Faltam mulheres reais nos filmes

por Mimi Ka, do Already Mimi

Em uma cena do seriado Lúcifer está acontecendo um casamento e o padre diz o famoso: se alguém se opõe à essa união que fale agora ou cale-se para sempre. Então Lúcifer diz algo interessante: “Sim, eu tenho um problema. Alguém mais notou como incrivelmente deslumbrante e bonita esta jovem mulher é e como completamente ridículo este cara é? Quer dizer, o que é isto, um casamento ou um sequestro?”.

Essa situação pode ser exagerada (e até meio esquisita), mas a real é que isso aí é algo muito frequentemente retratado em filmes e seriados, particularmente em seriados de comédia: “o cara feio e sua linda parceira”.

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Em “Como se Fosse a Primeira Vez”, Drew Barrymore é a gatinha que tem uma crush no ADAM SANDLER (nota da editora).

A variação de protagonistas masculinos vai desde caras lindos, fofos, magros, gordos, chatos, não-tão atraentes, inteligentes, idiotas, engraçados, nojentos entre outros mais e seus atores podem ou não ser fisicamente similares ao personagem. Enquanto que para as personagens femininas fazerem parte do elenco principal, as atrizes precisam ser, pelo menos, fisicamente atraentes – ou seja: estarem de acordo com o padrão de beleza imposto, que é magro e branco.

Quando alguns filmes e seriados “ousam” em mostrar mulheres reais, estes acabam sendo podados por uma parte da audiência, a parte que cresceu aprendendo – com a própria mídia – a não respeitar as mulheres.

Geralmente a mulher também é muito mais atraente do que seu parceiro. O que revela muito sobre duplos padrões e como a mídia, principalmente Hollywood, trata personagens femininas e as atrizes que as interpretam. Dá pra fazer uma lista imensa, mas vou citar só dois exemplos: Adam Sandler e todos os seus casos amorosos e Jack Black e todos os seus casos amorosos. Já deu pra sacar, né?

Podemos ter homens medianos ou não tão atraentes interpretando homens medianos ou não tão atraentes. Mas quando se trata de mulheres medianas ou não tão atraentes, a mídia só quer atrizes de corpo perfeito.

Nós dizemos às pequenas garotas que elas podem fazer qualquer coisa e ser o que elas quiserem. Mas a mídia lhes diz que esta regra só se aplica se elas se encaixam em um determinado modelo.

Uma mudança simples poderia funcionar. Bater de frente nesse modelo e dar oportunidade para diferentes tipos de mulheres interpretarem mais diferentes tipos de personagens. Não parece fácil?

Então por que ainda assim, não podemos ver mais mulheres reais retratando mulheres reais? Porque quando alguns filmes e seriados “ousam” em mostrar mulheres reais, estes acabam sendo podados por uma parte da audiência, a parte que cresceu aprendendo – com a própria mídia – a não respeitar as mulheres.

Aquele espectador não quer saber da mulher gorda que sofre humilhação, da mulher negra que sofre com o racismo, da mulher queer que sofre preconceitos ou da mulher moderna que trabalha tanto quanto ou mais que homem para receber menos que ele – e ainda aguenta a pressão da sociedade para ser a “mulher completa” com filhos e carreira. Infelizmente, esse tipo de espectador só quer saber da história do cara que todos achavam o perdedor mas que agora casou com a mulher mais gostosa do pedaço. Você sabe, tipo TODOS os papeis do Adam Sandler.

Não estamos nem questionando a veracidade destes casais na vida real, pois todos os tipos de casais existem na vida real. Mas precisamos entender a discriminação contra as mulheres nesse ramo e que influencia todo comportamento da sociedade.

Uma mudança simples poderia funcionar. Bater de frente nesse modelo e dar oportunidade para diferentes tipos de mulheres interpretarem mais diferentes tipos de personagens. Não parece fácil?

Queremos que as personagens femininas sejam mais do que a esposa gostosa de um protagonista qualquer. Que ela possa ser a protagonista de sua história. E que qualquer mulher tenha a oportunidade de interpretá-la.

No momento, para que a mídia faça mais filmes e seriados como esses, basta que as pessoas assistam mais filmes e seriados como esses. Por isso é importante apoiar conteúdo com boa representação feminina e compartilhar seus pensamentos sobre eles. Precisamos aprender, ensinar e discutir essas questões. E através desses atos, demandar um tipo de conteúdo.

Para terminar, aqui vai um exercício: Pense em quantos filmes viu com uma protagonista feminina que tenha alguma deficiência. Agora, pense em quantas dessas personagens foram interpretadas por mulheres que realmente possuem deficiência. Pois é, né…

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Mimi Ka., 29 anos, gosta de falar sobre a representação da mulher na mídia. E ver vídeos de cachorros. – Representation Matters!
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Um comentário

  1. Mimi Ka, ao ler seu texto lembrei do discurso da Viola Davis ao ganhar o Globo de Ouro (?) ano passado por interpretar Annelise, uma advogada negra, bem-sucedida, que ganhava mais que seu marido, no seriado How to Get Away with Murder. Não assisto o seriado, mas me lembro de uma parte do discurso dela que me impactou muito: se não existem mulheres negras ganhando prêmios como ela é porque não existem papeis criados para elas. A não ser os de empregada doméstica e engraçadas e rasas, como nos apresenta a TV Globo em suas novelas. Terminando, concordo com você que a mudança tem que partir de nós espectadores, mas acho que pode partir de tudo. Nas escolas, nas nossas famílias, nas rodas de conversa com nossos amigos, na Internet, na própria Hollywood ou em outros lugares de produção de filmes e seriados, todos são espaços de resistência contra os rótulos impostos a nós mulheres e permitem mudanças sobre os papeis da mulher e do homem.

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