Existe machismo até no Canadá

por Laura Villas Boas

O Canadá é o melhor país para ser mulher, segundo um estudo da TrustLaw, braço da Fundação Thomson Reuters. Quando eu vi essa notícia, estava pesquisando países para viajar e estudar inglês. Nessa época, estava entre o Canadá e a África do Sul. A África do Sul, apesar de mais bonita e menos fria, tem um alto índice de estupros. Então, a notícia brilhou meus olhos com o Canadá.

Na mesma época, o primeiro ministro do Canadá, o Justin Trudeau, foi eleito e apresentou um ministério dividido entre homens e mulheres. Não só isso, ele colocou um imigrante, um cadeirante, um indígena, um homossexual. Enfim, colocou pessoas que representassem a população do país. Mas, claro, o que chamou atenção? Ele ter colocado, exatamente, quinze mulheres e quinze homens. A imprensa se perguntava o motivo (precisa ter um motivo? Qual o problema, né?!). Na entrevista coletiva, perguntaram para ele e a resposta foi Porque é 2015.

Eu comemorei muito a atitude, principalmente porque estávamos em uma fase bem delicada na política brasileira (Temer apresentou seu ministério sem nenhuma mulher e outras atrocidades). Além deste ato, Justin Trudeau é representante do HeforShe, é a favor da legalização do aborto e se declara feminista (ok, controverso, mas para um representante do governo nos dias atuais, é um respiro). Essas não foram as causas exclusivas de eu ter escolhido o Canadá, mas me empolgaram e muito. Fui para lá com uma expectativa bem alta. Claro, alta por vários motivos, mas um deles era experimentar ser mulher em um país como o Canadá.

O primeiro ministro do Canadá, o Justin Trudeau, foi eleito e apresentou um ministério dividido entre homens e mulheres. (…) o que chamou atenção? Ele ter colocado, exatamente, quinze mulheres e quinze homens.

Fiquei por lá nove meses. Eu sei que não é o suficiente para se ter uma experiência real da vivencia de uma mulher em um local, mas pude ver algumas coisas. Vamos começar pelo lado bom. Uma mulher que se sentir insegura por causa de um homem, liga para a polícia, a polícia chega (rápido, diga-se de passagem) e o cidadão vai preso. Ele explica lá da cadeia o que estava acontecendo. Veja, se a mulher se sentir insegura, não se ela sofrer algo direto. Por isso, ninguém olha para ninguém.

As meninas usam saia na escola até o colegial. Elas andam de metrô de perna aberta, mostrando a calcinha, e ninguém olha. Ninguém! No verão, elas usam shorts curtos. Mas assim, curtos que se pode ver a poupa da bunda toda. Ninguém olha! Flerte na rua com troca de olhares? No Canadá, não! E o que dizer de homens mexendo com as mulheres de dentro do carro? Bem, um canadense disse que isso não acontece porque o ser humano já evoluiu dos macacos, sabe muito bem o que é certo e errado e não age por impulso ou coloca a culpa nos instintos.

No metrô? Bem, toda plataforma tinha um lugar mais iluminado, com mais câmeras e um telefone de emergência. Essa era uma parte dedicada para as mulheres. O telefone dava para um segurança do metrô, que chegava NA HORA, caso uma mulher se sentisse insegura ou ameaçada de alguma forma. No ônibus? A mulher podia descer em qualquer lugar que quisesse a noite para voltar para a casa se sentindo mais segura. Lugar perfeito?

Agora vou contar a parte ruim

Amigos, a parte ruim existe, infelizmente. Eu fui lá para estudar inglês e vou ser muito sincera. Como não tinha dinheiro para me bancar lá os nove meses, eu tive que trabalhar. O problema é que o meu visto só dava acesso para moradia e estudo. Ou seja: trabalhei ilegalmente os nove meses que fiquei lá. Faxinei loucamente. No país, os empregados mais braçais não são considerados menos importantes de um modo geral – mas na prática, o são, sim.

Então começa daí. Você faxinando, sendo estrangeira, limpando a sujeira dos outros, muitas vezes é algo que as pessoas não percebem como importante. Então, você não recebe “oi” e “bom dia” de volta, quando cumprimenta alguém que passa do seu lado, ninguém pergunta se você está feliz ou se você precisa de algo ou se está tudo bem. Você usa produtos fortes, carrega peso, nem sempre tem material de segurança, fica perto de químicos o tempo todo. E, ninguém se importa.

