Respeitar o meu trabalho também é um ato feminista

por Helô D’Angelo

Ano passado, me formei em jornalismo e automaticamente acordei para a realidade dura e fria de que não existe emprego formal na área da comunicação. Mas isso não significa que não exista trabalho: job tem de monte na forma do famoso ~freela~. Beleza. Lá fui eu ~freelar~ em jornalismo, design e ilustração.

Você pensa: “Caraca, que legal, vou trabalhar em casa, vou poder ver minhas séries entre um trampo e outro, vou organizar minha vida…”. Só que não. Porque, além da carga pesadíssima que muitas vezes nós mesmas nos impomos, os clientes são quase sempre sem noção: a galera te manda projetos de madrugada e espera que você responda, não se explica direito e depois reclama que o trabalho está “malfeito”, demora meses pra pagar e usa desculpinhas esfarrapadas e por aí vai.

Meninas, não dá pra ser assim. Ainda mais quando se trata de clientes que se dizem feministas, engajadas, #militei, empoderadoras. O trabalho de uma mulher autônoma (que pode ser tanto vender bolos quanto fazer uma análise de marketing de empresas), precisa ser respeitado tanto quanto o seu.

Pensando nisso, separei algumas das frases que os clientes mais me dizem e as respostas francas a elas:

1. “Dá um descontinho?”

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Que tal não?

Se o seu chefe te falasse “Fulana, posso descontar 50 reais do seu salário? Quebra essa pra mim?”, você provavelmente se sentiria lesada, acharia um absurdo e reclamaria pro RH. Porque você sabe que seu trabalho vale o que vale, e que descontar qualquer coisa do seu pagamento é um desrespeito à sua capacidade. Você sabe que a grana que você vai receber pelo trabalho que faz paga não só sua sobrevivência e diversão, como também qualquer investimento profissional que você venha a fazer.

Por que comigo seria diferente? É a mesma coisa, só que sem RH: eu sei quanto meu trabalho vale, eu tenho que me sustentar e eu preciso comprar materiais para o meu trabalho. E além do mais, diferente de você, que tem o salário fixo no fim do mês, eu preciso fazer um mínimo de trampos para conseguir me manter – e se eu te cobrar um precinho “camarada”, é bem provável que ele só pague os meus custos de trabalho e eu não lucre nada com isso. Então, nada de desconto, ok?

2. “Você não vai ganhar nada, mas vai poder assinar o trabalho e ter visibilidade…”

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Ata…

Só não seja essa pessoa. “Visibilidade” é um negócio que qualquer um minimamente consciente pode ter, hoje em dia, com as redes sociais. Não é uma moeda de troca, até porque raramente essa “visibilidade” de quem não topa pagar pelo meu trabalho rende frutos. Eu já sei como é: ou esquecem de colocar o link pro meu portfólio, ou escrevem meu nome errado, ou esquecem de creditar… Isso porque às vezes eu gastei horas naquele trabalho, não só por causa da “visibilidade”, mas também porque eu não gosto de fazer trabalhos nas coxas. Só que “visibilidade” não vai pagar minhas contas, não vai comprar meu material, não vai sustentar minha vida, vai? Então, a não ser que você seja uma organização feminista precisando de uma força (trampos que eu sempre topo de graça ou só pelo preço do material), sem lanchinho de graça.

3. “Eu só usei seu trabalho sem te dar créditos porque não sabia quem você era!”

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Bom, agora que você esclareceu…

NÃO. SEJA. ESSA. PESSOA. Esse tipo de atitude é um CRIME e tem nome: PLÁGIO. Você basicamente roubou o meu material, divulgou sem créditos e ainda tem a audácia de dar uma desculpa esfarrapada dessas (como se os materiais simplesmente brotassem na internet sem ninguém ter tido trabalho nenhum). E não, não é exagero: se você usar meu material sem a minha permissão, vai rolar denúncia na polícia SIM. Aceita e não me roube.

4. “Sei que são 3h da manhã, mas eu tive umas ideias…”
giphy (3).gifVocê quer me enviar ideias a hora que quiser? Ok, mas saiba que eu só vou ler pela manhã, e só depois das 9h. E só vou responder em um horário comercial, que é o mesmo em que você trabalha. Porque o seu tempo não vale mais do que o meu; seu momento de descanso também é o meu momento de descanso. Isso significa que, desculpa, eu não estou 100% do tempo disponível para você. Você não pode me chamar a hora que quiser. E pelo amor de deus, não me mande 300 áudios de Whatsapp com suas ideias e seu cachorro latindo ao fundo. Eu não vou ouvir. Mande por email. “Ah mas é uma ideia que eu vou esquecer se não mandar…” – email. “Ah mas é muita coisa…” – email. “Ah mas…” – email. Sacou?

