Violência contra a mulher NÃO é mimimi

por Camila Gregori, Kelly Miyashiro e Tami Rodrigues

O texto a seguir faz parte do livro reportagem De Femina Perseverante, Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, e foi editado para caber melhor no blog. O livro inteiro pode ser acessado aqui.

José Mayer assedia por meses uma figurinista (mas ela é a louca). Victor, da dupla Victor e Leo, agride a namorada (mas ela é exagerada). Johnny Depp bate na esposa e deixa marcas roxas pela pele dela (mas ela é mentirosa). O goleiro Bruno mata a esposa, esquarteja seu corpo e dá os pedaços para os cachorros (mas ele merece perdão). A violência contra a mulher está em toda a parte. A reportagem de Camila, Kelly e Tami  explica um pouquinho de onde vem essa violência, quem são as vítimas e como ela se perpetua:

Origens da violência

A origem da violência contra a mulher está no patriarcado e na desigualdade de gêneros, ambos enraizados e naturalizados em nossa sociedade. A filósofa francesa Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), analisa a condição social da mulher e como o papel de “sexo frágil” que ela representa perpetuou-se ao longo do tempo. A autora aponta que não houve um marco histórico que colocou a mulher nesta situação de inferioridade em relação ao homem. Partindo dessa premissa, chega-se à ideia defendida por Beauvoir de que ser mulher é uma construção social materializada ao longo da vida. As distinções biológicas entre o sexo feminino e o masculino não justificam a desigualdade de gêneros.

Essa naturalização do gênero feminino como dependente e fraco provém também do fato dos homens terem dominado o conhecimento e o acesso a ele por um longo tempo. Seja no âmbito religioso ou científico, a história da humanidade foi escrita pelos homens. É possível encontrar a inferiorização e objetificação da mulher nas obras mais antigas que se conhece. Ela sempre foi apresentada como responsável pelos dotes domésticos, maternos e conjugais. Enquanto o homem ficou com a função de provedor do lar, onde possui uma profissão remunerada para o sustento da família.

De segundo sexo a sexo violado

Porém, os serviços do lar se tornaram invisíveis perante a sociedade, marcando ainda mais o papel social da mulher como serva de sua família e eliminando sua própria individualidade. Essa naturalidade estabiliza os comportamentos e legitima a opressão, fazendo do gênero feminino escravo da sua própria condição social, o que também dificulta o processo de emancipação das mulheres. De forma clara, a violência contra mulheres é um fator decorrente da objetificação delas. Para o homem, a mulher deve satisfazer suas ordens e desejos sexuais e seguir as regras, caso o contrário, é necessário corrigi-la,da forma mais grotesca que existe, para que respeite as decisões tomadas pelo patriarca da família.

A socióloga brasileira Heleieth Saffioti também segue a linha de pensamento de Beauvoir ao tratar o patriarcado como uma construção social e injustificável pelas diferenças biológicas entre os sexos. Porém, em estudos mais recentes como na obra Gênero, Patriarcado, Violência, Saffioti aprofunda a questão sobre a violência de gênero no Brasil e defende que a violência doméstica está mais associada às relações patriarcais do que sociais. Ela também aborda a forma como a violência contra mulher é trivial em nossa sociedade, contribuindo para o fomento do papel de macho superior desempenhado pelo homem.

Saffioti traz, ainda, outros aspectos importantes e atuais sobre a violência doméstica, pois a socióloga entende que esta violência, seja ela psicológica ou física, é prejudicial tanto para a vítima quanto para o agressor e a outras pessoas que convivem com ambos; e também acredita que somente cada mulher, no plano individual, é capaz de determinar o que é violência para si mesma. Indo um pouco além da questão teórica, a autora propõe que somente uma rede bem articulada entre os poderes públicos pode ajudar no combate à violência contra a mulher.

A violência contra a mulher hoje: dados

Passaram-se 12 anos desde a publicação do estudo feito por Saffioti, e quase 70 desde que O Segundo Sexo foi lançado, mas a violência contra a mulher ainda está presente em nossa sociedade. Mesmo com algumas políticas públicas criadas para combater e prevenir este problema social, o Balanço 2015 da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, mostra que o cenário pouco mudou.

As estatísticas coletadas mostram que ao todo foram registrados 76.651 relatos de violência, sendo que 50,15% são de agressões físicas (gráfico 1), outras formas
de violência como moral, sexual, patrimonial, cárcere privado e tráfico de pessoas também foram computados.

grafico1

E em 98,2% dos casos, avaliou-se que a violência representava algum tipo de consequência para a saúde e vida social da vítima. O gráfico 2 (abaixo) mostra quais são as consequências mais comuns que os abusos contra a mulher provocam, a morte é a principal, com 29,52%, enquanto outros riscos como aborto, suicídio, estupro, dano moral, perda de bens e direitos e ameaça a terceiros somam 22,5% dos casos.

grafico2

O Balanço 2015 revela ainda que, entre as vítimas, 34,67% são dependentes financeiramente de seus agressores. Já outros dados divulgados em novembro do ano passado pela Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 mostram um panorama dos atendimentos realizados ao longo dos 10 anos de existência do Ligue 180 (gráfico 3).
No primeiro ano de funcionamento, a iniciativa registrou 46.723 atendimentos, porém há um aumento gradual até 2009, dando um salto em 2010 para mais de 730 mil assistências. Em 2015, foram 634.862 atendimentos.

grafico3

Portanto, Saffioti também estava certa ao propor como solução uma rede de apoio às vítimas. Pois é muito difícil para as elas saírem de uma situação de violência e superarem as agressões e humilhações sofridas. Mesmo que os dados mostrem o contrário, nota-se que muitas delas dependem, sim, financeiramente dos seus agressores,
no sentido de complementar a renda para o sustento da casa e dos filhos, se houver. Há, ainda, a dependência psicológica do parceiro. Esses fatores dificultam ainda mais o processo de emancipação das mulheres em situação de violência.

As diversas delegacias da mulher espalhadas pelo Brasil são um importante instrumento no combate à violência doméstica e familiar. A Dr.ª Rosmary Corrêa, primeira delegada de uma delegacia especializada no atendimento a mulheres, fala sobre a relevância da instituição para a sociedade: “Ela é importante porque foi a primeira política pública para as mulheres em situação de violência. E aí foram criando outras políticas como
a defensoria, o auxílio psicológico e outros”, explica.

A delegada, que atualmente comanda o Conselho Estadual da Condição Feminina (CECF), criado em 1983, ainda diz que as delegacias da mulher são a porta de entrada para as vítimas terem acesso a outros mecanismos como abrigos, auxílio psicológico e realização de exames de corpo delito. Por isso, estas mulheres precisam ser bem acolhidas nestes espaços, para que ela não desista de tentar sair de um relacionamento abusivo.

 

Anúncios

Um comentário

o que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s