Meu relacionamento não é perfeito (ainda bem)

por Isabelle Caldeira | imagem de capa:  Eveline Tarunadjaja

Hoje completo um ano, cinco meses e oito dias de um relacionamento imperfeito. Mas o texto que vou escrever aqui não é para meu namorado, tampouco sobre ele. É para os nossos amigos, que insistem em dizer que somos o casal perfeito. Durante todo esse tempo em que estou com ele sempre escutei que, se um dia a gente terminar ninguém mais vai acreditar no amor.

Digo de peito estufado: Isso é a maior bobagem que qualquer pessoa pode pensar. Aqui na vida virtual, ninguém assiste a parte ruim e difícil de um relacionamento, mas, do lado de dentro dele é onde os dois protagonistas acabam vendo e vivenciando o que, para os outros, é improvável: as brigas e divergências de opinião. Não, não pensamos ou somos iguais. E esse estereótipo, no fundo, acaba fazendo muito mal.

Eu não quero ter a pressão de não poder terminar porque, caso isso aconteça, ninguém mais vai acreditar no amor. Também não quero me sentir errada porque divergi do pensamento dele, quando na verdade, somos tanto o casal perfeito que seria impossível isto acontecer.

Aqui na vida virtual, ninguém assiste a parte ruim e difícil de um relacionamento.

Vocês não podem continuar pensando assim. Além de nos pressionar, pode gerar uma insegurança no seu relacionamento que, quando comparado ao meu, se torna “imperfeito”.

Precisamos parar de buscar nos outros aquilo que queremos para nós. A nossa cultura ensina, desde cedo, que estar sorrindo e feliz o tempo todo é o correto, e que demonstrar a fraqueza te torna ainda mais fraco. O espelho da sociedade, que hoje se tornou as redes sociais, não vai mostrar momentos infelizes, de muito choro e/ou muita impaciência.

É claro que não vou colocar que estou triste ou que passei por uma fase tão complicada que cogitar terminar foi algo que aconteceu. Eu parto do princípio de que as pessoas não deveriam falar o que pensam sobre os casais que não conhecem realmente. Mas como isso acontece, e é natural acontecer, ainda que não seja o ideal, eu preciso dizer para vocês: estão sendo um ano, cinco meses e oito dias de construção e desconstrução diária.

Essa noção que construímos sobre os relacionamentos precisarem ser 100% do tempo ideais é horrível. Pior ainda é quando passamos a acreditar que, porque o relacionamento do outro é assim, o nosso também precisa ser. Ninguém e nada é sempre maravilhoso, e imaginar que isso possa acontecer em uma interação humana chega a soar ingênuo.

Essa noção que construímos sobre os relacionamentos precisarem ser 100% do tempo ideais é horrível.

A gente não é parâmetro algum de amor. Amor é aquilo que as pessoas constroem no seu dia a dia. E o que eu tenho com ele não é algo único e exclusivamente repleto de beijos, carinhos, abraços e sonecas em conchinha. Tem muita farpa e espinho, sim. E isso é normal.

Eu queria dizer a vocês para não ficarem sob o pensamento de que precisam achar um relacionamento como o meu e o dele ou como o de Fulano e Ciclano, porque as pessoas são diferentes. Houve momentos, sim, em que erramos feio um com o outro e, por vezes, acabamos perdendo a fé. Momentos em que tivemos de sentar e falar “ou mudamos ou terminamos, porque desse jeito está nos fazendo mal”. O relacionamento não é só sorriso e nem se faz só de amor.

Houve momentos em que, mesmo nos gostando muito, precisamos tomar a decisão em conjunto sobre ficarmos juntos, e saber que é preciso respeitar a decisão individual do outro, mesmo que doa, caso ele queira ir embora. Tiveram noites em que eu dormi triste e ele exausto. Dias em que conflitamos até que ponto vai a liberdade e o egoísmo. Situações em que precisamos parar para rever nossas atitudes, pois estavam num caminho direto pro abuso.

Se vocês buscam por um relacionamento como os das redes sociais, é quase certeiro que não vão encontrar.

Não nos coloque como parâmetro, nunca, para o amor que vocês vivem nos relacionamentos, sejam eles com família, amigos ou namorados(as). Não existe fórmula mágica e nem nunca vai existir. Mas também aprendemos, com o tempo e muita força de vontade, que não adianta berrar, xingar, desejar arduamente que o outro mude. É preciso entender a liberdade e se deixar ser livre.

Se vocês buscam por um relacionamento como os das redes sociais, é quase certeiro que não vão encontrar. Porque, antes de mais nada, não são os textões, as fotos fofas, as curtidas e os likes que nos alimentam e nos fazem querer seguir. São os estímulos à paciência, à compreensão e à alteridade que, até hoje, nos fazem estar juntos.

E se amanhã não estivermos mais, vocês não precisam se assustar ou achar que a fé no amor acabou. O fim de um ciclo significa que um aprendizado foi conquistado. E aprender sempre ascende a alma. Portanto, não se iludam com os sorrisos e mil corações nas redes. Tenham na consciência de vocês que são tão ou mais capazes que eu e ele de viverem um relacionamento incrível. Mas que também estão suscetíveis aos erros e aos términos. E que o relacionamento, qualquer que seja, não precisa ser igual ao meu.

O fim de um ciclo significa que um aprendizado foi conquistado. E aprender sempre ascende a alma.

Seu(a) parceiro(a) não precisa escrever as mesmas palavras e legendas, as mesmas poesias. Vocês não precisam estar o tempo todo junto para estarem bem. Vocês conseguem conviver com o individualismo e ainda assim se sentirem bem. O segredo é o diálogo. E se não deu certo com você mas está dando com o outro, busque entender que o parceiro com o qual se relaciona não é a sua alma gêmea. Isso não existe. Às vezes passamos muito mais tempo buscando alguém perfeito que esquecemos que nem nós somos. Há muita gente incrível para você se relacionar e muita gente que pode, sim, te reconhecer como alguém maravilhosa para estar junto.

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Isabelle Caldeira tem 20 anos e é estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Conheceu o feminismo em 2015 e desde então busca colocar em prática aquilo que lê e aprende sobre o assunto.
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Um comentário

  1. Eu acho que é isso mesmo, n dá p negar… Porém, é tão difícil assumir certas verdades como sendo a sua!!E isso n tem como ensinar, eu acho…E, no momento, estou triste.

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