Cobertura: debate sobre o documentário ‘Nós, Carolinas’

Produzido pelo coletivo Nós, Mulheres da Periferia, o documentário foi o gancho de um evento realizado na Faculdade Cásper Líbero pela frente Feminista Casperiana Lisandra

por Nathalia Gorga

A voz delas, em alto e bom som, sendo ouvida com toda atenção pelas presentes, sem ruídos, sem o corte de homens, sem o desinteresse do cotidiano tumultuado e barulhento, no qual todos falam, mas pouquíssimos escutam e, por mais de alguns instantes, refletem.

O Cine Debate Lisandra: “Nós, Carolinas”, que aconteceu no dia 31/03, organizado pela Frente Feminista Casperiana Lisandra, se resumiu em pensar a partir do conhecimento e vivência das mulheres do documentário (já falamos sobre ele aqui) e das convidadas da mesa, o que é extremamente importante em uma rotina tão automática e desgastante como a que estamos acostumados e, pior do que isso, conformados – um pensamento também da mediadora do debate, Ana Júlia Gennari, co-autora de Vozes Feministas da Periferia, co-fundadora deste blog, do Coletivo Africásper e membro da Frente Feminista Casperiana Lisandra.

As mulheres responsáveis por fazer acontecer um debate tão intenso e completo sobre a mulher negra da periferia e suas tantas questões são Aline Kátia Melo, uma das co-fundadoras do coletivo Nós, Mulheres da Periferia; Marina Martins Cipolla, pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura no Centro de Estudos Latino Americanos sobre Cultura e Comunicação (CELACC) e na Escola de Comunicação e Artes da USP (sua linha de pesquisa segue nas áreas de movimentos populares, feminismo e ativismo virtual) e Thaís Regina Santos, graduanda em jornalismo e co-fundadora do Coletivo AfriCásper.

O documentário “Nós, Carolinas” abriu o evento, a fala das convidadas e os olhos de quem assistiu, para realidades, nem sempre enxergadas pelas pessoas e mostradas de uma única e, portanto, equivocada forma, pelos veículos de comunicação considerados tradicionais. Emocionante, informativo e sensível, a obra traz partes das histórias de quatro mulheres (assista o trailer aqui).

No filme, antes de cada uma das entrevistadas aparecer, as regiões onde moram são apresentadas em dados: são citados o número de mulheres, de habitantes e distância do centro. As questões são tratadas com o sentimento de quem conta, as quatro “Carolinas”. Por exemplo: o racismo enfrentado há 56 anos por uma delas é o vivido atualmente pela outra – no entanto, as duas contam e reagem diferentemente em relação a isso. Uma fala de relacionamentos afetivos com os olhos marejados e a voz tremida, outra planeja o futuro com um sorriso enorme e se orgulha do cabelo natural, ao invés de seguir os padrões de outros. Tom de felicidade madura, decepção jovem, conquista adulta, determinação adolescente…

E, com essa grande inspiração, começa o debate.

“No centro as coisas já estão muito dadas, na periferia, por conta das políticas públicas e também pela característica de resistência, surgem ideias e grupos novos. É como se fosse dividido entre periferia potência e a periferia estereotipada pelo programa do Datena, por exemplo. E essa periferia, que é lida como potência por mim, tem muito a ver com os movimentos sociais, principalmente os de moradia e o negro, que têm as bases na periferia e, a partir daí, vão crescendo e resistindo”, foi uma das falas iniciais da pós-graduanda Marina Martins.

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Da esquerda para a direita: Marina Martins Cipolla, Ana Júlia Gennari, Aline Kátia Melo e Thaís Regina Santos. (Foto: Nathalia Gorga)

Cultura sempre marginalizada

Tanto eu como você, que está lendo, já assistimos e lemos diversas matérias sobre assassinato, tiroteio, violência doméstica, tráfico de drogas e tantas outras, com o nome de alguma periferia como centro do acontecimento. Mas dificilmente nós, que moramos no centro, paramos para pensar que a periferia também é o lugar onde iniciativas originais e humanas se concretizam todos os dias, como, por exemplo, o próprio Nós, Carolinas. Isso porque essas iniciativas dificilmente encontram espaço na grande mídia.

