshall e inventa até o Marshpillow para tentar substituí-lo enquanto ele está em viagem.

Ted mesmo cita que “em dez anos em seu relacionamento, eles não tinham passado uma única noite separados”, o que significa que em dez anos eles não viajaram um sem o outro, Marshall não visitou seus pais sozinho, Lily não reviu nenhuma amiga de fora da cidade sem Marshall, nenhum dos dois resolveu fazer algum programa sozinho em uma noite/madrugada qualquer, EM DEZ ANOS.

Se você vier falar que eles são caseiros, me desculpe, mas eles vivem indo ao bar com os amigos; se disser que Lily não tem amigas fora, pois bem, há um episódio em que uma amiga da faculdade a visita; mas não ficarei justificando tudo. Basta notar: que durante o término, ambos ficaram péssimos, não só pela tristeza do término, mas pela ausência da pessoa com quem por dez anos dividiram tudo; que eles ficam sem chão quando não estão juntos, dependem um do outro para diversas decisões simples; que quando tentam quebrar o “ritual” de recepção no aeroporto, eles não conseguem e ficam completamente malucos e agem de forma impulsiva para cumprir o ritual pensando que o outro vai manter o ritual e se chatear, mesmo tendo combinado entre si que aquilo não era necessário; que se ligam em momentos inapropriados e que podem afetar o trabalho e relacionamento dos dois unicamente para manterem o laço de apego; e, mais importante, eles não são mais Lily e Marshall, eles são uma simbiose das pessoas que eram ao se conhecerem e tem esse pensam nisso como sendo algo ideal, a dependência um do outro e a visão de que a independência seria um sinônimo de egoísmo.

Pois bem, independência não significa desvalorizar as pessoas e nem descartá-las, significa, como o próprio dicionário diz, ser livre, não ser obrigado, não se submeter, não depender de determinada coisa. No caso do casal, a dependência emocional e física é vista como sinal de amor, o apego é a medida do amor entre o casal, o que é algo bastante problemático. No momento em que você depende de outra pessoa para nortear sua vida, em que você depende amorosamente de alguém dessa forma, você deposita suas expectativas de felicidade nos ombros daquela pessoa e dois meios não fazem um inteiro, assim como dois dependentes não fazem um casal.

Se você só consegue ser feliz enquanto está com aquela pessoa é como um vício, você sacrifica tudo que pode para manter esse status e exige, mesmo que indiretamente que a pessoa faça o mesmo, um ciclo vicioso que se baseia na ideia distorcida que temos do que seria amor e do que seria comprometimento. Você não precisa da pessoa para viver quando ama, você apenas decide dividir com a pessoa que ama os momentos da sua vida, percebe que são duas coisas diferentes?

Se você pudesse escolher entre ter saúde e respirar por si próprio ou precisar de uma máscara para respirar durante a vida toda para viver eu dúdvido que você escolheria a segunda opção, então por que perpetuar esse estereótipo de amor que nos prende e nos sujeita ao invés de sermos sujeitos protagonistas de nossa vida amorosa?

Ciúmes

Na série existem algumas teorias mais ou menos ligadas: a dos crazy eyes (olhos loucos), a escala hot x crazy (gostosura x loucura) (estou revirando meus olhos neste momento); a Dobler/Dahmer e a Reacher/Settler (Aquele que “alcança”/Aquele que se “acomoda”). Crazy eyes é como é ilustrado um comportamento feminino (meu olhos vão sair das órbitas)onde a mulher fica tão disponível e acessível e o homem tão apaixonado por ela que se cega e não enxerga comportamentos ciumentos, abusivos, literalmente “malucos” de uma determinada mulher; a escala hot x crazy seria sobre como essa “loucura” é suportável na medida que a mulher é atraente; a Dobler/Dahmer  sobre como o interesse mútuo torna determinadas coisas toleráveis (Dobler) ou intoleráveis (Dahmer), no primeiro caso é porque há interesse mútuo, no segundo porque não há interesse mútuo; e a última é sobre como todo relacionamento tem alguém que é o settler (aquele que se acomoda)  da história e um outro que é o reacher (aquele que alcança), de forma que, no primeiro caso, a pessoa se assenta com alguém “menos atraente”  e no segundo é como a pessoa estivesse com alguém “além de suas expectativas”, “muita areia para o seu caminhãozinho”, digamos, assim, de forma que o settler não sentiria ciúmes do reacher por estar numa posição de conforto.