Você faxinando, sendo estrangeira, limpando a sujeira dos outros, muitas vezes é algo que as pessoas não percebem como importante. Então, você não recebe “oi” e “bom dia” de volta quando cumprimenta alguém.

Os principais perrengues que eu passei no Canadá foram no trabalho. E todos por eu ser mulher! Claro, também por estar trabalhando ilegalmente e por eu não poder reclamar e lutar pelos meus direitos. Vou contar, resumidamente, alguns.

Um cara me chamou para limpar um apartamento e, ao não atender as ligações do embuste, que aconteciam à meia noite, ele mandava mensagens do tipo “Nossa, como você é ocupada! ” “O que você está fazendo, hein? ” E depois ainda me adicionou no Facebook. Sim! O cidadão me achou no Facebook. Óbvio que eu sumi completamente.

Outra vez, um cara no trabalho disse que tinha um quarto para alugar e eu disse que eu estava procurando um quarto e que iria lá ver qualquer dia junto com meu noivo. No meio do trabalho ele me liga, pergunta onde eu estava limpando e aparece me oferecendo a chance de ir ver o quarto na casa dele. Isso no meio do trabalho. E a casa dele nem era perto, a gente ia ter que pegar o carro e ir. Não voltei mais nesse lugar.

Em outro dia, um cara dizia que eu tinha que treinar algumas coisas que eram destinadas aos homens para saber como fazer. Eram coisas como arrastar containers de lixo (sim, juro! Maiores que eu e extremamente pesados), limpar dentro de lixos com materiais pesadíssimos e outras tarefas. Depois, descobri que ele estava me fazendo de idiota e que não era pra eu ter feito nada daquilo. Corri também.

Os principais perrengues que eu passei no Canadá foram no trabalho. E todos por eu ser mulher!

Outras vezes, me chamavam para fazer trabalho de homem (sempre com coisas pesadas que precisava de força), mas me pagavam com o salário de mulher (sim, mulher ganhava menos porque fazia menos força, acredite). Tirando às vezes que homens sempre gritavam comigo e me tratavam bem mal. Ah, e claro, aquela sensação que eles deviam ter de “vou tentar dar uma investida porque sei que ela não pode reclamar”, aí o cara fazia o que? Pegava na minha mão, passava a mão no meu rosto, elogiava meu corpo… Que nojo!

Essas coisas nunca aconteceram com meu noivo. Um homem com mais de 1,80m de altura. Machista sabe com quem mexe, né?

Aí você pensa: “Nossa, miga, mas o Canadá parece ser um país tão justo com as mulheres! Não tinha o que ser feito para mudar o que você passou?”. Bom, o que eu pude fazer, eu fiz: sair de lugares em que eu fui tratada dessa forma. Eu até tinha a oportunidade de realizar denúncia anônima, mas aí eu colocava o local de trabalho na mira do governo e, se me pegassem trabalhando, eu seria deportada.

Então, pensando no meu objetivo, que era o inglês, coloquei isso como foco e segui em frente com as adversidades. Agora, minha gente, estou aqui para deixar algumas reflexões. O querido Trudeau deveria pensar ainda melhor nas mulheres do país. Afinal, quem está lá trabalhando ilegal está sofrendo como se o Canadá fosse um país bem menos evoluído. Essas mulheres não podem reclamar e, ao mesmo tempo, tudo acontece debaixo do nariz dele.

Essas coisas nunca aconteceram com meu noivo. Um homem com mais de 1,80m de altura. Machista sabe com quem mexe, né?

É claro que eu não poderia ter trabalhado ilegalmente lá, mas tem muita gente nessa condição e é ÓBVIO que eles sabem disso, porque é realmente muita gente. Então, para uma pessoa que se diz tão preocupada com as mulheres, taí algo que deveria ser pensado. Porque ser mulher é ser mulher, independente da situação em que está. Outra coisa: se em um país de primeiro mundo, com um primeiro ministro que se diz feminista e que se esforça pelos direitos das mulheres, esse tipo de situação acontece, imagina no resto do mundo? A coisa tá mais feia do que eu imaginava.