Thaís Regina complementa a questão sobre mídia com rigidez: “É uma responsabilidade social entender e propagar vozes de mulheres da periferia. A gente não tem o poder de dar voz, porque ela já existe e berra. Comunicação é um meio para conscientizar e transmitir as mensagens e esse documentário é um ótimo exemplo disso”, concluiu, elogiando. Em seguida, a mediadora Ana Júlia, seguiu os passos de uma das poucas professoras negras com quem teve aula na Faculdade Cásper Líbero – a historiadora Juliana Ser -, que costumava fazer debates, e pediu para as presentes fazerem o “teste do pescoço”: olhar para os lados, para frente e para trás com o objetivo de verificar quantas pessoas negras há em determinado lugar. No evento, havia pouquíssimas pessoas negras.

“É uma responsabilidade social entender e propagar vozes de mulheres da periferia. A gente não tem o poder de dar voz, porque ela já existe e berra. Comunicação é um meio para conscientizar e transmitir as mensagens e esse documentário é um ótimo exemplo disso” – Thaís Regina

“Não dá para fazer um movimento social sem interseccionalizar classe e raça. A gente não pode ficar apático e naturalizar o fato de que não há negros nos espaços elitizados, como em uma instituição de ensino privada e, nem só privada, porque na USP também não temos um grande índice de pessoas negras. Em um ambiente relativamente cheio para eventos que fazemos em um horário difícil [porque as pessoas trabalham], a maioria das pessoas é branca, dá para citar nos dedos de uma mão as pessoas negras e, talvez, as pessoas brancas estejam pensando: ‘O que eu tenho a ver com isso?’ Como comunicadoras, vocês têm tudo a ver com isso, como a Thaís falou, é uma responsabilidade, a gente refletir, entender privilégios e usar do nosso meio para pautar essas questões”, provocou Ana Júlia depois do “teste”. E ela tem toda razão: só para dar uma ideia, a população negra representa mais da metade (53%) dos brasileiros, mas continua sendo a fatia mais marginalizada, explorada, com menos estudo e socialmente excluída.

Assim, ela deu espaço para perguntas e para um silêncio pensativo raro, até mesmo em salas de aula.

Perguntas sem resposta

Para responder algumas dessas perguntas, Aline Kátia esmiuçou a produção do filme e aprofundou questões psicológicas das mulheres entrevistadas e até do seu coletivo, que produziu a obra: “Não é de cima para baixo, a gente não foi para periferia ensinar feminismo, fomos ver o que as mulheres fazem no dia a dia e é feminismo. Às vezes, elas não têm nem noção de que é, então é uma questão delicada entrar em contato com outras faixas etárias, são outras questões, outras realidades, que a gente esquece. Quando contatamos, lembramos das mães, das avós, da família e, hoje em dia, tem um boom do feminismo chegando no ensino médio também. Na minha época não tinha nada disso, quando começamos o Nós, Mulheres da Periferia, a gente morria de medo de responder se éramos ou não feministas. Com o tempo entendemos: ‘Se estamos em um coletivo, falando sobre mulheres, falando sobre direitos, então, sim, nós somos feministas. Isso não é um palavrão, isso não é um pecado”, concluiu.

Naquela sala, ela e as outras convidadas atingiram algo: o interior das ouvintes, por meio das palavras sábias, fortes e cheias de emoção, emoção essa que era ainda mais forte quando se tratava de representatividade da mulher negra em novelas e filmes. E, nessa parte do debate, elas trouxeram referências, que deixaram a discussão ainda mais interessante por conseguirmos visualizar com nitidez o que descreviam.