5.Eu não sei o que quero, pensa você”
giphy (8).gifNão, pensa VOCÊ. Você quer o trabalho, não eu. E eu não leio sua mente, o que significa que, mesmo que eu pense em alguma coisa para você, muito provavelmente os resultados serão bem diferentes das suas expectativas e as chances de você não gostar são enormes. Não sabe exatamente o que quer? Não tem problema: me traga referências, ideias malucas, rabiscos, suas cores favoritas. QUALQUER COISA, mas me alimente com ideias.

6. “Não tenho tempo para fazer uma reunião/ conversar direito com você, podemos decidir por Whatsapp?” ou “Vai fazendo aí que quando você terminar a gente conversa”
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De novo, por que você acha que seu tempo vale mais do que o meu? Se você não tem tempo para discutir o que você quer que eu faça, por que eu deveria ter tempo para fazer o seu trabalho? Já que eu não tenho o maravilhoso poder de ler mentes, eu preciso entender exatamente o que você quer, senão o trabalho não vai sair exatamente como você quer. Simples assim. Me ajuda a te ajudar.

7. “Como assim, eu tenho que te pagar metade antes do trabalho ficar pronto? E se você me passar a perna?”
giphy (5).gifBom, e se VOCÊ me passar a perna? E nem precisa ser uma pessoa picareta pra passar a perna numa freelancer: você pode simplesmente desistir de um projeto quando eu estou no meio dele e já gastei material, recursos e horas que eu poderia estar investindo em outras coisas. Agora, se você me pagar metade antes, vai pelo menos pensar antes de me fazer ficar com cara de trouxa na frente do computador enquanto choro pensando no quanto eu gastei e no quanto vou ter que trabalhar para repor essa grana.

8. “Você pode mudar isso? E aquilo? E mais aquela coisa? E mais essa coisinha? E mais aquilo outro e aquele detalhezinho… Esse fiozinho de cabelo deveria estar mais 30º pra esquerda. E isso aqui também, dá pra tirar?”
ntntrstd.gifOlha, eu entendo: você quer que o trabalho fique perfeito, que seja exatamente como você imaginou (e quem não quer?). Mas não vai rolar. Existe uma diferença entre o que você quer, o que eu quero e o que é possível criar com as minhas habilidades e os recursos que eu tenho. Claro que as duas partes precisam abrir mão de algumas coisas para chegar a um acordo, e eu estou sempre aberta a abrir mão do que for. Mas entenda que, se você ficar mudando cada detalhezinho que der na telha, o trabalho jamais vai ficar pronto – e há grandes chances de eu pegar um bode tão enorme do job que no fim das contas ele vai sair um lixo.

9. “Sei que tá meio em cima, mas você pode fazer o meu trampo pra ontem?”
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Não. Desculpa, mas não dá para eu magicamente parir um trabalho só porque você não teve responsabilidade o suficiente para se planejar e me pedir com antecedência. O tempo que vou levar para executar o trabalho não está em discussão – a não ser que você queira me pagar a mais para colocá-lo na frente de outros projetos…

10. “Ficou lindo o trabalho! Mas eu queria mudar uma coisinha…”
Acordo é acordo: não vou fazer nada além do que a gente combinou. Se queria mudar alguma coisa, devia ter falado antes da finalização.

11. “Mas você gosta do que faz! Qual o problema se eu pedir algo a mais?”
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Não é porque você gosta de comer que vai passar 24 horas por dia comendo. Não é porque você gosta de dançar que vai passar 24 horas por dia dançando. Não é porque eu gosto de desenhar que eu vou passar 24 horas do meu dia desenhando. Sacou? Limites, amore. Limites.

12. “EU JUROOOO que vou te pagar! Sei que já faz um mês desde a entrega, mas é que o papagaio da cunhada da minha avó morreu e por causa disso todos os bancos da minha cidade fecharam!”
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Arruma um aplicativo do banco, contrata um motoboy, me paga em MOEDA, venha voando até a minhas casa, eu não ligo: só bicha, me dê meu dinheiro. Se você teve algum problema pessoal, tudo bem atrasar alguns dias. Mas é isso: ALGUNS DIAS, não mais de uma semana. Eu preciso pagar minhas contas e, diferente de você, meu salário não vem no fim do mês.

13. “Mas você trabalha em casa! Tá reclamando do quê?”
De você. Volte para o início do texto e leia tudo de novo.

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Helô D’Angelo, 22 anos na cara e fazendo o que pode para viver do que ama: desenho e escrita. Saiba mais sobre ela em seu portfolio: helodangelo.wixsite.com/portfolio
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