Primeiro de tudo: ciúmes não é prova de amor. Agora vamos aos fatos, vou deixar de lado um pouco o machismo das teorias e me concentrar na relação de Lily e Marshall. Todas essas teorias são na realidade escusas para lidar com comportamentos abusivos por parte de sujeitos de relacionamentos amorosos e ainda são noções distorcidas de como uma pessoa demonstra interesse.

Há momentos na série em que Lily e Marshall fazem disputas de quem é o mais ciumento, se comportam de forma a tentar despertar o ciúmes do outro – como no episódio Jenkins – como forma de analisar a quantas anda o interesse alheio. Claro que isso não é saudável e gera diversas situações absurdas. Nós não deveríamos testar os limites da pessoa com quem mantemos relacionamento amoroso, assim como não deveríamos entender comportamentos ciumentos, possessivos, agressivos ou até mesmo as “loucuras de amor” como declarações de amor inabalável e bonito porque são apenas demonstrações de dependência e de posse.

E, ainda, não deveríamos medir o que suportamos pela atração que sentimos pela pessoa. Porém, Marshall e Lily agem assim o tempo todo, os ciúmes e a possessão são outros motivos que levam os dois a se fecharem num mundo de us against the world (nós contra o mundo) e a manterem uma relação de dependência com medo da influência externa. Num relacionamento saudável você não suporta a pessoa, você convive com ela, vocês mediam as situações de desconforto, negociam limites, estabelecem a forma de se relacionar e de lidar com as questões externas ao relacionamento.

Se você já assistiu ou já leu Christine, a história do carro assassino, vai notar que não existe diferença entre ser Dobler e Dahmer, a única diferença é conseguir ver o que se passa na realidade no relacionamento, o que é muito difícil, às vezes, se você é um dos sujeitos do mesmo, mas não é impossível. É exercício de amor próprio e de alteridade.

Você se relacionaria com alguém que precisa de provas de amor a todo instante? Que precisa mostrar aos outros como o relacionamento de vocês é melhor que o de todo o resto do mundo? Você quer alguém que te enxergue como propriedade?

Marshall aceita que Lily corresponda ao estereótipo de crazy eyes porque está cego de amor  e porque ela está na escala hot x crazy, Lily se considera settler porque se acha mais atraente que Marshall. Ambos seguem dobler style porque estão convencidos de que amor é isso…

É claro que não estou aqui doutrinando como deve ou não ser o seu relacionamento, mas estou propondo uma reflexão sobre os ideais de amor que nos propomos, os relacionamentos nos quais espelhamos os nossos, e expondo o porquê eu creio que Lily e Marshal não sejam um exemplo de relacionamento saudável.

Mas e você? Ainda quer um relacionamento como o de Marshall e Lily?

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Jenyfer Begotti tem 28 anos, bacharela em Direito e estudante de Letras, exorciza a alma escrevendo sobre suas experiências e canta nas horas vagas para seus males espantar

 

 

 

 

 

 

 

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4 comentários

  1. E eu achando que o final era a pior coisa em HIMYM. Hahaha o buraco é mais embaixo mesmo. Ótimas reflexões, muito legal lembrar de todos os exemplos que você deu. Acho que se eu visse a série com a cabeça que tenho hoje veria também todos os problemas no relacionamento de Marshall e Lilypad. Obrigada!!!

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    • Eu é que agradeço pelo comentário e pela concordância de que foi um final decepcionante, ahahaha. E é difícil notar certas coisas quando estamos inseridas em determinado contexto pessoal e social.
      Conversando com algumas pessoas e pesquisando um pouco notei que fácil, por exemplo, entender a “fuga” da Lily para fazer o curso de artes como um ato de puro egoísmo e não questionar o porquê dessa ação. Só um texto a respeito de como eles têm uma relação de dependência, o resto eram textos do porquê seria legal ter um relacionamento assim…

      Curtido por 1 pessoa

      • Que medo ter mais gente aparentemente achando ótimo ter uma relação assim. Mas não entendi direito o que você falou sobre o curso de artes. Vc acha q foi puro egoísmo?

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  2. Perdão a demora em responder!
    Não, não acho que foi um ato de puro egoismo dela, cometi um erro de digitação! Eu queria dizer que percebi que é comum essa interpretação por parte de muitas pessoas que assistiram a série.

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