“Não dá para fazer um movimento social sem interseccionalizar classe e raça. A gente não pode ficar apático e naturalizar o fato de que não há negros nos espaços elitizados, como em uma instituição de ensino privada e, nem só privada, porque na USP também não temos um grande índice de pessoas negras” – Ana Júlia Gennari

Thaís Regina questionou: “Tem cota para negros nos filmes?” e exemplificou os estereótipos que mais são reproduzidos: “tem a barraqueira, a engraçada, a mãe preta, que aconselha todo mundo, ela é a última a comer, que tem um vínculo com a sociedade escravocrata, e a personagem hipersexualizada, secundária, com o shorts curto, símbolo sexual e ela sempre samba. Mas tem uma questão que passa desses estereótipos; eu acho muito importante a gente falar sobre a estabilidade psicológica da mulher negra, porque nós não representamos elas em filmes e novelas de forma estável, ela é sempre a louca, como a Rochelle [interpretada por Tichina Arnold na série Todo Mundo Odeia o Chris]. O dedinho que voa, gente”, descontraindo por instantes e voltando ao ponto principal: “Quando você conhece uma mulher negra, você espera que ela grite, que ela mexa o dedo e diga: ‘Meu amooooor, não vai ser assim!”, imita, mudando a voz e estalando o dedo de cima para baixo. Depois da risada, as feições se contraem: “Ela é engraçada e facilmente tirada de louca nas situações. Isso não é dahora. Isso é racismo”.

E, caso alguém pense: “mas é só uma novela, é ficção” ou algo do tipo, me inspiro na fala da Thaís Regina, para dizer que essas obras, transmitidas e, principalmente, assistidas por muitas pessoas do país inteiro, é relevante exatamente porque faz com que seus espectadores se identifiquem com elas e as usem como referência para o cenário atual, ou seja, como se fossem quase retratos do que vivem(os), influenciando diretamente até mesmo as atitudes de quem as assiste. Para Ana Júlia, o retrato da mulher negra, na verdade, é uma caricatura, que a desumaniza e, de acordo com ela, a culpa não é da novela, pois a obra reproduz o que a sociedade traz, solidificando e naturalizando. “A culpa é do racismo estrutural”, completa.

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As mediadoras do debate e as meninas da Frente Feminista Casperiana Lisandra

Uma das presentes fez um relato sobre a indignação de sua avó ao assistir a novela Da Cor do Pecado, que tinha como personagem principal Preta [interpretada por Taís Araújo]. Todos a chamavam de Preta, era como se esse fosse seu nome e, então, a avó começou a se irritar: “Ninguém se chama Preta. Eu, sua avó, te chamar de pretinha, tudo bem, porque é entre nós. Agora, outras pessoas chamarem é ofensivo. Alguém tem que mandar e-mail para Globo”. Até que, em um dos capítulos, Preta foi presa e continuou sendo chamada assim, inclusive pelo delegado. A avó conseguiu, por meio das filhas, enviar a reclamação. A solução da emissora foi a seguinte: Preta da Silva, o que deixou a senhora ainda mais indignada. A menina, então com 9 anos, presente no evento já com 22, nunca se esqueceu do episódio.

Soluções e reflexões

Depois de falar sobre o que produzimos, a conversa chegou ao que consumimos e como o capitalismo é importante de forma negativa e positiva para as mulheres negras. “Não sei se vocês já viram propaganda do Salon Line, que tem agora no metrô, pelo menos na Linha Vermelha, por algum motivo que eu não sei qual é”, provoca Marina, e continua: “Para quem não sabe, Salon Line é uma linha de produtos para quem tem cabelos cacheados e crespos. E, assim, é demanda né? Igual vimos no depoimento da Renata [documentário “Nós, Carolinas”]. Os movimentos sociais e o movimento negro foi pautando isso, por muito tempo. Então, as meninas que tinham cabelo cacheado e queriam deixar natural, tinham que se virar, porque só existiam produtos para cabelo liso. Até quando ela cansava e preferia alisar, porque era mais fácil, não tinha o que fazer com o cabelo dela. Mas teve resistência e, provavelmente, as empresas começaram a perceber que a gente queria produto para cabelos cacheados, porque as pessoas negras estão deixando seus cabelos como são, aí surge a demanda e o capitalismo supre. Não existe ética”.