A questão que mais me preocupa agora é: quantos anos ainda vamos levar para melhorar as coisas? Às vezes me dá medo pensar que nossas bisnetas, talvez, vejam alguma mudança. A gente tem que falar, tem que expor, tem que tornar o assunto recorrente. Vamos naturalizar esse tema para que ele seja debatido com mais frequência. Vamos expor!

Reconhecendo meus privilégios

Antes de terminar, gostaria de deixar bem claro que eu reconheço os meus privilégios. Sei que as situações que eu vivi, apesar de terem me feito muito mal e de ser um retrato de um problema social lá no Canadá, ainda assim não representam o cotidiano da maioria das mulheres brasileiras, que dificilmente conseguem fazer o que eu fiz – ir morar fora, ainda que trabalhando muito.

Também gostaria de dizer que, por mais que eu tenha uma vida privilegiada em vários aspectos, procuro conhecer ao máximo e me preocupo com a condição de vida das mulheres brasileiras que, diferente de mim, não passam apenas nove meses nessa situação, mas muitas vezes uma vida inteira sendo “invisíveis”.

Antes de terminar, gostaria de deixar bem claro que eu reconheço os meus privilégios.

E mais: eu estava relativamente tranquila, por saber que tinha data para acabar e por eu precisar daquilo apenas para o meu estudo, não para sustentar uma família, por exemplo. Então, reitero que o texto, apesar de conter relatos que podem parecer supervalorizados (pois reconheço ser um assunto que me deixa emotiva, então faz sentido ele para mim ser emocionado, mas para os outros nem tanto), tem a função de relatar a expectativa de viver em um país melhor para as mulheres e a realidade vivida. De qualquer forma, estou aberta a críticas neste ou em outros sentidos. 

Pensando nisso, decidi incluir dados sobre as mulheres brasileiras que passam, diariamente, por situações similares ou, muitas vezes, piores que as que eu passei. É muito importante olharmos para o lado e entendermos as situações plurais das mulheres no Brasil. O texto fala sobre um lugar de fora do Brasil e sobre a minha experiência pessoal, mas deixo aqui a reflexão de como podemos contribuir para a situação que acontece aqui dentro do Brasil, de forma tão comum. Para refletirmos, aqui estão alguns dados importantes:

  • Uma pesquisa de 2008 (apesar de não muito recente, traz dados importantes) mostrava que as mulheres ocupavam 45,1% dos postos de trabalho, porém, representavam 95,4% em prestação de serviços para casas. Sendo, dessas, 52,9% negras e, apenas, 36,2% com carteira assinada. A pessoa que não tinha sua carteira assinada chegava a ganhar quase metade a menos.
  • Em um levantamento do IBGE, que compara dados de 2012 e 2016, vemos que apenas 4% das pessoas que prestam serviços para casas trabalham apenas em um local.
  • Uma reportagem do Profissão Repórter afirmava que, no Pará, a maior parte das empregas domésticas recebe menos do que 1 salário mínimo, e que a remuneração média do Brasil é de R$ 489,00.
  • Sobre a saúde das pessoas que trabalham nesta categoria, as mais comuns são problemas respiratórios, por conta do uso de produtos de limpeza e, também, problemas na coluna, por carregar peso ou má postura. 
  • O Brasil é o país com o maior número de empregados domésticos no Mundo, isso porque a pesquisa não conta os menores de 15 anos que atuam como trabalhadores doméstico (cerca de 7,5 milhões de crianças), segundo a Organização Internacional do Trabalho. Lembrando que apenas 10% dos trabalhadores da área possuem as mesmas garantias dos outros profissionais e, 30%, não possui qualquer garantia.
  • Para regularizar a profissão no Brasil, houve a PEC das domésticas, em 2013, e a regulamentação dos direitos dos trabalhadores domésticos, em 2015, porém, há muito o que ser feito para garantir direitos básicos a essas profissionais. Deixo aqui uma reflexão. O que nós, mulheres feministas, podemos fazer para contribuir para que essa parcela da nossa sociedade seja mais respeitada e tenha a situação melhorada?

 

 

17619442_10155174572478633_1077740441_n
Laura Villas Boas, 30 anos, Relações Públicas, especialista em marketing digital. Feminista de São Paulo, Capital

 

 

 

Anúncios

o que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s