Aline Kátia vê um lado positivo nessa questão e o expressou nas seguintes palavras: “Mesmo que eles estejam fazendo isso em prol do lucro próprio, de certa forma, acaba trazendo um resultado bom, quando jovens e crianças de hoje veem mais cabelos enrolados, mais diversidade. Elas têm uma propensão a se sentirem mais aceitas, porque, por exemplo, eu fui uma criança que colocava uma camiseta na cabeça para fazer o cabelo liso da Xuxa. Então, assim, a televisão chega, não só na periferia, mas em todos os lugares, e é uma das nossas primeiras buscas por referências. Ainda são apenas alguns segmentos que nos representam. A bebida, o creme, quantos ainda faltam mais? E, conforme você conversa com as pessoas e com movimentos, você percebe que é como um pedido de desculpas por tanta coisa errada que foi feita até hoje. A gente está em uma época para tentar passar um pano, deixar para trás, eu vejo isso um pouco na escola, a questão da retratação. Tem seu lado bom por causa da representatividade, mas ainda não é nada, é só uma distração, falta muito ainda”.

“Por que [as revistas femininas] não [falam sobre]: ‘Como ser uma pessoa melhor?’ Temos que ter um estímulo para pensar diferente” – Aline Kátia

Para a co-fundadora do coletivo, que, quando era mais jovem, lia Capricho, Atrevida e Querida e, posteriormente, passou para Cosmopolitan, nós somos muito moldados pelo o que está ao nosso redor e, quando lemos publicações como as que ela lia, ao invés de refletir sobre as matérias, como: “Como conquistar o gatinho” e “Maneiras para enlouquecer seu homem”, apenas as aceitamos. Ela questiona: “Por que não: ‘Como ser uma pessoa melhor?’ Temos que ter um estímulo para pensar diferente”.

Para encerrar, as convidadas deram dicas de como ser uma boa comunicadora e cumprir com a responsabilidade de ser o meio para propagar vozes, como as vindas das periferias. Aline Kátia falou sobre a importância de ouvir: “Às vezes você está se formando com a cabeça borbulhando de ideias, já pensando em como colocá-las em prática. Por exemplo: eu e as meninas já tínhamos uma metodologia para as oficinas e quando começou a rolar, a gente percebeu que é possível colocar um mesmo tema em cinco lugares diferentes, que vão sair cinco discussões diferentes e essa vivência de escutar mais do que falar, transformou muito a gente. Porque, como jornalista, queremos falar, e a gente tem que ouvir, porque depois podemos fazer essa ponte de levar essas falas de outros lugares, mas, às vezes, a gente ouve e repensa nossa vida e atitudes, porque entramos em contato com sabedorias não acadêmicas de pessoas de várias idades e condições”.

“A gente não foi para periferia ensinar feminismo, fomos ver o que as mulheres fazem no dia a dia e é feminismo” – Aline Kátia

Thaís Regina bateu na tecla do que nos influencia: “Consuma coisa boa. A gente vive no capitalismo, então a gente precisa falar de consumo. Que série você vê? Que músicas você escuta? Qual novela você assiste? O que você segue no Instagram e no Facebook? Procurem arduamente, porque vocês vão achar uma série que só tenha pessoas negras, procurem, vocês vão achar filmes assim, perfis no instagram, essas coisas existem, a gente que está em uma zona de conforto tão profunda, e nós temos uma grandessíssima preguiça de sair dela, e nós precisamos sair, precisamos sair da certeza de que estamos certos, a certeza de que somos desconsconstruídos. É petulância, é só ego. Elas são gratificantes e geram profundidade”.

Ana Júlia enfatizou o cuidado ao usar a expressão dar voz: “Cuidado ao fazer jornalismo, uma peça publicitária, fazer um filme, uma propaganda ou o que seja, e dar o ar de heroísmo ou até aquela coisa colonialista de chegar e se colocar acima de quem está falando. O lance é usar do seu privilégio de ser um comunicador para ser um meio”.
As quatro, naquela tarde, foram um meio para propagar reflexões, opiniões e sentimentos, talvez, antes desconhecidos para muitas das presentes, de corpo e alma, imersas na discussão, que teve, como base, respeito e conhecimento.

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Nathalia: 22 anos, aquariana que gosta de ter muitos peixes em suas águas, o que significa amores, ideias, inspirações, vontades e sonhos… Três paixões: Claudia, Clarice e Cássia. Dois prazeres: ler e conhecer (pessoas, lugares, comidas). Um vício: escrever.
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